sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Artaud e o Duplo na Estética de Vanguarda.

O Romantismo, el Doble e o Fantástico

http://elianeoromantismoeldobleeofantstico.blogspot.com.br/2012/02/o-romantismo-el-doble-e-o-fantastico.html

Eliane Colchete

Artaud define o Duplo como o Kha dos egípcios, mas também referencia os pontos sensíveis da acumpuntura associados a uma manipulação dos sentidos, por meio da percepção de sons e da visão de gestos;  e manipulação corpórea cuja lógica vem do conhecimento dos chakras, a qual pode ainda ser feita por meio da respiração, mas quanto à esta Artaud se utiliza do simbolismo das tríades cabalísticas para criar sequências respiratórias que ele supunha qualificáveis em neutro, feminino e masculino, revertendo em emoções e disposições aníminas específicas. 

Nesse aspecto da temática artaudiana do Duplo, ele é efetivamente um corpo espiritual no sentido de ser um corpo de sensações e de atitudes que envolvem sentimentos reais como coragem ou cólera, mas pensado como um nível mais sutil da matéria, um nível que Artaud chama fluído. Assim, esse corpo é designado "metafísico" como algo co-extensivo ao físico que se entende correspondente ao nível visível da matéria. 

Como nós veremos oportunamente, o misticismo moderno-ocidental, que demarcaremos desde Swendenborg,  não se caracteriza por propagar uma única doutrina do Duplo, mas sim por que cada místico historicamente importante, e até Guenon, tendo sua própria doutrina, é dela que haure uma explicação ou tematização original do Duplo. Ora, entre as fórmulas de Duplos que aí encontraremos, há uma variação mais ou menos constante que é em torno dele ser um corpo sutil ou pensado em termos outros termos, por exemplo psíquicos (níveis de realizações existenciais) ou históricos (natureza adâmica antes e depois da queda). Isso depende de como se entende o universo, tópico referencial do misticismo que estamos chamando moderno-ocidental porque o que se deve entender por universo é algo evolutivo, não o conjunto das coisas dadas desde sempre. 

Então as opções mais básicas são sobre como entender a evolução - desde o pré-transformismo em que tratava-se apenas de pensar uma corrente ativa entre os seres responsável pelo aumento de perfeição entre as espécies, até Lamarck e a consolidação do transformismo pré-darwinista, isto é, podendo-se ainda ficar com a imagem de uma ação vinda do ente. As explicações dos místicos variam conforme eles podem ainda interpretar a corrente ou precisam se limitar a pensar a ação. Tratando-se da corrente, ela pode ser tematizada em termos de fluído material, e assim os mesmeristas são os que hipnotizam à base da concepção de Mesmer de que há um fluído percorrente no universo, o qual pode ser manipulado como a consciência. Mas quando se trata somente da ação, já se está no pleno romantismo, não apenas no ambiente pré-romântico. 

Ora, logo após esse momenteo lamarkiano, sabemos que precipita-se o positivismo-realismo com a interpretação determinista de Darwin, enquanto na história do misticismo, as teorias de duplos e a influência dos seus autores vão sendo substituídas pelas teorias orientais da multiplicidade dos corpos, como estabilizando-se de Papus a Guenon, as quais entendem os corpos além do físico como planos materiais sutis, o duplo etérico e ainda um plano mais elevado puramente espiritual. 

Aparentemente há uma coincidência com os místicos precedentes que haviam materializado pela noção de fluído, a corrente de perfeição entre as espécies, mas de fato nessa transposição há uma irredutibilidade incontornável. 

Aqui encontramos Artaud, e vemos, como é bem típico em Guenon, a marca do momento positivista-racionalista, pois em vez de uma explicação relativa ao entorno de um pensamento autônomo, Guenon procede como desde a teosofia de Blavatski, na pressuposição de uma tradição univesal que reúne todas as expressões de misticismos de povos particulares, que Guenon faz expressar como variações da mesma noção de Centro do universo e Rei do mundo, de que se origina a sua noção de sociedade arquetípica cujo modelo são todas as idealizáveis não-ocidentais à semelhança da sociedade feudal. Efetivamente Artaud não é de forma alguma um positivista, nem Guenon que acusa o progresso científico de ser o "reino da quantidade", símbolo do estado de coisas apocaplítico, inviabilidade do humano porque inviável ao espírito. Mas é do corte determinista universalizante do racionalismo positivista que vem esse novo aporte da ciência e do misticismo. Sendo assim, as relações que são bem referenciáveis de Artaud, como pós-positivista, ao Romantismo, exibem a marca desse corte, o que se trata de recuperar na composição de sua noção de duplo.

