----- Criança
(?) -----, ela me perguntou depois, surpresa. A impressão que eu tinha era a de que estava sonhando. Todo meu
corpo agora latejava, caminhando pelo quarto. A luz da lua que atravessava a
janela expunha a negra silhueta de Anna deitada na cama, como um musgo vivo sob
a coberta. Eu a esmagara como um animal, ritimadamente, durante meia hora,
deixando escapar da minha garganta sons confusos e desconexos, num êxtase que
me pareceu ter muito sentido em relação às possibilidades mais comuns. O olhar
dela, por alguns instantes, me fez lembrar uma cena de Guerra e Paz, na qual
voltei a pensar assim que saí da cama. O general Davout, cruel como só ele,
estava mandando diversas pessoas para serem fuziladas em Moscou, mas quando
Pierre Bezukohv compareceu diante dele, eles se olharam nos olhos. Um olhar
humano, simples, fora trocado entre eles e Pierre acabou sendo poupado. Tólstoi
diz, nesse trecho, que ninguém consegue matar outro ser humano com quem tenha
trocado semelhante olhar. E ao contrário do que a leitora possa estar pensando,
era eu o Pierre naquela cama, e não Anna. O novo olhar que lançara sobre ela,
mais tarde, fôra o ganho mais incontestável que eu poderia ter trazido de nossa
estadia em Moscou, incluindo tudo o que sucedera. Pierre Bezukhov particularmente feliz, naquele momento. E como
os personagens de Tólstoi, ao contrário dos de Dostoiévski, apenas me decidindo
antecipadamente a ver em Anna o que eu queria ver é que ela se oferecia sem
artifícios à minha visão. Tudo muito livresco, mas em relação ao que se passava
na hora, também muito decisivo. Se eu tentasse ‘’decidir-me ‘’ de acordo com a
crueza dos fatos, veria imediatamente esses mesmos fatos se negando à um acordo
comigo. De Moscou, me lembrava agora, nitidamente, enquanto fumava na janela,
de três ou quatro lugares onde eu avançara a passos largos na rua, sem aquela
estratégia e aquela arte de empurrar e se encolher, que se aprende logo no
primeiro dia ali. No trânsito, faróis giratórios de altos funcionários e outros
políticos graúdos se permitindo abrir caminho em meio ao engarrafamento
quilométrico. Quando chegava à avenida Stoleschnikov, eu respirava fundo. Ali,
finalmente, podia parar , sem perigo de perder o fio dos meus pensamentos, diante
das vitrines das livrarias e procurar o exemplar de Os Demônios em russo pelo qual
tanto ansiava. Só o adquiri, no entanto, no terceiro dia de solvitur ambulando,
após uma longa incursão naquele movimento sinuoso e arrastado a que os passeios
estreitos habituaram a maior parte dos moscovitas. Que vida abundante , caótica
a daquela artéria prestes a explodir ! Mercadorias, pessoas, barulhos e
poluição irrompendo de toda parte. A selva de casas tão impenetrável que o olhar
só se apercebia daquilo que o encadeava. A coisa mais rica que meu pensamento
conseguia compartilhar com a paisagem, nas primeiras horas, era a lembrança
livresca e teórica da Nomenklatura , simbolo da dominação de casta soviética.
