quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Grandón do pidgin Joss (23)

O cenário para aquela conversa era em si curioso ----- os tapetes verdes, os vasos prateados enormes, cortinas de seda vagamente lilazes decorando a famosa sala de estar de Liz Rogoff. No sofá, entre aquelas repetidas moças de Beverly Hills, Isaac Lal, miúdo, encolhido, na sua compleição escura que lhe dava um ar enferrujado, era como um ornamento ou um quadro oriental. Eu mesmo, escorado em Anna na poltrona ao lado, sentia essa influência como uma figura em cor indiana ----- o rosto de feições acobreadas, os cabelos platinados esvoaçantes rente`a porta da varanda, os círculos formados pelos óculos de fundo de garrafa e a fumaça do charuto envolvendo-lhe a cabeça. Eu fôra um dos que insistira em sua orientalidade, horas antes, e todos agora viam-lhe como oriental, apesar da velocidade que Lal vinha injetando na cadeia de suprimentos da moda americana das ruas. ------ Trata-se de uma estratégia de marketing para reter mitos e ritos mercadológicos instantâneos, como a blusa prateada que deixa os ombros de fora, da grife ****, que esgotou dois dias depois de chegar às lojas e foi reposta em menos de uma semana (.) ----, ele disse. No tocante à atual situação de seus negócios , via-se que sua satisfação pessoal era tão grande que contribuía para aumentar o magnetismo de sua presença entre nós. Como ele falara aquilo com um sorriso, também sorrimos, tentando acreditar que seus epítetos eram usados de forma inofensiva. Mas aquilo era uma expressão de capitalismo selvagem e neurastenia predatória; e se ele tivesse feito seu relato ganindo ou urrando, certamente nos atiraríamos no chão e nos contorceríamos aos seus pés. Por outro lado, eu e Anna sobressaíamos por nossa sofisticação, fascinando à todos por permanecermos a maior parte do tempo calados, esplendidamente calados, e solenes no nosso sentimento  de sermos um casal predestinado, sempre a postos para assumirmos uma posição de autoridade em qualquer conversa. ------ Produtos da moda rápida para varejistas com lojas físicas nos principais quarteirões de Nova York. O mundo geralmente tem girado depressa (eu disse) e acelerar a produção em sintonia com as mudanças súbitas no temperamento do consumo nunca foi fácil (.) -----, concluí. Mas aos olhos de Anna, eu comprometia meus valores de artista com aquela inesperada bajulação, segundo sua apreciação ''ideológica'', e me banalizava ao lado de alguém muito menos digno de merecer minha atenção que ela própria.Preconceitos... A dona da casa, Liz, reservara, por causa disso, uma mesa para nós na outra sacada do apartamento, e pediu para que nos juntássemos o quanto antes ao seu grupo. Também estendeu o convite à Lal, mas com uma pose tão vaga, que ele permaneceu imóvel no sofá, intimidado por aquela espécie de cortesia dissimulada da classe alta. Para mim, era uma ótima oportunidade de conhecer o famoso Clube Rogoff por dentro, e a mesa onde Winchell sentara-se no passado, rodeado das tentações sociais que a plutocracia da arte e da moda novaiorquina balançavam diante dele. Estabelecer contato com Liz Rogoff ( a falante!) fôra providencial para mim, ainda mais após compreender seu belo caráter depressivo e melancólico, cheio de atrativos surpreendentes, como só o tédio é capaz de cultivar. E embora eu talvez  tivesse caído sob o feitiço de sua aristocrática imponência, sentindo que ela se considerava o exemplar mais altivo de ser humano da América, tudo se passou de forma tão espontânea que em momento algum eu achei que deveria detestá-la tanto quanto Anna a detestava. Parecia-me uma mulher impressionante, vista de perto. Não encontrei em mim forças para produzir o mínimo sinal de antipatia, ao sentir que (talvez) fosse precisar dela para sempre ! Quando me ouvi dizer : ''Srta. Rogoff, poderia me dar um autógrafo (?) '', os olhos de Anna pareceram perguntar-me em que tipo de animal doméstico eu havia me transformado