Como se vê, ele pode ser dado alinhando-se ao anti-colonialismo de Schopenhauer cujo desdobramento foi uma redução sintética das questões místicas à filosofia oriental, e nesse orientalismo ambos são radicalmente anti-nietszchianos. Ora, a oposição conceitual de Nietzsche não era entre oriente e ocidente, mas entre tipos de sociedade cuja conceituação independe da localização geográfica. Ainda que aplicando esses conceitos às sociedades históricas, Nietzsche valorizou Roma contra Ìndia e Judeia. Mas, ele não pratica a terminologia do"primitivo" oposto ao bárbaro, que não pode por sua vez ser destacada do contexto positivista racista na qual surgiu. Inversamente, na classificação de Nietzsche, Ìndia e Judeia são esquemáticos do ocidente-moderno, como civilização cristã que o cientificismo continua. São a decadência do "sacerdotal" em relação ao originário não-sacerdotal em que Roma estaria por sua vez esquematizável, ainda que não como o prototípico que seriam as sociedades tribais. 

Pareceria ser o misticismo o pivô da irredutibilidade Artaud-Nietzsche, posto que argumentar que o dionisíaco é o teatro ocidental que Artaud está criticando na verdade ignora a forma como Nietzsche opõe totalmente a Polis democrática ao Ocidente, este definido cristão. Também em Weber vale essa definição - o ocidente teria nascido em Antioquia, com o cristianismo extenso a todos os povos. Como o Romantismo nasce precisamente nessa problemática, vemos como é complexo o locus da modernidade quanto a esse aspecto genético da historicidade e pluralidade de cultura, sociedade e etnia. Mas quanto ao misticismo, vemos que em Artaud ele implica o simbolismo nietszchiano da transmutação espiritual enraizado numa concepção de corpos e de forças, ambos rejeitando o idealismo que era o que Nietzsche designava sacerdotal. A imagem do oriente muda, consideravelmente, desde o Romantismo até o pós-moderno como algo, no entanto, bem mais determinante das  teorias em humanities do que vem sendo dado aquilatar. 

  Mas torna-se bem notável a discrepância de um pensamento que valoriza o corpo sutil assim como o físico, como o de Artaud, e a anulação nirvânica como condenação de todo esse produto da vontade qu se chama mundo, em Schopenhauer, cujo prolongamento serão as neo-metafísicas espiritualistas que proliferam no pós-positivsmo, como em von Hartmann, e o epíteto de "neo" aí implica que elas não são programas de retrocesso em relação ao científico, mas pelo contrário, são interpretações espiritualizantes do conteúdo das ciências como da Evolução, meio em que se destacam Royce nos Eua e Bergson na França. Nesse ponto, inversamente aos idealismos, a convergência duplo metafísico em Artaud, que como vimos é o corpo das senações e expressões, com os conceitos nietzschianos de potência, corpo e vontade, me parece bem assinalável. 

Nessa linha artaud-nietzschiana o prolongamento seria a psicanálise com a concepção de "imaginário", o corpo com que efetivamente lidamos psiquicamente, e que é variável conforme as fases de nossa maturação ou os estados do nosso processo edipiano não-resolvido. A meu ver é incontornável a influência da psicanálise em Artaud, ainda que como já assinalei ele proceda como se o não-ocidental esclarecesse a utilidade do conceito ocidental, não o oposto. O tema dessa influência tangencia suas relações com o surrealismo, movimento que ele integrou e que manifestamente tangencia o inconsciente freudiano,  e cujas relações com a obra de Artaud suscita opiniões opostas, Virmaux supondo que elas foram quase nulas, M. Nadeau, inversamente, acentuando-as. Mas assim como Breton estava mais interessado no limiar entre inconsciente e consciente do que naquilo que os psicanalistas almejam como a concreção do consciente, também Artaud é mais um novo intérprete da teoria do que um seguidor de Freud.

 Em todo caso,  no pós-estruturalismo, Deleuze-Guattari se utilizam de Artaud para construir uma concepção de imaginário (corpo) no inconsciente, mas dispensando-se do Édipo. Esse empreendimento do Mille Plateaux efetivamente está lidando com uma noção de duplo estruturante de todo o percurso conceitual - a dupla articulação de Hjelmslev (conteúdo e expressão) suposta generalizável para toda articulação fenomênica pensável, o que implica que toda ação é dupla, é feita duas vezes, mas quanto ao corpo expressivo, seria aquele povoado de intensidades das quais o inconsciente faz um programa de inter-relações possíveis que estruturam o devir do sujeito.

Artaud é relacionado especialmente ao trecho onde se trata da oposição construída por Deleuze-Guattari, entre esse corpo que na psicanálise corresponderia ao imaginário - e que para eles é uma função de memória - e o corpo organizado cuja imagem formamos ao longo do processo de socialização que corresponde à maturação da nossa sexualidade na adolescência. Assim, Artaud é citado logo no início do texto, por sua alusão à inutilidade da unidade funcional do oganismo, como se Artaud fosse o precursor da teoria ora enunciada.

  Além disso, devemos lembrar que o Mille Plateaux é a continuação do Anti-Édipo, ambos perfazendo o projeto "capitalismo e esquizofrenia". O corpo expressivo ou a-orgânico do Mille Plateaux é o desenvolvimento do conceito positivo de esquizofrenia como potência do inconsciente,  apresentado no Anti-Édipo. Torna-se a articulação do corpo expressivo em Artaud, ao mesmo tempo o que seria a sua expressão da essência da esquizofrenia. 

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