domingo, 16 de outubro de 2016

Grandón do pidgin Joss (24)

Tudo se passava, naquela hora, de maneira tão espontânea que não compreendia sequer como aquela dama da alta roda, com a qual eu deveria antipatizar-me por princípios ----- e sem nenhum esforço ---- podia me parecer agora tão impressionante, vista de perto. Décadas atrás, ela poderia ser politicamente definida como uma partidária do macarthismo, uma inimiga da U.R.S.S., contudo, onde é que foi parar minha antipatia, quando ela acabou de falar e se aproximou de mim. A proximidade física com ela realçava em mim o sentimento de minha baixa extração social, mas fazendo minhas monstruosidades e incansáveis passeios pelo Mal parecerem apenas uma forma de buscar Deus através de obscenidades e heresias. Eu não tinha nenhuma intenção de ser humorístico quando sugeri à ela que eu era uma ''vítima dos livros'', que crescera abandonado numa casa de fazenda arruinada, rasurando as bordas das enciclopédias e dicionários. Mas ela ria. ----- Dois cents para cada cem rasuras em jornais de senhoritas (eu disse) Um dólar a coluna inteira. O Marquês de Sade, do seu modo tresloucado, também fôra um filósofo do Iluminismo. Apenas pretendia ser, além disso, um blasfemador. Para aqueles que conhecem sus passos, e compreendem a fundo algumas de suas recomendações, a idéia é mais uma forma de higiene que de blasfêmia. Prazer que também é higiene: uma vida ''encantadora'' e ''interessante''. Mas uma vida ''interessante'' (admito) é o supremo conceito das almas simplórias. Quartier Latin; Schwabing; Greenwich Village e San Telmo... a vida vivida no limite da legalidade, como dizem os biógrafos. Mas talvez eu não esteja pensando com tanta clareza, no momento (.) ------, concluí. Ela continuava ouvindo-me atentamente, enquanto eu me perguntava como podia estar sentindo-me tão subjugado pela pusilanimidade de seus fãs, e me dirigindo à ela com ares de um completo palerma. Era o poder dela, claro. O poder de sua celebridade, do qual certamente também participava sua incrível beleza física; pois com umas poucas palavras, um único comentário, Miss Rogoff era capaz de fazer e desfazer carreiras no Show-Business. ----- Como tudo isso aconteceu , querido K (?) Dou-me conta (sim) da anormalidade de algumas de suas experiências de vida. Mas no Chat Noir, em Paris, conheci muita gente assim: os mesmos hábitos noturnos, a originalidade (nas roupas ? , nem tanto), certos abusos de consumo, mas, principalmente, a literatura como expressão de um ''Mal'' profundo, cuja opressão  todos tiveram que suportar ao longo da vida. E também uma previsível resistência à economia de mercado que domina o mundo cultural. Por vezes tive de perguntar-me se havia lugar para mim entre eles, tendo em vista que jamais lhes seria ''uma igual''. Em todo caso, sempre procuro suspeitar de meus próprios julgamentos, já que o quinhão de vocês, ao contrário do meu, foi sempre ''extremo''. O garoto livresco, cuja vida não parecia destinada à nenhum tipo de ação. De repente, o rapaz torna-se um ''scapigliati'' ; depois, uma palhaço fora de controle e, pouco a pouco, não há mais nada em sua vida a não ser ação. Um tratamento muito rude dedica-lhe a vida, e por muito tempo ele só é capaz de ver as coisas com uma peculiar dureza de coração. Quase como um ''criminoso'', afastando de si, deliberadamente, todos os arranjos comuns da vida e desculpas esfarrapadas, até simplificar a tudo e a todos brutalmente. Ou como diria Mr. Bertold Brecht: ''Erst kommt das Fressen, und dann kommt die Moral ''. Mas isso chega a ser presunção. Aristóteles também disse qualquer coisa assim: ''Primeiro a comida, depois a Moral ---- A gente é aquilo que a gente come ''. Aristóteles, e não Bruce Lee, como se acredita hoje em dia. Conta-se que Platão, antes de morrer, reuniu