Aquele escritório ficava atrás da sala e era um degrau mais baixo que ela, com portas de correr feitas de carvalho que separavam os cômodos um do outro. Assim que eu comprava os jornais do dia, corria lá para dentro e não ouvia mais nada. Ali eu passava horas a fio, que para as pessoas comuns podiam parecer tediosas, mas, pensando no anverso da medalha, dizia para mim mesmo que poucas pessoas sabiam acertar tão maravilhosamente suas contas com o mundo do que eu, quando fechava-me ali dentro. Um confeiteiro de contos infantis refinados ali sobrevivia melhor do que no Natal de Moscou. E, com a leitura dos cadernos econômicos, eu culminava minha iniciativa mais extrema no âmbito do dispositivo da imprensa, da administração empresarial e dos trustes, dispondo de meu próprio sistema imaginário de concentração de riquezas, simultaneamente no campo da poesia, da narrativa e das exegeses plástico-políticas. Após tantos relacionamentos desastrosos, a vida com Anna, mais bela e interessante que as outras, ao pegar um mínimo de embalo, ainda me parecia maravilhosa naquelas manhãs. Se ela me considerava um dândi, um macarroni ou um beau, também via em mim o deus vivo, sábio e indestrutível, elegante e belo como um pássaro. Trancado no escritório, era-me possível calcular inclusive o valor de troca dos meus poderes matrimoniais, captando em sua unidade central uma obra humana e literária gigantesca diante de tantos pequenos estereótipos que tentavam condicioná-la à uma rivalidade inexistente, vindos de fora, da periferia do espetáculo. Naquele contexto, o escritório parecia fechado em alturas inalcançáveis, enquanto eu misturava assuntos pessoais e universais. Quando aplicava meu procedimento de leitura anagógica às estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, sobre oferta e demanda de grãos no mundo, não havia como fugir do fato: A previsão para o preços do milho, do trigo e da soja não só não ofereceriam suporte às cotações atuais, como passariam à pressioná-las ainda mais. Ajustes para baixo e correções da previsão para estoques mundiais ao fim do ciclo, (sentindo pela safra 2015-2016). Aquilo , para mim, era já futuro e não presente, eu pensava então. Trabalho revolucionário e não literatura elitista. Trabalho profissional inimitável, paralelo à literatura. Havia, por certo, muito do jogo gratuito na relação telepática com os russos; de outro modo não era possível entender o mutismo e a desconfiança sentidas por eles em relação à mim. ''Ali se dizia que ... '' muitos diziam a respeito, ou ''A opinião generalizada ali é que... '', dando-se voltas e mais voltas na própria língua antes de emitirem uma opinião mais aguda diante da audiência mundial . Tal comportamento não era diferente nos homens de terno de flanela, nas Bolsas de Valores, que viviam com o almanaque econômico aberto nos modelos estocásticos de equilíbrio geral, e para os quais uma opinião realmente segura era, antes de tudo, senão o único bem, ao menos a única garantia de outros bens necrosados pela volatilidade, como as ''expectativas racionais'' e o ''uso prudente'' dos próprios nomes e vozes em público. Eu procurava mudar de assunto, pois essa visão distorcida da economia e do ''Sr. Prudome'', o burguês tradicional, se encontrava no momento sitiada por todos os lados pela nova ontologia do nacionalismo. Obviamente , evocava estudiosos do assunto que eu conhecia muito pouco e que me atraíam para suas colunas como outrora o Demônio de todas as combinatórias essenciais da existência me atraía para o riso diabólico. E fazia essas reflexões em plena consciência de já ter realizado algo inconcebivelmente difícil, obtendo resultados quase científicos contra a hostilidade de mais da metade do globo. Resultado de uma encenação avant-garde contra todos os gestos marmóreos e rígidos de todos os operadores de swaps do mundo, dos quais o helenismo cheio de pó de suas análises macro-econômicas falavam de uma forma tão falsa quanto um teatro de corte alemão. Mas minha idéia geral, meu ''plano de trabalho'', assim como nos Cantos, de Ezra Pound, era apenas provocar uma espécie de encantamento divinatório e apaziguar o olhar furioso do mercado financeiro com um pensamento dilatado e brilhante que exprimia , no máximo , uma certa disposição de falar sobre lições de etiqueta. A velha escola de boas maneiras de toda ação política eficaz, tendo como fundamento uma comunidade econômica concreta, mas sem a versão distorcida e desoladora das zonas de livre comércio atuais, que haviam nos conduzido à um imperialismo burocrático, dissimulado e sem ideologia em sua última fase. ''Diós diasraiél (!) '', eu pensava ''Shuadovíditis Krávinis (!!) '', clamava comigo mesmo, gabando-me de falar iídiche com grande desenvoltura. ''Mãe do céu, anjo de amor, festa de sóreta (!) Cascavilhando um poucquinho a catadura deste COISO (!) E isso aqui, ainda por cima, se deixa fotografar como nenhum outro (.) E se otma por escritor e ainda por cima russo , alemão, francês(!) Um BESSELER, julgando que sabia de cor o que F.A. Weber afirmava em Die griechische Entwick der Zahl pun Raumbegriffe in der griechischen Philosophie bis Aristoteles und der Begriff der Unendlichkeit, assim como o que Giovanni Domenico afirmava em ''Che cosa è la mente sana''. Constituído espiritualmente no terceiro capítulo da edição de J.H. Peterman (Berlim, 1895), da ''Pistis Sophia'' : ''Opus gnosticum Valentino adjudicatum a codice manuscripto coptico Londinensi descripsit et latine vertir M.G. Schwartze. Em outros palavras: que eu me considero um Valentino. Mas não, trata-se de outra coisa.
K.M.
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