A pressão
política sobre mim estava passando dos limites ---- falsas acusações,
depredações do meu patrimônio intelectual, ameaças de demissão, e o
aparecimento do meu nome em várias listas negras que surgiam sem parar na
internet inteira. Queriam transformar o acusador em acusado. Apesar de tudo, a
crise no meu relacionamento amoroso ainda não era ‘’a’’ crise. Claro, eu sabia
correr riscos de ambos os lados, e no final pensava que as duas coisas se
tornariam uma só, naturalmente; mas no momento eu ainda era capaz de mantê-las
separadas. Fiz o caminho para o novo apartamento com Miss Rogoff conversando
com ela numa voz que parecia nascer das profundidades do meu corpo. Minha ‘’autoconsciência’’,
como ela disse, capturava minha sensibilidade sobre a corda da minha voz. Mas o
que estava além do desejo ( eu pensava) nenhuma voz poderia exprimir. Dentro de
mim, no entanto, eu possuía o ductus fluido de um apontamento sumário, que
muitas vezes me alertava sobre ‘’erros ‘’ e ‘’enganos’’, e que eu chamava a me
servir de suporte na maioria dos meus encontros. Naquele momento, o ductus
fluía nas veias do atrito, me fazendo rir da suspeita que Liz lançava sobre mim
e o meu trabalho. Sentia-me inclinado a fazer piadinhas com a ‘’Fera’’. Ela queria
que eu me submetesse aos seus ’’testes’’ sem recriminações, protegendo-se por
trás do seu prestígio social e fingindo que estava tentando fazer alguma coisa
importante por mim. E certamente faria, a julgar pelo seus gestos. Mas o que
dizer de todos os meus negócios inacabados (?) Para mim, tudo que eu fazia e
sentia era uma façanha, e sem tocar no assunto, sem praticamente falar, eu
tentava comunicar disso alguma coisa à ela, fortificá-la em seu pensamento. E
mesmo não podendo identificá-la com precisão, ela queria saber mais: ----- Seu
compromisso comigo é o de se purificar um pouco, antes de mais nada(.) Lembra
(?) Não vou mais tolerar esse sentimento de traição que você instala em mim
sutilmente, sem nunca revelar nada (.) ------, ela disse. Para justificar todo
meu esforço psicológico naquele momento, disse para mim mesmo que tudo estava
perto de desabar . ------ Você sabe que se
meter ‘’certas coisas’’ no meio do nosso assunto, acabaremos sem nos falar para
o resto da vida. Não sabe (?) -----, perguntou-me. Aquilo já era uma pontinha de
briga séria, nada agradável. Quando Liz discutia sobre as ‘’coisas que mais importavam
para ela ‘’, nunca se dava por vencida. Sobretudo naquela ocasião, em que ter
meu espaço próprio representava uma maior propensão à não me importar de sair
perdendo. Ela olhava firme para mim, batendo firme seus dedos sobre a mesa da
sala. Turbulenta, ela tentava distorcer a questão, atropelando tudo o que eu
dizia com : ------ ‘’Não insulte minha inteligência (!) ‘’ ------, sua energia
para brigar era impressionante: ------ Não dou a mínima se ninguém a não ser eu
entendo essas coisas (!) Se você tivesse a menor idéia de como a sociedade
americana está organizada, já teria modificado seu comportamento(.)
-----, bradava ela. E se punha especialmente incendiária quando tentava me
botar no lugar como mero escrevinhador da internet: ------ O que odeio com mais
raiva em você é me pedir ‘’Por favor, explique-me de que diabo você está
falando ‘’ (.)-----, parecia não existir, para ela, em tudo o que eu fazia ou
dizia, nem um mínimo detalhe sem importância, . Tudo que ela pensava,
justamente porque era’’ela ‘’ quem pensava, tinha que ser ‘’decisivo’’. E ela
realmente pretendia encontrar alguma validade nisso. ----- Sua teimosia é algo
impressionante, K (.) De fato, não é um cara mole de se convencer (.) E olha que
eu sei , como ninguém, persuadir os outros de que estou falando sério; mas o
seu antagonismo parece inesgotável (!) -----, ela disse. Aquilo me fazia sentir
a pressão por todos os lados do espectro social, o que me preocupava. Eu me
perguntava que tipo de ‘’narrativa’’’ seria capaz de produzir uma condição mais
favorável para mim. Em todo caso, a tensão nervosa dela era um dique que
resistiria (eu pensava) à corrente de qualquer narrativa. Restava-me apenas
constatar que seria derrubado a qualquer momento . Parecia-me impossível,
então, induzir nela uma inclinação suficientemente forte para arrastar para o
mar do esquecimento feliz todos os motivos para brigar comigo que ela
encontrava pelo caminho. ------ Você só anda na companhia de moças duvidosas
(.) Tudo o que me
impele para você, ora nesta, ora naquela ocasião, é puro acidente (.) Você se
considera um ator grandioso, capaz de representar na vida real qualquer papel ...
mas não é ator coisa nenhuma, apenas tem a cara de pau de se meter em qualquer confusão
e pôr aboca no mundo como um maluco (.) Isso (realmente) nunca lhe faltou. Mas
ser um ator (?) JAMAIS (!) , você representa todos os papéis do mesmo jeito. Sempre
aquele papo furado sobre arte e vida, como se estivesse jogando cartas num
canto enfumaçado (.) Você deve se olhar no espelho e se
considerar um instrumento da história... que a história o trouxe para a capital
do mundo para corrigir os erros da sociedade, enquanto os seus ficam por isso
mesmo (.) Sua única vocação real é para
ser alguém ininteligível. Um terreno eternamente por explorar. Dois pontos, reticências...
é isso, então (?) ‘’Uma outra maneira de se aproximar da vida ‘’ (?) de ‘’tocar
o mundo ‘’ (?), como você diz... E o que esperar disso (?) Descobrir coisas
estranhas sobre a mente humana, condensar em pensamentos alguma essência
secreta de experiências mentais (?)
Entramos no meio de alguma situação confusa e agora teremos que
concluí-la(.) Resta descobrir como (.)
------, ela disse.
K.M.
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