K.M.
domingo, 2 de outubro de 2016
Grandón do pidgins Joss (14)
A neurofisiologia parecia estar de acordo com Aristóteles a respeito daquele ''caso''. ''Aquilo '' (Anna me explicou) eram paparazzis, e traziam consigo três moças vestidas na última moda. Diretamente da Carnaby Street ou da King´s Road: botas de cano longo, minissaias e cílios postiços. Anna, ao meu lado, era capaz de convencer à mim e à si mesma quando aquelas coisas eram sentidas. A falta de luz em frente à entrada do evento indicava que chegáramos atrasados, e a escuridão punha em função em nossas retinas uma série de células periféricas ditas off-cells, que produzem a auto-afecção do escuro. Mas eu queria jantar em casa e não ali, quase não podia perdoar a exigência dela naquele momento. ----- Sou uma atriz em início de ''Kariera'' e preciso ir onde estão os holofotes (.) ------, ela disse em russo, ou polonês. As trevas (eu pensava) como a ''cor'' exata daquela visão em potência, nos olhos deslumbrados dela. Amorphon e sem-figura, dizia para mim mesmo (consolando-me) que não poderia existir Mal maior que eu num evento tão chique. As roupas de todo mundo pareciam saídas do mesmo baú midiático, e as caras das celebridades indicavam o de sempre: que não tinham a menor idéia de quem eram, nem de onde estavam, mas que era preciso sorrir e ser o mais gentil possível. Quando desligassem os holofotes, não lhes restaria mais nada além de medir as consequência psicológicas de suas vocações anfíbias para o simulacro. A profilaxia do sex-appel profissional prescrevia estar (necessariamente) um pouco amedrontado em qualquer situação: digo, de perfil , de frente ou de costas. Atenção total ! A fama era um veneno mortal ! Mas fingir um pouco de amor pela humanidade com um sutil golpe dos olhos sugeria um alto grau de maestria. Havia, no entanto, mais coisas estranhas acontecendo ali dentro , além do óbvio. Era uma mansão de aspecto muito civilizado, até onde me lembro. Sua beleza decorativa, seu evidente conforto, sua aura discreta de intimidade suntuosa e a serena harmonia estética de um milhão de detalhes ---- modificaram meu ânimo arredio para melhor, assim que pisei mais profundamente dentro da festa. Não me lembro até que ponto segui os passos de Anna . Uma fumaça aromática subia do piso de mármore veneziano, em meio à relativamente poucos ruídos além da música. Uma única e mesma natureza se apresentava a mim ora como luz ora como treva. A Physis anônima por trás dos rostos conhecidos, tão capaz das trevas quanto da luz. Metafísica do Diáfano aristotélico transformado em misticismo póstumo na ciência medieval (est de ti diaphanes) Surgindo da luz viva dos corredores e portas entreabertas para dentro da luz amortecida dos holofotes. Eu já estava falando sozinho, àquela altura. Alguém colocara um drink na minha mão e eu não parei mais de beber, andar à esmo e falar sozinho durante muito tempo. Eu era o antropólogo fazendo seu trabalho de campo na floresta; o drink era meu bloco de anotações. ----- Imagino que o Sr. ainda não se pronunciou a respeito dos gastos militares, depois do último bombardeio em pleno cessar-fogo (.) -----, alguém me perguntou. Mas tudo o que eu podia ver eram cabeças e ombros formigando na minha visão, como num microscópio. Obviamente, reconheceram-me e vieram me importunar. ---- O local que o Sr. mencionou ontem já foi bombardeado previamente, na semana passada (.) E então (?) -----, sugeriu outra voz. Dessa vez, era aquela correspondente israelita, cobrindo o fronte da Síria. ''U$ 60 bilhões para a CIA '', escrevera ela no jornal outro dia: ''Não resta dúvida de que poderiam ter-se esforçado para conseguir um pouco mais para a Segurança Interna. É na mão dela que explode tudo depois (U$ 60 bilhões) ''. Eu era o antropólogo órfico visitando a Acrópole oficial. To de phas hoion chroma esti tou diaphanous, hotan e entelecheia diaphanes . Mas quando ouvi a voz dela de novo falando em guerra e bombardeios, larguei meu drink e fui procurar Anna . ----- Só um bilhão de dólares para a educação mundial ? (eu disse para Anna) Mas ninguém mais acredita que a educação possa salvar o mundo. Pensamos em termos práticos, sem esperança de contra-partidas exitosas de nenhum lugar do mundo. Abrir o mercado de ações para o Fed pode fazer disso uma ferramenta eficiente para se debater em tempos de turbulência mundial, e mais nada. A escassez de bônus soberanos na Europa obrigará o BCE a instrumentalizar sua política monetária no mesmo sentido dos Bancos Centrais do Japão e da Suíça. A Autoridade Monetária tem razão. No eco-sistema das cifras orçamentárias, órfãos e bichinhos da floresta não passam de um miserável fundo unificado dedicado aos