----- Bem (Liz disse) você certamente sabe usar a cabeça. Deve haver um poço enorme dentro da sua. No meu caso, o lírio do vale é minha flor de nascimento. Belo, mas venenoso. E imagino que, no seu, caso de uma obra-resultado de tão profunda ''necessidade'',cujo estilo é uma arma forjada com intenções assustadoramente precisas, do qual cada imagem, cada raciocínio resume tão claramente tudo, não pode de repente falar de outra coisa, certo (?) ------, perguntou-me. ----- Certo , mas nem sempre. Em outros planos, o trincamento da monotonia pode nascer, justamente, de um estado de desocupação mental. Foi o que afirmou Freud, insistindo sobre as virtudes da sublimação, com aquela confiança tão comovente nos poderes da consciência e da expressão que ele havia conservado. Mas as coisas não são tão simples quanto Freud gostaria. É preciso dizer: há outro nível da mesma experiência, no qual vemos Michelangelo tornar-se cada vez mais atormentado, Goya cada vez mais possuído, e Holderlin cada vez mais louco, mergulhando demasiadamente fundo no movimento do devir poético. No meu caso, sempre preferi viver à cavalo. Sempre entrando na vida e na mente dos outros como um ''grande de Espanha'' na cátedra de Sevilha. Muitas de minhas bravatas são frágeis, mas sempre muito significativas (.) -----, eu disse. Devia estar parecendo-lhe tão prudente com as palavras naquela tarde, que em momento algum ela viu em mim um fanático, o que talvez eu fosse no meu íntimo. Novamente, a atração pelo meu labirinto, maelstrom recorrente de voz neutra e ameaçadora. E não podia ser só minha cara a responsável pela exigência insólita de renúncia à superfície, pelo apelo à descodificação total da vida. Minha exigência era, para Miss Rogoff, a fonte de uma gigantesca encarnação espectral, de algo vasto demais para ser posto em prática à qualquer hora do dia. ------ É muito raro (ela disse) encontrar alguém com quem eu possa ter uma conversa como essa. Mas creio que o bem que essa conversa está me fazendo deve ser incentivado, a ponto de tomar a forma de um debate com outras pessoas (.) -----, depois, espontaneamente declarou como estava achando meu último livro ''absorvente''. E provavelmente, não estava mentindo. Ela lia muitos livros, e com uma amplitude de compreensão e julgamento bem mais larga que a de suas amigas, que , se não encontrassem num livro significação cosmética e publicitária, a coisa toda não prestava. Além do mais , que ameaça eu podia representar para uma estrela famosa ? ------ Mas porque seus livros exigem de suas leitoras tanta auto-transformação ? Porque suas histórias nunca partem daquilo que lhes é pelo menos um pouco familiar ? Porque buscam sempre aquilo que nunca foi antes pensado, nem dito, nem ouvido e nem visto ?? Porque priva suas leitoras do mundo, dando-lhes como morada unicamente o mais profundo abismo da consciência ? Porque atravessá-las a todo momento pelos seus fantasmas, nos quais elas não acreditam e que não lhes dizem nada de especial, provocando-lhes apenas um ligeiro mal-estar , evocado por uma loucura aflitiva e sem nome (?) No entanto, apenas lendo seus livros, é que ouvimos uma fala que não simplesmente fala, como num livro comum, mas que ''é''. Nela, nada começa, nem termina, ela continua sempre e sempre recomeça de qualquer ponto, sem explicação (.) ------, ela disse. Por baixo de toda sua civilidade, quanta fibra !, e um lado muito generoso quando ela conseguia relaxar, o que não acontecia com frequência. Quando relaxava, era fácil perceber dentro dela alguma coisa tateando em busca de fazer o que era o certo. E era assim, quando ela me lia ou prestava atenção em mim. Mas como não queria confiar cegamente no julgamento dela por muito tempo, eu disse: ----- Para além de todos seus 'dados'' sem encanto ou felicidade, o mundo dos homens não é inteiramente o efeito de uma imaginação, de uma ficção (?) Claro que é (!) Efeito frequentemente maravilhoso, e mais frequentemente ainda angustiante, ameaçador e adrenalínico. Socialmente, minha magnificência, muitas vezes presa voluntariamente dentro de um quarto, bem mais sutil, bem menos imponente que a de Luís XVI em Versalhes, mas fundada exatamente da mesma maneira. A pompa verbal da qual eu raramente prescindo, está, no entanto, sempre coberta de um membrana de gravidade eminente, quando evoco os fantasmas da minha masmorra, igual à um Apocalipse invisível. Um ator, sustentando nos próprios ombros o fardo de uma obra tão gigantesca, que até quando ele se cala ouvimos os rangidos de sua cama no meio da noite; fibras rasgam-se diante dos seus olhos, e seu êxtase é percorrido por criaturas sem corpo que estão em todos os lugares do mundo ao mesmo tempo,estremecendo luminosamente em sua visão numa espécie de frequência ondulatória que provoca o temor, a admiração e a cobiça de sua consciência, alternada e simultaneamente. Essa é a verdadeira luz do tempo que eu habito.
K.M.
Numa deambulação híbrida, entre passeio e caminhada pela cidade, e agora nos aproximávamos do cume. Estranhamente, eu procurava identificar o cume com uma ... chama muita alta que sobressaía contra o céu, e que, destacando-se na imponente escarpa , a cruzava. De repente, já não íamos a pé, mas estávamos num carro em alta velocidade, sentados ao lado um do outro no banco de trás, ao que me pareceu; talvez o carro tenha mudado de direção varias vezes, até entrar com tudo naquela reta. Então, quando ele atingiu trezentos quilomentros por hora, inclinei-me para a amada para beijá-la. Minha camuflagem a comovia imensamente, naquele momento.
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