quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Grandón do pidgin Joss (16)

----- Criança (?) -----, ela me perguntou depois, surpresa. A impressão que  eu tinha era a de que estava sonhando. Todo meu corpo agora latejava, caminhando pelo quarto. A luz da lua que atravessava a janela expunha a negra silhueta de Anna deitada na cama, como um musgo vivo sob a coberta. Eu a esmagara como um animal, ritimadamente, durante meia hora, deixando escapar da minha garganta sons confusos e desconexos, num êxtase que me pareceu ter muito sentido em relação às possibilidades mais comuns. O olhar dela, por alguns instantes, me fez lembrar uma cena de Guerra e Paz, na qual voltei a pensar assim que saí da cama. O general Davout, cruel como só ele, estava mandando diversas pessoas para serem fuziladas em Moscou, mas quando Pierre Bezukohv compareceu diante dele, eles se olharam nos olhos. Um olhar humano, simples, fora trocado entre eles e Pierre acabou sendo poupado. Tólstoi diz, nesse trecho, que ninguém consegue matar outro ser humano com quem tenha trocado semelhante olhar. E ao contrário do que a leitora possa estar pensando, era eu o Pierre naquela cama, e não Anna. O novo olhar que lançara sobre ela, mais tarde, fôra o ganho mais incontestável que eu poderia ter trazido de nossa estadia em Moscou, incluindo tudo o que sucedera. Pierre Bezukhov  particularmente feliz, naquele momento. E como os personagens de Tólstoi, ao contrário dos de Dostoiévski, apenas me decidindo antecipadamente a ver em Anna o que eu queria ver é que ela se oferecia sem artifícios à minha visão. Tudo muito livresco, mas em relação ao que se passava na hora, também muito decisivo. Se eu tentasse ‘’decidir-me ‘’ de acordo com a crueza dos fatos, veria imediatamente esses mesmos fatos se negando à um acordo comigo. De Moscou, me lembrava agora, nitidamente, enquanto fumava na janela, de três ou quatro lugares onde eu avançara a passos largos na rua, sem aquela estratégia e aquela arte de empurrar e se encolher, que se aprende logo no primeiro dia ali. No trânsito, faróis giratórios de altos funcionários e outros políticos graúdos se permitindo abrir caminho em meio ao engarrafamento quilométrico. Quando chegava à avenida Stoleschnikov, eu respirava fundo. Ali, finalmente, podia parar , sem perigo de perder o fio dos meus pensamentos, diante das vitrines das livrarias e procurar o exemplar de Os Demônios em russo pelo qual tanto ansiava. Só o adquiri, no entanto, no terceiro dia de solvitur ambulando, após uma longa incursão naquele movimento sinuoso e arrastado a que os passeios estreitos habituaram a maior parte dos moscovitas. Que vida abundante , caótica a daquela artéria prestes a explodir ! Mercadorias, pessoas, barulhos e poluição irrompendo de toda parte. A selva de casas tão impenetrável que o olhar só se apercebia daquilo que o encadeava. A coisa mais rica que meu pensamento conseguia compartilhar com a paisagem, nas primeiras horas, era a lembrança livresca e teórica da Nomenklatura , simbolo da dominação de casta soviética. Hoje, o partido do Presidente Putin , criado por decisão dos dirigentes de Estado, coloca em prática no país a política que consideram a mais adequada, sem muita discussão, consolidando uma nova Nomenklatura totalmente leal à ele. Sublime !, eu pensava: Assim é que se consolida e sincroniza com eficiência a máquina política do Rússia Unida em todas as regiões do país, robustecendo enormemente o aparelhamento absoluto do Estado. Ou o aparelhamento do Estado absoluto, se preferir. Mas, na Rússia atual, o partido dirigente não é um agente político autônomo, como na antiga U.R.S.S., e sim um instrumento do poder instalado, exatamente