domingo, 16 de outubro de 2016

Tempo inautêntico.

Em “Ser e Tempo”, Martin Heidegger explica que a [...] fundamentação dos modos de ser-no-mundo constitutivos do conhecimento de mundo evidencia que, ao conhecer, a presença adquire um novo estado de ser, no tocante ao mundo já sempre descoberto. Esta nova possibilidade de ser pode desenvolver-se autonomamente, pode tornar-se uma tarefa e, como ciência, assumir a direção do ser-no-mundo.

Todavia, não é o conhecimento quem cria pela primeira vez um “commercium” do sujeito com um mundo e nem este commercium surge de uma ação exercida pelo mundo sobre o sujeito. Conhecer, ao contrário, é um modo de presença fundado no ser-no-mundo. (HEIDEGGER, 2007, p.109).

Explicam Márcio Paiva e Ricarlos Cunha, no escrito “A Constituição sob o fio condutor da ontologia fundamental”, ao dissertar sobre o Direito:

[...] De fato, a liberdade, ao deixar-valer o mundo, é a origem do fundamento em geral. Heidegger estabelece a diferença entre o fundar como instituir (Stiften) e o fundar como dar fundamentação (Begruenden).

Fundamentalmente, o mundo do Direito só é possível a partir de uma compreensão adequada do ser do Dasein. Assim, no exercício da liberdade, o Dasein revela-se sempre mais como ser-no-mundo, instituindo e fundamentando seus projetos. Portanto, a Constituição, antes de ser um objeto ao alcance da mão (Zuhandenheit), lançará suas raízes num específico modo de ser do Dasein: seu ser-livre, poder-ser, existência-no mundo.

Por isso, a Instituição (Stiftung) é um projeto de mundo antes de tudo. Este será possível na forma de ocupação e pré-ocupação humana.

[...] Essa ideia não nos põe em uma situação de prévia compreensão plena e total do mundo, dado o caráter instrumental das coisas, que se reflete no possível uso que delas podemos fazer. Tal possibilidade está intimamente ligada à compreensão, haja vista que, sendo o Dasein constitutivamente abertura, um poder-ser, as suas estruturas se caracterizam pelas possibilidades. O Dasein, sendo-no-mundo como projeto, tem na sua précompreensão do mundo também mera possibilidade, sujeita a alterações,
desenvolvimentos e ulterior elaboração. (PAIVA; CUNHA, 2008, p. 3645- 3664, grifo nosso).

A existência inautêntica é a existência anônima e tem três características consecutivas: o homem é atirado ao plano dos fatos que diz que “as coisas acontecem de determinada forma porque assim se diz”. Há um vazio que leva o homem à curiosidade recorrendo ao novo continuamente; a terceira é o equívoco, por causa da individualidade das situações devorada pelo palavratório e curiosidade.

O homem cai no plano das coisas do mundo como dejeto. A voz da consciência, não obstante, convoca o homem à procura do sentido do ser. Não aceita mais que ele se ponha no plano existentivo, mas no existencial, que é o ontológico. Entrementes, como o dasein é projeto, quando o homem decide por um caminho que o considera definitivo como, por exemplo, uma profissão, um estudo, a riqueza, acaba lançandose dispersivamente na existência inautêntica. Diz Heidegger que a morte é incondicionada, pois nenhum sujeito pode assumir a morte do outro, cada um precisa fazer isso em face da sua; é insuperável, pois é a última possibilidade da existência que o aniquila; é a mais própria das possibilidades, pois é essência da existência. Somente de uma possibilidade não se pode fugir: da morte, a possibilidade que torna as demais impossíveis. 

