sábado, 1 de outubro de 2016

Grandón do pidgin Joss (13)

Sally pensava que desviando a conversa para uma direção teórica (o caso do psicótico criativo) diminuiria a entumescência de nosso verdadeiro assunto: o estado de exceção efetivo. Ela segurava o cigarro entre seus dois dedos cruzados diante do rosto e suas ações, habitualmente tão graciosas, advertiam para a chegada de um peso extra insuportável nos nossos nervos. ----- Das judgsten Tag (!) (ela disse) Juízo sumário (Strandrecht): Juízo Final (!) -----, e sacudiu a cabeça, avermelhando-se. ----- Ah (respondi) problemas emergenciais. Já advinhava qualquer coisa assim: o tempo do Messias tem exatamente esse formato ''legal''. Tanto a Shari´a Islâmica quanto a Halakah Hebraica envolvem um pouco de filosofia política. Com o Apocalipse de João não poderia ser diferente. A Filosofia e A Lei (.) Ninguém escapa . ----- , concluí. Era-me difícil compreender o motivo real  do nervosismo de Sally. ''Talvez '', eu pensava ''porque ela se apegara demais à certos privilégios que de maneira alguma estavam garantidos na Lei. A perda imediata de tais privilégios também estava na base do drama barroco alemão. Ela vivia dos juros de alguns milhões de dólares isentos de taxas e impostos, e isso estava atrapalhando sua evolução espiritual. Não cansava de lhe repetir: ----- A regra vive só na exceção. Debaixo da terra talvez. Não se pode vê-la a olho nu.   Da minha parte, só represento  o pequeno Éden que você insiste em ver em mim para quem aprecia o gênero decomposto da linguagem, sem saída para frases feitas e pontuação comum. ''Legalmente'' fora das leis gramaticais. Legalmente fora da Lei. O caso normal não prova nada nunca . Mas a exceção prova tudo, convence à todos. Segundo o étimo  ''ex-capere'', antigo termo latino para ''exclusão''. Só é possível manter-se em relação com tal linguagem sob a forma de suspensão. A norma, aqui, se aplica à exceção ''desaplicando-se'', como no conceito-limite da teoria - jurídica, de que um Soberano se vale para decretar o ''estado de exceção. '' (.) -----, eu disse. Sally tinha aquela carnação especial da mulher pública constantemente vista; atração e talento sexual: volupté, numa palavra. E me fazia recordar o vocabulário francês que eu aprendera lendo Rimbaud no original. Aquele livro a respeito do Inferno. Une Saizon. .. e aquela Sally apetitosa ali na minha frente também representava alguma coisa infernal. Volupté,  seins, épaules, hanches; Sur un lit de feuilles. Cette tiédeur satinée de femme. Muito bom , Zolá! De fato, pomares sofrendo durante tremores de terra certamente derrubariam suas peras e maçãs. Algo que eu compreendia até com certa simpatia, mas procurando ainda identificar o que faltava para a felicidade de Sally. O direito, talvez, eu pensava, ao ar livre ?? Mas em qualquer tempo, ela estava sempre envolvida em dificuldades de índole, que muitas vezes lhe causavam um terrível sofrimento; de manhã até a noite tropeçando em obstáculos invisíveis criados pela sua própria imaginação,  esse mato rasteiro que parecia lhe estender galhos e moitas para envolvê-la e escondê-la de si mesma. Vistas soberbas de todos os lados do Inimigo lhe faziam pensar se, por acaso, sua ''volupté'' não era, afinal, sua própria ruína, uma carga muito dura e penosa para sua alma de mulher. Eu a via como uma mulher presa numa alcova: ----- Gosto muito de você pelo seu temperamento suicida . É um sintoma suicida enfrentar de forma tao aberta um Demônio que te domina tão facilmente. Que domina seu trabalho tão melhor que você. Um dos mais antigos preceitos da Sabedoria Tradicional Chinesa diz que: ''Nunca devemos enfrentar o Mal diretamente, pois ele sempre encontra meios de se defender '' (.)  -----, eu lhe dizia, apiedado. Convidado por ela, ali eu me encontrava, em sua casa, perplexo, assistindo o fundamento oculto da Lei vir à Luz de forma devastadora. Ainda assim, eu achava indispensável que ela soubesse tudo o que estava acontecendo na América, mas sem muitos detalhes. O mínimo de perseguições e punições, de preferência. Apenas o canto dos pássaros e nenhum contato  humano fora eu, que só pedia, no entanto, para vê-la o menos possível, enquanto ela estivesse naquele estado, pois minhas faculdades de memória e reflexão estavam sendo golpeadas por um vento muito forte. Nele, minha mente fluía totalmente nua e desimpedida, como um surfista. Era uma experiência religiosa de culminação.  Estava o tempo todo sendo restituído à condição originária da Mente Cósmica pela experiência direta do Bem e do Mal. A Árvore do Conhecimento viria abaixo na forma da HALAKAH, a glória da Torá originária estava sendo restaurada e o rosto da Lei, logo logo, mudaria completamente. ----- Sempre haverá certa dose de desespero sublinhando seus pequenos prazeres (eu disse à ela) Essa é a Lei. Uma vez descumprida,  o que te sobra são seus próprios restos peguentos: frustração e insuficiência. A morte sentada dentro da cápsula da saúde; a Escuridão acenando sob o sol fraco da utopia. O Avatar não vem ao mundo apenas para abolir a antiga Lei , mas para abolir a própria HALAKAH, ao culminá-la. Ele é como o pequeno deslocamento de uma placa tectônica gigantesca, mas composta de letras. A Torá originária não é um ''texto'', mas a totalidade possível das combinações do alfabeto hebraico.  Você ainda está zangada comigo ??  ------, perguntei. Naquele momento,  eu tinha o aspecto imparcial de um técnico fazendo um trabalho estatístico sobre mísseis balísticos para o bloco do Congresso que votou contra o acordo com o Irã. Na expressão de Sally subsistia alguma coisa grave, sem traços de infância feliz. O último olhar dela para mim, antes de voltar afalar, deixou-me admirado. Os lábios entreabertos, a testa franzida, a própria pele exprimindo completo abandono da pessoa original.  Mesmo assim, seus olhos não desistiam de sua aparência erótica, adquirida mediante certas características de negritude sexual, como nas comédias americanas.   ----- E você descobriu o quê, de tão importante (?) -----, perguntou-me ela. ----- Que o rabino Elyhau Kohen Ittamari, no século XVIII, já havia prescrito a Torá como eu a entendo: escrita sem pontuação ou sinais vocálicos fixos; formulação semelhante à do fundador do chassidismo na Polônia, Ba´al Shem : ''A Torá é mais do que uma mistura incoerente de letras para aquele que chega a dominá-la. São combinações que formam  o ''Nome Vivo'' de muitos acontecimentos por vir . Algo muito diferente da clarividência comum.  Restitutio in integrum... É isso que faço agora. Quase um divertimento sexual. Uma tensão que não se apaga nunca. Rumo à alegria negra de passar sempre só e vazio para outro lado e voltar bastante ''atualizado'' sobre tudo, se é que me entende. Estado pleromático da Torá (.) -----, eu disse.

K.M.

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