quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Grandón do pidgins Joss (25)

----- Talvez minha capacidade associativa esteja sendo distorcida por algum tipo de feitiço (ela disse) Mas não considero esse o seu melhor lado. Você não está mostrando seu melhor lado. Vamos (!) ----, Miss Rogoff disse, com a superioridade de alguém que tinha aprendido, desde mocinha, a não se curvar para se defender verbalmente de um adversário socialmente inferior. O prazer do rebaixamento pela paródia (ela pensava) comum à assassinos e atores condenados. Era exatamente isso que a preocupava na minha teatralidade. ----- Por favor (continuou ela) Diga se assim lhe parece ...) ----, não havia mais ninguém no seu apartamento, e eu estava pensando se devia dormir ali ou ir para a estação de metrô mais próxima. Ainda assim, eu lhe sorri, com um auto-controle perfeito. Desse modo (pensava) eu conservava uma sinistra atitude autocrata diante da fome de supremacia que Liz não conseguia disfarçar em momento algum. Na verdade, eu me considerava mais intimidador intelectualmente quando falava pouco e deixava a autoridade fluir de dentro para fora, ao passo que nela, o assustador decorria de sempre querer falar tudo. ----- Talvez meu objetivo seja ressaltar que sempre estive louco desde o começo (eu disse) ; Desde a tenra infância,nenhum choque serviu para me tornar  mais são. O menino abandonado desde cedo deu provas incontestáveis de seus maus instintos, roubando inclusive a família do caseiro que cuidava de sua fazenda. Repreendido por parentes distantes, o menino perseverava, roubando e pilhando mais e mais e, como se não bastasse, assediando as filhas dos matutos. Mesmo com dinheiro, ele preferia viver numa miséria aparente, vagando à cavalo pelas estradas rurais e cometendo pequenos furtos, fornicando com empregadas e traindo cada um de seus parentes . Nada era capaz de desencorajar seu zelo pelo crime. É neste momento que (ao que parece) ele se dá conta de que o pior delito de todos não era praticar o Mal, mas manifestá-lo publicamente. Aqui é que ele se torna escritor e poeta de fato (.) ------, eu disse, rindo da fisionomia amorfa de Liz, porque minhas palavras arrancavam faíscas de seu estado de tensão. Seus olhos fixos buscavam em mim  qualquer coisa que pusesse a descoberto o forro escarlate de gabardine, o murmúrio de cetim da minha voz. O leve frêmito que percorria seus ombros também ansiava por aquele golpe de vento em suas idéias; pelo jogo preparatório em que, reconhecendo-se em mim após certa aproximação, ela se realizaria completamente no meu pensamento. Mas a novidade e o interesse assombroso que o assunto causava no mais íntimo do seu ser eram produto do meu vampirismo intelectual, mais do que de um autêntica paixão. ------ Acho que você nunca soletrou seu pensamento mais claramente (ela disse); e, por outro lado, nunca se fiou tanto nessa espécie de arrebatamento discreto, propiciado pela chance de pintar a gênese do horror com tanta complacência, denunciando até mesmo o ''humour'' com que realiza a tarefa, ao invocar sua infância. A repetição insistente, tanto em você quanto na sua obra, é o procedimento  pelo qual você afasta as leitoras e a si mesmo das vias normais, num ''parti-pris''artístico de puro asco pela normalidade. Mesmo rindo o tempo todo, você é incapaz de recusar o contágio das exigências espirituais mais amargas, que liberam o espírito da tentação do repouso. Um fúria fantasmática de nulificação, de negação dos valores mais atraentes para a sociedade, confere à pintura renovada das mesmas situações em sua obra uma espécie de acabamento. E o relato de todas essas conspurcações gera uma confusão diabólica no público, bem ao gosto do típico ''comédien'', salvando a narrativa do atoleiro do pensamento ordinário, transformando-a numa imensa avenida alternativa à ele. Seus escritos, boa parte deles monstruosos, são um ponto de partida extremamente favorável  à sua atuação. Eles lhe permitem, a todo momento, usar o valor de choque e a turbulência moral, cujos resultados no público sempre lhes são proporcionais(.) -----, ela disse. Nitidamente, Liz não estava bem. Usava, naquele momento, apenas um buraquinho pequeno para falar, um buraco no centro dos lábios com a circunferência de uma pastilha para tosse; através desse furo bucal, ela expelia as agulhinhas quentes de suas idéias, dominada pela fascinação que o confronto com as minhas lhe causava, enquanto  eu tomava ares de esfinge à sua frente, insinuando-me, preferencialmente, como um vampiro de quase um metro e noventa de altura. ''Quanto mais disciplinado eu for'' (pensava) ''Quanto mais evitar movimentos supérfluos, gesticulantes e deambulantes, tanto mais cada postura e atitude do meu corpo se bastarão a si mesmas (.) '''. ----- Certo (eu disse) Mas nem sempre sinto necessidade de arrastar para dentro de lares ricos e civilizados meu vampirismo inato. Não me importo muito que as pessoas gostem ou não de mim. Acredito ter dominado um certo número de mistérios da