seus discípulos na Academia para lhes falar do ''Bem'', o núcleo mais íntimo e obscuro de sua doutrina, que ele nunca abordara de forma explícita. Na Éxedra se encontravam nada menos que Espeusipo, Xenócrates, Aristóteles e Filipe de Oponte. Expectativa e nervosismo. Mas quando o Mestre começou  a falar, ficou claro que ele só se ocuparia de questões matemáticas, geométricas, de linhas e números, superfícies e movimentos dos astros, e que, por fim, da idéia de que o Bem era tão somente o Uno. Nem Aristóteles soube direito o que pensar... no entanto, foi assim que Platão, que sempre ensinara seus discípulos a desconfiarem do tratamento temático dos problemas, e que, nos seus escritos, reservava um lugar de destaque para as ficções e mitos, tornou-se, ele mesmo, um enigma e um mito. Hoje eu entendo perfeitamente porque a Humanidade marca certas pessoas com o signo do mistério. E o fato de serem enigmáticas, deixa tais pessoas com idiossincrasias, em meio à experiências do tipo ''deformantes'', que dão à elas, pouco a pouco, maestria e poder, fazendo-as elevarem-se da passividade à ação, do informe e caótico à clara figura, ou mesmo de uma poesia indecisa à um prosa suntuosa e decidida. Com suas obras, tais indivíduos realizam uma auto-desintoxicação completa (.) -----, ela disse. Correspondências, claro: o termo ''deformante'' indicava as mudanças que podia-se operar entre as diferentes linhas, mas, como em quase toda a nomenclatura do nosso Hades novaiorquino, soava como um termo extremamente ''carregado'', na boca dela. ----- Claro que fiquei deformado (eu disse) e um pouco obcecado também (.) Repare que estou sempre falando de poetas malditos, aventureiros irresponsáveis, originalidade e individualidades dramáticas, possessões catárticas e psicodramas, epifanias e hierofanias, e sobre a teatralidade nas pessoas famosas, da política à arte,  das formas tomadas pelos esforços espirituais de cada um, em sua própria luta pessoal (.) Tudo isso fica rodando e rodando na minha cabeça, por que eu percorri essa estrada do início ao fim, tendo como única bússola confiável a literatura francesa e meu psicopompo, Charles Baudelaire. Mas, de repente, volto a sentir que está tudo bem, Que entre eu e você, neste exato instante, não existe nenhuma abissal ruptura de nível que não possa ser superada com facilidade, e que à medida que os minutos passam as confluências entre nós persistem, se aprofundam, e eu quase não perco a coragem... É incrível (!) Deveria estar apavorado, certo ?? O que será que está obrigando a distinta Srta. a sentar-se na companhia de um comediante falido, barulhento, um mau ator, uma figura ridícula; enfim, de um homem desejoso de desempenhar ''papéis'', como eu (?) -----, perguntei-lhe, rindo timidamente, de maneira ''clássica''. Aquilo foi o que desencadeou o resto. Sentamos num tapete ao pé da cama dela, em seu quarto, e conversamos até eu sentir uma vontade incontrolável de beijá-la. Miss Rogoff contou-me todo tipo de histórias a respeito de si própria, histórias que não deveria ter contado a um escritor. Cheguei mesmo a ficar com ciúmes de algumas delas, dando asas imensas à minha vaidade momentânea. Alguém , assistindo-nos de fora, poderia classificar nosso diálogo de ''trocas '', mas eu preferia chamar aquilo de ''combinações''. Qualquer das duas palavras, porém, continha uma carga análoga, insinuando mutação, metamorfose constante, etc. O homem que desce ao fundo de si próprio não é o mesmo que volta à superfície; mas, claro, precisa ter guardado o óbolo entre os dentes, ter merecido seu ''traslado''; o que, para os outros, pode nunca passar de uma insignificante viagem entre estações de metrô; de um ''esquecimento imediato''... Mas não para Miss Rogoff.

K.M.

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