candidatos a receber ajuda. Eles que esperem ! Nossa paciência com dinheiro anda baixa. Ainda mais se os preços do petróleo não se firmarem no terreno positivo, como é de se esperar. As bombas continuarão caindo do céu, em todos os sentidos. Mas do lado de cá, nosso belicismo americano nato está correndo o risco de ser arruinado por essas garotas bobas, com suas perguntas de malhas colantes (.) -----, eu disse para Anna, olhando para seus cabelos. A cor do Diáfano em ato. Descontraído, eu andava com ela pela casa. ----- Você também passou a apostar mais na Paz e no Desenvolvimento Sustentável, de ontem para hoje (?) -----, perguntei-lhe. Ela achou minha pergunta curiosa. Estava escuro ali. Skotos. Mas também outra coisa para a qual não há um nome, que sugiro chamar aqui de Diáfano, exigia de Anna, naquele momento, uma longa resposta. ----- U$ 900 bilhões para Defesa (?) U$ 160 bilhões para os veteranos ?? Mas o Irã e Israel também desperdiçam boladas monstruosas com isso. Até a Arábia Saudita, onde todo mundo é funcionário público, e está arruinada por causa do petróleo, investe massivamente em armamento pesado. A corrida armamentista imaginária é um mercado cognitivo. Os Estados Unidos, pelo menos, fornecem boa parte das armas que esses povos compram. Nesse meio ninguém tem tempo de ler Proust, como eu e você, mas redigem como ninguém relatórios técnicos para provar que a modernização de Israel foi rápida demais para os Árabes . Como a perniciosa democracia ocidental, os corruptores miasmas do estado de direito, tornaram-se uma ameaça para a apaixonante cultura árabe. Situação parecida com a da alta cultura literária e os almanaques de informação divertidas. Alguns são, de fato, bizarros e abstratos demais. Outros, no entanto, ainda apresentam uma forma reconhecível. Deus sabe como se mantiveram intactos com tanta inovação. Antigamente, por exemplo, eles traziam a previsão do tempo para cada dia do ano... acredita nisso ? Bricabraques astrológicos ornamentais caríssimos, boa parte vinculados aos hábitos de existências prazerosas no seio de regimes extremamente autoritários, duros, genocidas e armados até os dentes.Mas Proust nunca ! A aspiração humana de alcançar a realização artística mediante a potência do pensamento nunca teve guarida ali. E aqui tampouco. Os gastos com o Departamento de Defesa, que deveriam ter financiado a busca da pedra filosofal para a população de baixa renda, está destinada a alçar os Estados Unidos ao status de Estado Imperial decadente, desgastado em milhares de bases militares ao redor do mundo, carcomidas pelo tempo em guerras perpétuas. Muitas das quais, que não acontecerão nunca. Mas cuidaremos delas com nossos impostos, devotadamente. November 8. Aguardaremos os veteranos mutilados que regressarem vivos dos delírios governamentais. Levaremos muitos à lojas de artigos masculinos como o Barney´s e Via Vendetto . Mas os mais exaltados pelo patriotismo, que continuarem ouvindo estrondos e zumbidos no ouvido de noite, levaremos à estabelecimentos unissex. E os loucos perdidos e psicotizados, esses os vestiremos com camisas carmesim de seda e gravatas vermelho-berrante, mais grossas que uma língua de boi. Apresentaremos todos, no seu devido tempo, ao público americano em animados programas de televisão, como bichos. Para que todos mirem maravilhados a tristeza de seus sorrisos amarelos, seus olhos vazios, suas gargantas secas. Importunaremos todos com perguntas sobre morfina e a aridez dos desertos. Diremos: ''que prazer recebê-los aqui, em nosso programa (.)'', rezando para que não respondam em grego: ----- Energe monon dynasthai (.) -----, com seus olhos de relíquias assírias destruídas por robôs. -----, ela disse. Contive-me diante de tanta censura. Aquele era um tradicional começo de conversa judaica, fundamentada em secretas combinações de letras mágicas. Um mínimo vestígio de normalidade. Éftisa... Anna saíra muito nova da Polônia para tentar uma ''Kariera'' de atriz na América. Vestida naquelas roupas apertadas, cinzentas, saldo de uma deriva alucinatória no banheiro de seu lar, aos dezesseis anos, em verde e brique (inclusive botas de Chelsea que lhe subiam pelos tornozelos como cobras ). Com aqueles cabelos ondulados, longos, cobrindo-lhe os ombros e eliminado-lhe 70% do pescoço, ela estava, evidentemente, em busca de uma nova imagem da América, mediante a revisão do conceito de si mesma, em progressão geométrica. Work in progress. .. Nosso principal bem (ela sempre dizia) era a loucura e as línguas estrangeiras que aprendêramos sozinhos, catando piolhos em *** ---- em tendas de ajuda humanitária que até hoje... ----
K.M.
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