de repente. Ou que tipo de alucinação eu estava sofrendo. ------ Quando criança (Liz disse, inclinando-se para rabiscar meu pedaço de papel) odiava ser separada do meu pai, professor de francês e matemática; assim como de minha casa, e de meus ''amiguinhos''. Quando algum deles tinha que ser levado embora, costumava protagonizar chiliques homéricos. Alguns garotinhos sempre me faziam soluçar, desde a infância. Certas partidas constituíam para mim tamanho castigo que , às vezes, chegava a adoecer. Devia sentir a separação dos meus pequenos príncipes no âmago das minhas moléculas, tremendo nos seus bilhões de núcleos. Seria isso uma hipérbole (?) ------, indagou-me ela. Nenhuma, pensei, maravilhado, sentindo no meu próprio corpo todo o poder enregelante de uma mulher à quem os outros estavam sempre sorrindo, agradecendo, cortejando, bajulando, abraçando e odiando. Pois Anna a odiava silenciosamente naquele momento, em que o olho de nossa conversa entrara no campo de tão pequenas imagens, distribuídas ao acaso na vitrine dos meus olhos. No tempo da Srta. Rogoff tudo se dava simultaneamente, como no meu, numa metáfora elástica e contínua de palavras deslizando de figura em figura, até fixar completamente meus olhos no seu rosto. Seu comportamento era puro, poético, intenso e de ordem metafórica como o meu. A princípio, não compreendi que ela conhecia minhas obras a fundo; nem entendi que ela estava usando o poder de sua celebridade para espreitar minha presença em sua casa como uma elipse numa coluna social. ----- Obviamente, ele se gaba descaradamente, em suas obras, de haver ''descoberto'' no homem atual, uma NOVA FACULDADE, a faculdade para os juízos políticos sintéticos ''a priori''. Reflitamos: Como são possíveis tais juízos, hoje em dia (?) Vermoge eines Vermogens. Mas com tanta cerimônia, tão venerável e tortuoso, às vezes, que não se percebe facilmente a divertida ''niasserie'' de suas respostas à questão.  Grande é o entusiasmo do poeta K. E grande o ''en- thous- iásmos '' de suas respostas cerebrais nas redes córtico-talâmicas de alta frequência de suas leitoras. Aqui, rapidamente nos embrenhamos nas moitas de uma Realpolit(k) internacional, baseada em fatores pragmáticos e materiais, buscando a relação imediata entre as forças vigentes no mundo, em seus cenários concretos, em detrimento de qualquer jogo de influências ideológicas supérfluas. O corpus dessa obra é eletronicamente mais denso que a chuva tropical que adensa as florestas  com seus organismos. Muitas de suas exigências políticas, econômicas, militares e metafísicas são (com frequência) verdadeiros poemas inspirados na rude matéria secretada pelas misérias do mundo. Nem tentarei mais superar essa impressão de poesia universal para me concentrar nos aspectos puramente geopolíticos de sua mensagem. A arcaica gesticulação telúrica e seu jogo de vibrações numa rede de captura de sinais. Para quem sabe VER, tudo coexiste em K, simultaneamente temos acesso ao mundo de Gilgamesh, à inversão  de curso dos Bancos Centrais, ao biscuit do século dezoito, à coexistência de harpias e Coatlicues e piveteiros coríntios e esfinges e terracotas libertinas; e Tanit e Gudea e sereias hollywoodianas e o cellinesco e o felliniano e à zoomorphias pré-colombianas e aos pactos obscuros que atravessaram a formação dos conglomerados econômicos atuais, assim como aos gênios babilônicos e os ritos sacrificiais cananitas reabsorvidos na maçonaria psíquica e na política fisiológica e publicitária de poderes e empresas defrontados sob a luz  de Ishtar. Mas essa (obviamente) não é uma listagem de referências qualquer, Ele luta, é visível. E muitas vezes, luta silenciosamente, como que a partir de um mistério da consciência.  Luta não sem uma terrível astúcia de pensamento , e depois com a astúcia mais profunda ainda, que consiste em mostrar, sem disfarces, os mecanismos seminais de seu verbo. 

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