Faz com que a existência autêntica seja ser-para-a-morte, pois a perspectiva da morte, que nulifica toda outra possibilidade, põe alicerce na historicidade da existência e impede que o sujeito se fixe em projeto inautêntico. O sujeito, então, quando assume, por decisão antecipatória – e isso nada tem a ver com suicídio - a perspectiva de que a possibilidade da morte é a única inexorável, torna-se livre da dispersão casual de projetos inautênticos, para que os demais projetos possam ser escolhidos autenticamente. A existência autêntica é a aceitação da própria finitude, enfrentando a possibilidade da morte, percebida, não de forma intelectiva, mas por sentimento de angústia. A existência inautêntica é a tentativa de escapar da angústia da morte por meio de uma vida banal e anônima, de forma que, segundo Heidegger, o medo é angústia da morte que decaiu no mundo. O medo é a banalização, fraqueza de um dasein não seguro de si, retratando tranqüilidade indiferente diante da morte. (REALE; ANTISERI, 1990b).

Para Heidegger, o tempo é êxtase, o que, no seu sentido etimológico, significa “estar fora”. O passado é o retorno às situações para aceitá-las e o cuidado com as possibilidades que surgem dele; o futuro, projetar-se-adiante em-vista-de-simesmo, é pretender-se; o presente é preso às coisas. Os três encontram significado no futuro, ou seja, no homem “fora de si”. Os fenômenos do rumo a, retro e junto, ou seja, fora de si, em si e para si – futuro, passado e presente são denominados êxtases da temporalidade. (REALE; ANTISERI, 1990b).

Pode-se verificar a influência do pensamento de Hegel em Heidegger, tendo em vista a dialética do ser, que sai de si e retorna, em síntese, a si e para si. O tempo inautêntico visa à preocupação com o êxito, sucesso, enquanto o futuro, como viver para a morte, sendo tempo autêntico é desprovido de mundaneidade. O passado autêntico, por sua vez, é a não aceitação passiva da tradição, confiar nas possibilidades oferecidas e reviver a possibilidade do homem que já existiu. O presente, por último, é o instante que, quando autêntico, o homem decide seu destino e repudia a vida inautêntica – absorção pelas coisas a fazer.

Para Heidegger, isso tudo tem as consequências de compreender a significação de tempo usada no pensamento comum e científico, como databilidade e medição temporal científica, é tempo inautêntico, voltado à mundaneidade; a existência angustiada, quando autêntica, faz com que o homem viva os fatos mundanos de seu tempo, mas com consciência de afastamento; a historicidade do dasein resulta na historiografia. (REALE; ANTISERI, 1990b).

Segundo a metafísica clássica, Aristóteles e a Filosofia até Hegel procurou o sentido do ser indagando aos entes, e atribuiu à simples-presença desses o ser, identificando-os com objetividade. Heidegger denuncia isso como redução do ser à física absorvida pela coisa, o que não seria metafísica, resultando no esquecimento do ser. A análise da existência autêntica, por sua vez, não revela o sentido do ser, apenas o vazio, o nada. Para Heidegger, a linguagem do ente não é capaz de revelar o sentido do ser, isso deve ser iniciativa do próprio ser. O desvelamento ocorre, então por meio da linguagem, mas não a científica ou a do palavratório, porém na linguagem autêntica poética, que seria a casa do ser.

 A poesia é a língua originária e a palavra tinha caráter sagrado. As coisas foram nomeadas pela palavra, responsável pela fundação do ser. A fundação do ser não seria obra do homem, mas dom do ser, pois não é o poeta quem fala, mas o ser na linguagem. Dessa forma, o homem não deve ser o senhor do ente, mas sim o pastor do ser; ele não pode desvelar o sentido do ser, é chamado para atuar como guarda da verdade que pertence ao próprio ser. O silêncio para ouvir o ser, o abandono ao ser seria a única atitude correta. O homem, em função disso, deve se colocar livre para com a verdade, sem agir como seu senhor, mas ser seu guardião, pois ela é o desvelamento do ser. Liberdade e verdade coincidem, portanto. (REALE; ANTISERI, 1990b).

A LIBERDADE NO PENSAMENTO DE HEIDEGGER E GADAMER
Gualter de Souza Andrade Júnior.

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