Hoje, o partido do Presidente Putin , criado por decisão dos dirigentes de
Estado, coloca em prática no país a política que consideram a mais adequada,
sem muita discussão, consolidando uma nova Nomenklatura totalmente leal à ele. Sublime
!, eu pensava: Assim é que se consolida e sincroniza com eficiência a máquina política
do Rússia Unida em todas as regiões do país, robustecendo enormemente o aparelhamento
absoluto do Estado. Ou o aparelhamento do Estado absoluto, se preferir. Mas, na
Rússia atual, o partido dirigente não é um agente político autônomo, como na
antiga U.R.S.S., e sim um instrumento do poder instalado, exatamente como se
pode ler em ‘’O Partido de Putin’’, de Vitaly Ivanov. Mas antes de descobrir a
verdadeira paisagem de Moscou, antes de ver o seu verdadeiro rio; seu pathos e
seu ethos, suas adesões coletivas ao Rússia Unida andando na rua, com seus
cigarros e sacolas de compras; suas russas, o neoconservadorismo, Irina, a
vodka, o Kremlin; antes, enfim, de encontrar seus verdadeiros pontos altos,
cada uma daquelas calçadas da cidade foi para mim um prêmio disputado a tapa,
ombro a ombro, em meio à poluição e acidentes de trânsito. E cada número de
placa de trânsito era para mim um sinal esotérico, trigonométrico e
indecifrável; e cada gigantesca praça desolada um enorme lago de gelo. A cada
passo que dava na rua eu pisava num lugar com nome conhecido. E eu conhecia
todos eles dos livros ! E quando surgiam-me tais nomes, logo minha imaginação
construía todo um quarteirão povoado de coisas fantásticas totalmente
inverossímeis à minha volta. Cada esquina juntava, no meu mapa da KGB, ruas que
eu imaginava muito distantes uma da outra. O balé incessante dos rebocadores
animando a vida do trânsito caótico da capital. Só um filme de Eisenstein
poderia dar conta de todas as armadilhas topográficas nas quais eu caía,
andando à esmo em busca do Kremlin. A Grande Cidade parecia defender-se de cada
passo meu, mascarando-se com minhas antigas crenças revolucionárias. Percorria
o círculo de Moscou até o esgotamento sensorial, em silêncio e fumando sem
parar, admirado com a largura de suas fronteiras administrativas. A Grande
Moscou e as novas áreas de anexação, duplicando a superfície da metrópole rumo
às periferias desoladas do sul... Mas, logo, cones de luz à minha frente!, tão
ofuscantes que ao passar por eles fiquei paralisado. Em frente ao portão do
Kremlin, todas as cores de Moscou convergiam num prisma, no centro do poder
russo. Os feixes de luz dos faróis dos carros ferindo meus olhos, enquanto eu
pensava: ‘’Meu Deus (!) Tenho só trinta e quatro anos e já li tantos livros
quanto Marx (.) ‘’. E corvos. Ou pombos, sei lá. Anna me esperando no hotel,
bêbada. Os Demônios, de Dostoiéviski (em russo), debaixo do braço. Grandes dilapidações
de forças psíquicas e dispêndios de energia sexual evocando em mim terríveis
festas primitivas. O olhar infinitamente mais ocupado que o ouvido, naquele
momento. O mais insignificante trapo de cor brilhando poderosamente à luz do
crepúsculo esverdeado, indicando que aqueles velhos pavimentos escondiam livros
ilustrados, doutrinas atéias e materialistas, diabólicos assassinatos políticos
e o tremendo poder da vontade de um povo. Eu nunca gostara de Trotski por causa
da repressão comandada por ele ao motim anarquista dos marinheiros de
Cronstadt... Mas, na ocasião , não tinha muito o que fazer com minhas análises
e escolhas, imagens e velhos lances teatrais de orientação política. Eu era
todo elegância reverencial e amplificação contemplativa, dentro do meu
sobretudo, como se o termômetro não estivesse marcando 25 graus abaixo de zero.
----- Naquele
dia (eu disse à Anna) no Kremlin, todos os planos da minha mente estabeleciam
limites muito claros aos sobressaltos da minha imaginação. Um inseto humano
opondo-se à um gigantesco universo dado à reviravoltas súbitas. Encerrado em
uma solidão lógica, fotográfica (.) -----, concluí. Ela ainda mal havia se
movido na cama. Voltei para lá e mergulhei nela de novo, ao ouvir seu murmúrio,
na mais insólita das circunstâncias. Os pés dela, a certa altura, se apoiaram
nos grossos tapetes do chão. Nova York ---- A Grande Babilônia ----- me dava
febre, me enchia de vaidade. Anna era só curvas: lenta, passiva, letárgica.
K.M.
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