sábado, 8 de outubro de 2016
Grandón do pidgins Joss (19)
Se por acaso me exprimi de um modo um tanto estranho, peço que me desculpem, pois estou ainda tomando ar, após tentar abocanhar um favo de futuro em pleno vôo, cujo pulso não poderia ser mais largo que uma régua. Anna tinha agora uma expressão grave no rosto, que fez com que eu me virasse incontinenti. Não tinha certeza de que ela estava usando roupa de baixo. Não, realmente não havia bustenhalter ali. Como se tratava de Anna, era natural que ela embarcasse comigo nas extravagâncias do momento, os lábios pintados numa esquisita cor laranja, de ciclames napolitanos. Também havia cílios postiços e tatuagens hindus, o mundo como vontade e representação, a idéia geral parecendo ser a de provocar encantamento e apaziguar o sobressalto das palavras que saíam da minha boca. Mas ela aprovava meu jeito desenfreado. Assim como Goethe, ela também gostava de seu Demônio, e permitiria que ele acabasse bem, ainda que correndo um risco constante de se irritar com meu apego ao sucesso e a lubricidade que a enxurrada de lisonjas vinha causando na luz negra e tremeluzente do meu ego. ------ Um pouco vão às vezes (ela disse) por causa do reconhecimento repentino do mundo. E tão enigmático no seio dessas relações falsas que colocam uma sensibilidade de tamanha envergadura numa dependência tão grosseira. A comédia é sempre a mesma: tentar reestabelecer contato com o K. primordial, antes que a adequação moral faça mais estragos. Essas repetições intermináveis (das quais voce tem plena consciência) se tornam constrangedoras apenas por causa dos encolhimentos desajeitados que se seguem à elas, mas todos esses erros de perspectiva também têm sua verdade. Não deveria lhe censurar a aristocracia muito livre, as relações de liberdade para com o espírito crítico. Mas não seria ilusão acolher os julgamentos do que lhe falam em público, em familiaridade com tantos rostos e sensibilidades amigas (?) Certo, mas nem mesmo Goethe pôde fazer algo em favor de Schiller; e os encorajamentos excessivos nem sempre ajudaram Virgínia Wolf. Algo, no entanto, que permanecerá superficial. Se no momento lhe tomam por uma criatura vulnerável e exposta, não será, certamente, pela sua falta de modéstia, o desejo de ser grande e célebre como nenhum outro,de resto já consumado... tampouco pela preocupação de parecer perspicaz vinte e quatro horas por dia. Certas maneiras de fraquejar, num ou noutro momento, servem para afastar de si fraquezas maiores e mais essenciais. Como diria Péguy: '' Nunca começo uma obra nova sem tremer um pouco (.) Vivo no terremoto da escrita (!) '' -------, ela disse. Seus olhos, enquanto se expressavam sem nem mesmo olhar para mim, captavam em volta da minha cabeça um pensamento mil vezes dilatado, amplificado pela luz de uma experiência vital muito própria, exprimindo uma terrível sensualidade nas gotículas iluminadas de cada uma de minhas células. Embora me parecendo muito digna e correta, naquela manhã, Anna fazia gestos demais, avançava demais os limites de cada assunto, exageradamente disposta a falar e julgar. ------ Sinto muito (eu disse) Sei que facilito a ocorrência de frequentes mal entendidos, por excesso de naturalidade. Mas muitas dessas coisas não param na minha mente pelo tempo de um suspiro. São repercussões de uma existência que exige de mim tomadas de posição cem vezes por dia. E frequentemente reencontro- me com todas as minhas forças justo no instante em que me sinto abandonado pelo que considero mais necessário, provando que não tenho necessidade de nada. Que o poder está todo concentrado em mim, na minha mente e no meu corpo. Esse não é mais um pequeno pensamento extraído do meu meio de atuação, mas uma convicção intimamente ligada à natureza do meu desafio: captar a realidade sem disfarces no crisol superaquecido do meu corpo, na cintilação insignificante e abstrata dos momentos mais puros, exigindo de mim, para tal, uma humildade tão grave diante de Deus, uma fidelidade tão completa ao meu ilimitado poder de distração, que o risco que devo correr para triunfar sem as trapaças da oposição se afirme o tempo todo numa grande revelação iluminadora e consciente de seu próprio valor. Moments of being... poder de decisão e criação dos pequenos milagres cotidianos (fósforos inopinadamente riscados no escuro mais severo, que não dizem nada a não ser eles mesmos ).
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