como se pode ler em ‘’O Partido de Putin’’, de Vitaly Ivanov. Mas antes de descobrir a verdadeira paisagem de Moscou, antes de ver o seu verdadeiro rio; seu pathos e seu ethos, suas adesões coletivas ao Rússia Unida andando na rua, com seus cigarros e sacolas de compras; suas russas, o neoconservadorismo, Irina, a vodka, o Kremlin; antes, enfim, de encontrar seus verdadeiros pontos altos, cada uma daquelas calçadas da cidade foi para mim um prêmio disputado a tapa, ombro a ombro, em meio à poluição e acidentes de trânsito. E cada número de placa de trânsito era para mim um sinal esotérico, trigonométrico e indecifrável; e cada gigantesca praça desolada um enorme lago de gelo. A cada passo que dava na rua eu pisava num lugar com nome conhecido. E eu conhecia todos eles dos livros ! E quando surgiam-me tais nomes, logo minha imaginação construía todo um quarteirão povoado de coisas fantásticas totalmente inverossímeis à minha volta. Cada esquina juntava, no meu mapa da KGB, ruas que eu imaginava muito distantes uma da outra. O balé incessante dos rebocadores animando a vida do trânsito caótico da capital. Só um filme de Eisenstein poderia dar conta de todas as armadilhas topográficas nas quais eu caía, andando à esmo em busca do Kremlin. A Grande Cidade parecia defender-se de cada passo meu, mascarando-se com minhas antigas crenças revolucionárias. Percorria o círculo de Moscou até o esgotamento sensorial, em silêncio e fumando sem parar, admirado com a largura de suas fronteiras administrativas. A Grande Moscou e as novas áreas de anexação, duplicando a superfície da metrópole rumo às periferias desoladas do sul... Mas, logo, cones de luz à minha frente!, tão ofuscantes que ao passar por eles fiquei paralisado. Em frente ao portão do Kremlin, todas as cores de Moscou convergiam num prisma, no centro do poder russo. Os feixes de luz dos faróis dos carros ferindo meus olhos, enquanto eu pensava: ‘’Meu Deus (!) Tenho só trinta e quatro anos e já li tantos livros quanto Marx (.) ‘’. E corvos. Ou pombos, sei lá. Anna me esperando no hotel, bêbada. Os Demônios, de Dostoiéviski (em russo), debaixo do braço. Grandes dilapidações de forças psíquicas e dispêndios de energia sexual evocando em mim terríveis festas primitivas. O olhar infinitamente mais ocupado que o ouvido, naquele momento. O mais insignificante trapo de cor brilhando poderosamente à luz do crepúsculo esverdeado, indicando que aqueles velhos pavimentos escondiam livros ilustrados, doutrinas atéias e materialistas, diabólicos assassinatos políticos e o tremendo poder da vontade de um povo. Eu nunca gostara de Trotski por causa da repressão comandada por ele ao motim anarquista dos marinheiros de Cronstadt... Mas, na ocasião , não tinha muito o que fazer com minhas análises e escolhas, imagens e velhos lances teatrais de orientação política. Eu era todo elegância reverencial e amplificação contemplativa, dentro do meu sobretudo, como se o termômetro não estivesse marcando 25 graus abaixo de zero.

----- Naquele dia (eu disse à Anna) no Kremlin, todos os planos da minha mente estabeleciam limites muito claros aos sobressaltos da minha imaginação. Um inseto humano opondo-se à um gigantesco universo dado à reviravoltas súbitas. Encerrado em uma solidão lógica, fotográfica (.) -----, concluí. Ela ainda mal havia se movido na cama. Voltei para lá e mergulhei nela de novo, ao ouvir seu murmúrio, na mais insólita das circunstâncias. Os pés dela, a certa altura, se apoiaram nos grossos tapetes do chão. Nova York ---- A Grande Babilônia ----- me dava febre, me enchia de vaidade. Anna era só curvas: lenta, passiva, letárgica.


K.M.

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