De lábios um pouco apertados, e com a cara um pouco amarrada, telefonei para Dorothy enquanto fazia meus cálculos sobre os signos astrais de Liz. Naquele momento, a generalidade do amor me parecia mais serial que nunca; só era possível vivê-los profundamente, tendo cada um deles em vista da série à qual pertenciam. No telefone, Dorothy parecia-me parte de um filme mudo no qual eu também atuava. Demorei para introduzir-me na questão, mas numa encenação desmiolada, uma súbita invenção de puro exagero, disse-lhe que ''passear'', no espanhol ladino que os sefardistas falavam quando foram expulsos da Espanha, era um termo particularmente feliz para o dia. E repeti a fórmula, uma hora depois, quando ela retornou o telefonema inicial para aceitar meu convite. Um de meus papéis prediletos: O Suplicante. ----- Podemos tomar a linha Z ou o trem 6, de Lexington Avenue para o Canal St. , ou o ônibus M1-103. O M15 também serve o Lower East Side. Suplico a você que vá comigo hoje à Chinatown e Little Italy(...) Por favor, não me deixe só (!) -----, eu disse, como se não fosse um simples ''paseo'' que estivesse em jogo, mas a redenção da humanidade. Ou ainda, o movimento infinito de auto-apresentação do ser. Um otário dissimulado, parcialmente iludido pela própria aflição, vindo para a frente do palco suplicar. Mas houve uma emoção que Dorothy não conseguiu dissimular em si mesma quando me ouviu suplicar daquele jeito. Pelo menos isso (pensei eu). Como diria Epiteto, nossos modos de ser ''fazem ginástica'', rejeitando, frequentemente, seguir qualquer linha racional. ----- Todos deveriam ter um Lower East Side nessa vida (.) -----, eu disse, antes de desligar o telefone. Dorothy fora arrebatada por aquele impulso que quase todo mundo experimenta quando alguém querido está perto de desmoronar. A melhor mulher do mundo . Eu te amo, D. Minha cena ao telefone havia solapado completamente sua capacidade de observação, permitindo-me operar uma guinada de cento e oitenta graus no meu estado de espírito: um novo arado contra a página em branco daquele dia faria de mim uma companhia agradável e bem humorada ao lado dela. Dorothy definitivamente engolira a justificação melodramática da minha infâmia, assim que, quando nos encontramos no metrô, acreditei recompensá-la segurando-a pela cintura e beijando sua boca. Isso, àquela altura, já era permitido entre nós; o novo código dos nossos encontros reconhecia agora o alto valor da impulsividade e do calor humano. E sem dúvida nenhuma, os sentimentos dela eram tão fortes quanto os meus, ao contrário dos de Liz. Ainda assim, perseverava na minha conduta um incômodo resíduo de auto-propaganda, adquirido talvez do prolongado contato com a mídia, e que denunciava certa submissão minha ao ''sistema''. A democracia americana era propagandística até o osso. Não havia dúvidas de que o mundo inteiro expressava-se por meio de uma propaganda social, histórica e política, mas na América, quando você tentava emitir seus signos mundanos, de amor ou de sexo, eles caíam num vazio astronômico, transformando qualquer conversação mais ou menos inteligente numa mera repetição dos princípios liberais. Apesar disso, Dorothy certamente não ficou desapontada comigo ao perceber que eu pretendia transformar nossa amizade num caso amoroso o mais depressa possível. ----- Antes das duas, de preferência (.) -----, eu disse. Um homem condenado, ''suplicando'' por amor e afeição. ------ Você me parece mesmo ferrado (.) -----, ela disse, ao notar que seus sentimentos vinham adquirindo uma importância quase cômica dentro de mim. ------ Nada nessa vida (eu disse à ela) provoca tanto nossa curiosidade quanto saber o que de fato se passa na cabeça de um tolo (.) -----, e no geral, creio que eu era mesmo tolo. Imediatamente tornou-se cômico, para ela, perceber que um homem como eu, que punha tanta ênfase na própria liberdade, pudesse admitir de um instante para o outro tamanho controle sobre seus pensamentos e emoções. Moralmente, Dorothy me parecia agora ligeiramente ''incrédula'' ; o pressuposto do meu heroísmo melodramático era agora a mais pura indiscrição, o ''mal du siécle''. ----- Acho que a ocupação obsessiva com a arte (ela disse) e a ''questão social'', foi o que te pôs assim meio doente (.) Sua ''doença'' agora é um emblema social, tal como a loucura era para os Antigos (.) Esquizofrênicos, em geral, têm esse faro todo especial para apreender o verdadeiro estado da sociedade, a atmosfera em que respiram seus contemporâneos (.) Em indivíduos como você, que não têm papas na língua, os nervos são como fibras inspiradas, como aquelas fibras que se estendem, com rejuvenescimentos insatisfeitos , com meandros cheios de nostalgia, nos móveis e na fachada do prédio que Stanford White projetou para o antigo Bowery Saving Bank, em 1894 (.) -----, ela disse, enquanto seguíamos a pé pela Grand Street com a Mulberry, onde Joey Gallo fôra assassinado. ------ Tenho que admitir (eu disse) que , desde novo, minha imagem preferida para isso é a de um Dante que, à aproximação do Inferno, se transforma instantaneamente num feixe de fibras nervosas frementes no ar. Alguém cujo poder supremo é a capacidade de desejar o próprio desejo (.) -----, eu disse. Enquanto ela ria, eu imaginava um esplêndido jorro esguichando do meu pênis.
K.M.
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