Quem quer que possua a capacidade para sentimentos profundos deve também
sofrer da veemente luta entre eles e seus opostos. Para se tornar perfeitamente
calmo e isento de sofrimento interior, alguém poderia simplesmente se
desacostumar dos sentimentos profundos, de modo que, em sua fraqueza, tais
sentimentos despertariam apenas débeis forças contrárias: eles poderiam então,
em sua tenuidade sublimada, passar despercebidos e dar aos seres humanos a
impressão de que estão em harmonia consigo mesmos. – [...] (6[58] 9.207f.)
Reduzindo ao mínimo a veemente discordância entre nossos sentimentos e
seus opostos, podemos desperceber o seu antagonismo interno e tomá-lo por um
estado pessoal de paz, harmonia ou acordo (o ideal socrático). Nietzsche chega
mesmo a explicar detalhadamente o correlato político desta estratégia moral
individual:
Assim também na vida social: se é para tudo funcionar de modo altruísta,
as oposições entre os indivíduos devem ser reduzidas a um mínimo sublime: de
modo que todas as tensões e tendências hostis, através das quais o indivíduo se
mantém como indivíduo [durch welche das Individuum sich als Individuum erhält],
mal possam ser percebidas; ou seja: os indivíduos devem ser reduzidos à
tonalidade mais pálida da individualidade! Assim a igualdade [ou uniformidade:
Gleichheit] de longe prevalece. Isso é eutanásia, inteiramente improdutivo!
[...] (6[58] 9.208)
Essa estratégia pode até salvar o indivíduo, ou melhor: o dividuum, do
sofrimento,40 mas traz consigo um alto custo. À redução da tensão se segue, em
primeiro lugar, uma redução da diversidade, de modo que 'a igualdade e a
uniformidade, de longe, prevaleçam'; e, em segundo, uma redução do poder
criativo ou produtivo – uma espécie de 'eutanásia, inteiramente improdutiva'.
Como deixa claro a referência à 'eutanásia', é a vida mesma, como uma
incessante e múltipla instauração (i.e., produção, criação) do Ser, que é
negada e empobrecida pela morte viva da individualidade improdutiva; assim como
é a vida que, em seu pluralismo, é negada e empobrecida sob o jugo da
uniformidade que se segue à redução da tensão e do antagonismo. O que então seria
necessário para engrandecer e afirmar a vida ou a realidade no nível das vidas
individuais e de suas interações? Que alternativa afirmativa há para reduzir a
tensão, que promova e engrandeça a vida em seu caráter produtivo e plural,
enquanto um incessante e múltiplo Fest-Setzen? O que, noutras palavras, seria
necessário para maximizar, em vez de minimizar a tensão?
A resposta de Nietzsche exclui relações de dominação, subjugação,
incorporação ou destruição: ela pressupõe uma espécie de equilibrium entre uma
multiplicidade de forças mais ou menos equânimes, impulsos ou complexos de
poder, todos inclinados a expandir o seu poder. Somente se esses impulsos ou
'sentimentos' forem de 'poder similar' é que poderão evitar sucumbir à
subjugação, assimilação ou dominação por parte de seus antagonistas, e
manterem-se em certo equilíbrio para que a tensão seja maximizada. A
alternativa afirmativa e engrandecedora da vida, que Nietzsche opõe ao ideal
socrático de paz ou acordo consigo mesmo, alcançado por meio da redução da
tensão, consiste, assim, em um ideal de equilíbrio entre forças antagônicas
mais ou menos equânimes que permita a maximização da tensão interna, o
antagonismo veemente entre nossos sentimentos e seus opostos. Mas agora surge o
problema: Como pode se sustentar esse equilíbrio produtivo e dinâmico entre
indivíduos ou divíduos, sem uma perda completa da unidade, uma completa
des-integração sob a pressão de um conflito imensurável entre impulsos mais ou
menos equânimes? Que grau ou medida do conflito entre os divíduos os torna
capazes de persistir enquanto unidades vivas? No texto que estamos
considerando, Nietzsche nos oferece uma resposta social, ou antes política,
quando escreve sobre as 'tensões e tendências hostis, por meio das quais o
indivíduo se mantém como indivíduo [durch welche das Individuum sich als
Individuum erhält]'. Aqui, a forte tensão interna está relacionada com a tensão
exterior, interpessoal, como sua condição: é por intermédio das relações de
tensão e antagonismo com os outros que o antagonismo dos impulsos internos é
mais bem contido, para que o dividuum possa atingir a unidade, ou manter-se
como indivíduo com o máximo de tensão interna. O grau ou medida do máximo de
antagonismo interno concernente a uma existência individual é determinado por
relações de tensão entre indivíduos. A igualdade no sentido de um equilíbrio
entre forças antagônicas mais ou menos equânimes é o sine qua non para a
persistência da tensão ou antagonismo, seja dentro ou entre indivíduos. A este
respeito, podemos dizer que o projeto nietzschiano de afirmação ou
engrandecimento da vida implica uma política da igualdade, não no sentido de
direitos iguais universais que nos protejam do conflito e da intromissão, mas
uma política de inimizade entre poderes mais ou menos equânimes, que permita
aos indivíduos se tornarem divíduos produtivos, mantendo, para tanto, a sua
unidade como indivíduos.
Travando uma guerra
contra a guerra: Nietzsche contra Kant acerca do conflito1
Herman Siemens
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