quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Trabalho da VOZ sob o TEXTO.



A persistência da oralidade  nas sociedades modernas não se deve tanto ao fato de ainda falarmos, quanto à forma pela qual nossas representações e maneiras de ser continuam a transmitir-se independentemente dos circuitos da escrita e dos meios de comunicação virtuais. A maior parte dos conhecimentos em uso atualmente, assim como os de que nos servimos em nossa comunicação cotidiana, nos foram transmitidos sob a forma de narrativa (histórias de pessoas, sentimentos, famílias ou empresas). Dominamos a maior parte de nossas habilidades observando, imitando, fazendo tudo por nós mesmos, e não estudando teorias nas escolas e universidades ou princípios dos livros. Rumores, tradições e conhecimentos empíricos em grande parte ainda passam por outros canais que não os oficiais, impressos, ou os meios de comunicação eletrônicos. Além disso, a oralidade sobreviveu paradoxalmente enquanto ''mídia da escrita'''. Antes da Renascença, os textos religiosos, filosóficos ou jurídicos eram quase que obrigatoriamente acompanhados de comentários e interpretações orais, sob pena de não serem compreendidos. A transmissão do texto era indissociável de uma cadeia ininterrupta de relações diretas e pessoais. Alguns aspectos da antiga oralidade sobreviveram nos próprios textos. Platão, Galileu, Hume e outros compuseram muitos diálogos. São Tomás de Aquino organizou sua suma teológica sob a forma de perguntas, respostas e objeções, estilizando assim as discussões orais do seu tempo . Finalmente, a literatura, pela qual a oralidade primária desapareceu, hoje tem como vocação paradoxal a de reencontrar a força ativa e a magia perdida da palavra, essa eficiência que ela possuía quando as palavras ainda não eram as pequenas etiquetas vazias sobre as coisas e as idéias que a literatura contemporânea pregou nelas, mas sim poderes ligados à tal presença viva, tal sopro divino... Literatura de restituição da linguagem para além de seus usos prosaicos inferiores, trabalho da voz sob o texto, origem da palavra, de um grande falar desaparecido e no entanto ainda insinuante quando os verbos emergem de um trabalho correto de alquimia poética, brilhando repentinamente como acontecimentos do mundo ,emitidos por alguma potência imemorial e anônima dentro de nós.

K.M.

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