quinta-feira, 20 de outubro de 2016
Grandón do pidgin Joss (26)
Às seis da manhã, eu já havia alugado um dos noventa mil quartos de hotel de Nova York, na 13 Eight Ave., a rua mais bonita do West Village, calçada com arenito avermelhado e ladeado por butiques. Andara até o amanhecer pelas estações de metrô, até o momento em que meu celular tocou. Era Liz: ---- Não sou de espantar-me facilmente com o vigor mental dos meus sonhos noturnos (ela disse) mas o dessa noite produziu na minha mente o efeito de uma dissertação de trezentas mil palavras, e abaixou um pouco minha imunidade. Acho que estou ficando gripada. Sonhei que tinha estado com você no metrô. Impressionante como os rostos das pessoas passeando num carro ou num ônibus refletem intensamente o que os rodeia ao longo do trajeto, e como seus olhos acompanham todos os estímulos das cenas, desenhos, textos e pigmentos de cor que invadem a paisagem a todo instante. Mas no metrô é tão diferente : tudo é rígido e atemporal (não há nada para se ver, ouvir ou cheirar: tudo é recorrente, forçosamente idêntico, num raio de quilômetros. A propaganda dura eternamente, enquanto que a luz e o ar tem sempre a mesma consistência. Os olhos morrem de fome no metrô. No sonho dessa noite, você era como que um pretexto que me arrancava subitamente desse ir e vir no nada, dizendo: ''Esse assento está reservado para você há trinta anos '', e, de repente, comecei a perceber à nossa volta, nas paredes do trem, uma série de inscrições políticas e sexuais do mais baixo calão. Frases completamente estúpidas e ofensivas aos passageiros. Seus olhos pulavam sobre aquelas palavras e as devorava e cuspia no meu cérebro para que eu as provasse ou recusasse (.) -----, ela disse. Imediatamente, lembrei-me do mais famoso monólogo de Hamlet . O anseio obscuro por soberania, o anseio de ser soberano, de amar tudo aquilo que era soberano em mim, de tocá-lo com meu cérebro e impregná-lo dele, enfeitiçava-me naquela manhã de olheiras fundas. Mas falei muito pouco à respeito disso com Miss Rogoff ao telefone. O enigma astral a intrigava à tal ponto que uma elucidação minha tornara-se para ela uma necessidade , o que não me deixou surpreso. Uma sensação de ter sequestrado o corpo astral de milhares de vítimas iguais à ela tomou conta do meu espírito, impelindo meu cogito principesco a varrer para longe toda vergonha e voltar-me novamente apenas para mim , mantendo todo o resto afastado. Ainda assim, perdi cerca de vinte e nove minutos ao sol com ela ao telefone, deliciando-me com a forma com que a experiência do Mal sempre revelava à consciência uma singularidade extrema em face do Ser. ------ Absolutamente (eu disse,antes de desligar ) Caso não chova muito forte, irei até os armazéns aqui perto procurar amoras e framboesas em conserva (.) ------, e ela riu. ----- E à noite, o que você pretende fazer (?) -----, perguntou-me. ----- Ah... a noite se manterá encolhida atrás de um céu firme e nebuloso que não proclamará nada além de sua própria permanência. Sincera, no entanto, ela quase nunca é (...) ------, eu disse, . ------ He he... isso me soa meio oco (.) ------, ela disse. ------ E você esperava por uma figura de linguagem mais apropriada, por acaso (?) ------, perguntei secamente. ------ Pode ser. Mas imagino que quando você fala assim com uma mulher com a qual acabou de ir pra cama, não deve ter muita importância (.) Eu e você somos bem parecidos nos nossos mal feitos. Sem dúvida (!) Nada do que você diz pode ser separado do sabor mais forte, e mais sujo, que você dá à suas palavras quando as coloca no papel , certo (?) ------, ela disse. ------ É verdade. Muitas vezes a gênese de uma grande obra literária pode ser entendida à imagem de um ''nascimento''. Sobretudo quando a concepção criativa refere-se, no gênio, ao elemento feminino. Mas esse elemento feminino esgota-se completamente uma vez consumada a obra. Dá vida à obra e depois se extingue. Quer que eu leia para você uns trechos que escrevi à mão agora de manhã (?) Lerei para você umas observações e pensamentos. Espere um pouco (.) ------, eu disse e, logo, assumi a VOZ de um LIVRO que afirmava minhas mais terríveis convicções: ------ ''Quero ser um monstro '' (comecei a ler no meu bloco) ''Um furacão. Um incêndio. Tudo que é humano me é estranho. Transgrido todas as leis que os homens estabelecem entre si por puro prazer; não tendo nenhum objetivo concreto, piso em cima de todos os valores importantes por divertimento; nada do que é, foi ou será pode me definir ou me limitar. No entanto, aqui estou eu: existo (!) E serei o sopro gelado que aniquilará toda a vida. Não importa o buraco nojento onde eu esteja caído, viajando entre a lucidez e o transe astral, sempre me vejo como um monarca pensativo e temido, eternamente separado de seus súditos pelos infinitos tabus e ambivalências do sagrado. A fatalidade da ironia, o destino amargamente irônico da criação poética é que, ao se consumar, dá novamente à luz seu criador supremo. Reste sobre a terra apenas um vestígio seu, calmo e belo, rodeado de um ''luxo extraordinário'' ------ lá estará ele de novo, suas quimeras , será ele aquela que saberá estrangular-te. Ele te sufocará (!) '' ------, eu disse.
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