consciência e estou ''cagando'' para o efeito sensacionalista disso nos outros (.) ------, concluí. Desta vez, os olhos dela se arregalaram, opalinos, como num grito mudo, sem fundo e sem teto, que indicavam um estado inconfessável de emergência, de alto risco,  e que ,de forma efetiva, acabou pondo fim no ''plano ordinário '' de nosso diálogo. ------ Você teria coragem de vir comigo até o metrô (?) (perguntei-lhe) São um e quarenta da manhã (.) -----, sugerindo a primeira ''grande noitada'' fora de casa de nosso recém-nascido relacionamento amoroso. Ao aceitar prontamente, Miss Rogoff admitia a fraqueza das formas objetivas disponíveis até o momento para nossa interação, e, consequentemente, sua súbita falta de confiança nelas. O vasto sistema novaiorquino de metrô se estendia por 375 km, com 468 estações. A cor verde, nas esferas luminosas, indicavam vendas de bilhetes vinte e quatro horas por dia; e a vermelha, que a entrada estava restrita. Os trens expressos eram indicados por um círculo branco. Fomos de táxi até a estação de South Ferry, e eu a levei até a  ''off hours waiting area'' da plataforma. Antes que o relógio marcasse duas da manhã, , já não havia ninguém em South Ferry, o metrô como ''intercessor''... Condicionamento rotineiro das ruas versus estados de cenestesia. O vagão central: ----- Vamos (?) (convidei-a a entrar) Basta descer aqui (disse depois) que uma mão invisível se apodera da nossa. Mas numa figura como eu, é possível encontrar o pior de todos os casos: a mais monstruosa forma de exagero do próprio ego. Minha mão te levará hoje, igualmente, sem a  menor possibilidade de escolha, a tocar sua própria personalidade com o máximo de exagero e selvageria. Então você compreenderá o que é um vampiro de verdade, Liz (.) -----, eu disse. De fato: ao olhar para a fisionomia desconfiada dela, parecia-me já ter visto aquele rosto milhares de vezes. Era o rosto de uma vítima, e estava expresso nas entrelinhas de todos os livros que já lêra na vida. ----- Assim que os terráqueos descobriram um nome para si (prossegui) : Humanos ou coisa que o valha, passaram a comportar-se como humanos, ou coisa que o valha, rindo e chorando, fazendo rir e chorar, procurando ocasiões, provocando-as, regozijando-se em torcer as mãos e tirar lágrimas de suas glândulas, nadando e navegando nesse nebuloso, contaminado, confuso, agitado mar de sentimentos humanos, tomando as águas da paixão e clamando  a respeito de seu próprio destino. Justamente o comportamento que eu e minha obra condenamos (e ri) considerando uma particular falta de originalidade perseverar nessas caminhos simplórios (.)  -----, disse. Enquanto caminhávamos por outra estação, grades, setas, passagens, trilhos, círculos luminosos, catracas e escadas anulavam toda e qualquer margem de capricho, todo e qualquer zigue-zague de superfície à nossa volta. Era o ambiente perfeito (eu pensava) da relojoaria predeterminada da noite de lua cheia, onde as potências da superfície adormeciam e o acesso aos outros níveis da realidade se faziam possíveis. ----- O metrô ( continuei friamente) nos torna, por um instante, porosos e disponíveis à tudo aquilo que a ''liberdade'' da superfície nos priva, sobretudo durante o dia. Agora, suponhamos que a Srta. tenha também , como eu, se cansado desse lastimável teatro da alma humana, e comece a perceber que, pela maneira como tem olhado pra mim, esteja aprovando apaixonadamente a desolação do inferno congelado no qual eu vivo. Que, num estalo de vossa consciência, todas as formas familiares de buscar a si mesma na superfície da realidade cotidiana, tenham de repente se tornado, para você, trastes históricos, pesos mortos, deformações hereditárias, menstruações lunares e cargas excessivamente burguesas para uma alma superior seguir transportando em sua jornada na terra.  Ora, seu ego pensará imediatamente em meu esplendoroso deserto como uma alegre e nova roupagem de grandeza, lindamente pintada pela genialidade dos artistas mais perversos que já viveram até hoje. Ou então vossa personalidade, da qual a proprietária sente não estar tão orgulhosa quanto gostaria, entrará num maravilhoso ''estágio ético de revolta '' , prolífico e belíssimo (!) Se vivessem em nosso tempo, Gerárd de Nerval e Baudelaire teria amado o metrô, exatamente como você está sentindo que me ama agora. Nerval, pelo seu lado alucinatório, cíclico e recorrente; e Baudelaire pela artificialidade total das estruturas metálicas sob a luz mortiça e estancada. Em sua volúpia de assimilação, o relato vivo de um vampiro é sempre a apresentação apetitosa que ele põe à mesa após devorar uma série de alimentos crus. É a apresentação daquilo que ele comeu cru. Mas a arte do vampiro não são seus hábitos alimentares, nem seu ''alimento''; ela só começa para além deles. Aquilo de que o vampiro se alimenta é repugnante e intragável para os outros, e as pessoas morreriam ou enlouqueceriam se se alimentassem disso ''in natura''... 

K.M.

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