Ao chegar à varanda do apartamento de Liz, na manhã seguinte, puxei uma cadeira para sentar-me fora da luz, já prevendo algumas dificuldades. As associações subjetivas, no entanto, só existiam para serem ultrapassadas no caminho para uma realidade superior. Naquela hora, eu ainda me encontrava na atitude noturna, da noite passada, que as atitudes mais agradáveis de Dorothy tinham, por sua vez, exigido de mim. Mas agora tratava-se de fugir do relógio, estabelecendo distâncias variáveis entre o meu corpo e as cadeias associativas dos meus estados de alma. Uma surda batalha de substituições instantâneas em que alguma paciência era necessária. Sentia-me um pouco preocupado, pois estava extremamente sensível a todo tipo de sinais. Pensava que não poderia existir nada tão grande e tão pequeno nas pessoas, nada mais audacioso, cruelmente criativo e rancoroso, quanto as manobras da vingança. Qualquer outra mulher estaria com a tez febril, afogueada, mas Liz estava de uma brancura de cera. Sua voz, que em suas entonações parecia querer imitar a de Sophia Loren, não continha o menor traço de divertimento. Suas sobrancelhas castanhas, pintadas como asas, erguiam-se sem parar. Por vezes, parecia querer dar a impressão de quem pede auxílio, mas também era visível que isso não lhe era nada fácil, pois percebia-se o quanto estava zangada. Na verdade, o que ela queria ouvir uma vez mais, como reverso, como ''conselho'' da boca de outro, era antes sua própria opinião, já previamente tomada. Mesmo o franzir de suas sobrancelhas parecia custar-lhe um sério esforço de concentração. Alguma coisa realmente descomunal estava se passando em seu espírito. Estava vestida com uma blusa decotada de seda e uma minissaia, com uma faixa verde cobrindo a parte de cima de suas coxas. O cabelo curto penteado de lado, a pele repleta de atrativos sexuais ; e do lóbulo de suas orelhas pendiam duas grandes argolas de prata. Era uma mulher adulta vestida jovialmente, eroticamente brincando de adolescente, embora ninguém pudesse tomá-la por uma adolescente. Sentado perto dela eu não sentia, porém, seu habitual perfume arábico, e sim os eflúvios muito atrativos de uma mulher madura, o cheiro de lágrimas adocicadas provenientes do mais íntimo das mulheres. Cada palavra dela calava fundo em mim : ------ Lembra o que Burton dizia em Anatomia da Melancolia (?) Que todos nós temos predisposição para a melancolia, mas só alguns adquirem o hábito dela. E a gente adquire o hábito da melancolia ao sentir-se perdido. Sexo e estilo em demasia também provocam isso. Até mesmo seu cabelo hoje está sugerindo algum tipo de perversão, K (.) Por outro lado, sua natureza destrutiva te torna também jovial e alegre. Destruir, desfazer, dissolver e destituir; tudo isso remove os vestígios de nossa própria idade. Destruir cria ''espaços'', e esvazia a pessoa de sentimentos pesados. O caráter destrutivo está sempre pronto a trabalhar, é a própria natureza que lhe prescreve o ritmo (.) ------, ela disse. Mas aquilo não envolvia, curiosamente, nenhum preconceito de sua parte. Ela não sentia nenhum preconceito com relação à perversão, ou a assuntos relacionados com sexo. Devia considerar demasiado tarde em sua vida para sentir-se impressionada por tais coisas. Ela sabia que forças muito superiores ao do homem comum estavam atuando em mim, e que a qualquer momento elas podiam entrar em ação. ------- Pense só nas tragédias (eu disse) O que suscita a melancolia, a fúria, a carnificina (?) Otelo, perdido. Hamlet, perdido. Lear, perdido. Diria até que Macbeth perdera-se, ainda que por si mesmo, o que é um pouco diferente. A perdição está no coração da história. Pense na Bíblia (!) A narrativa básica é a traição e a perdição. Judas, traído. José, traído. Moisés, traído. Jó, traído. Davi, traído. Urias, traído. Jó foi traído por ninguém menos do que Deus (!) E não nos esqueçamos da traição ao próprio Deus (.) Deus, traído a todo instante, por cada um de nós (.) ------, eu disse. O golpe que eu acertara com meus medalhões históricos na raiz de nossa conversa, modificara a maneira elementar com que os nervos de Liz vinham atuando . Ela ainda continuava furiosa, ou amargurada, por minha causa. Mas agora, confrontando toda sua superfeminilidade, sua sensualidade ligeiramente abatida, eu via tudo numa claridade aumentada. A linguagem muda das coisas, variável e enganadora, era dirigida exclusivamente pela minha inteligência. Aos signos do fogo que pareciam anunciar a vitória de Clitemnestra , minha linguagem mentirosa e fragmentária, boa para as mulheres, Liz tentava, em vão, opôr uma outra, de medida justa e verdadeira. ------ Do mesmo modo que uma referência trigonométrica está exposta ao vento por todos os lados (ela disse) você expõe-se de todos os lados ao palavreado. Não vê sentido nenhum em tentar proteger-se disso. Nem sequer faz questão de ser compreendido. A incompreensão dos outros nunca lhe afetou de fato. Muito pelo contrário, frequentemente você a provoca por puro divertimento, tal como um oráculo (.) -----, ela disse. Era assim mesmo que eu (também) enxergava as coisas. Vê-la se debatendo com as arestas daquela verdade era uma coisa deliciosa. Não havia dúvida, dava-me um prazer imenso ! Mas na minha linguagem, ao contrário, só havia verdade naquilo que era feito para enganar e desviar. Só existia, para mim, verdades traídas; entregues pelo inimigo ou reveladas em pedaços. ------ Você converte em ruínas todas as impressões que os outros têm de você; não pela impressão, mas pelo caminho que as atravessa, em chamas. Eu tenho medo de você por causa das lutas internas que pode desencadear nos outros. E pela sua capacidade de revelar coisas escondidas no ar. E de uma forma rigorosamente épica e rapsódica. Muitas vezes, num mínimo de espaço, você revela tantos buracos e esconderijos da psique, que é como se certos conhecimentos vivessem numa casa de sete divisões em estilo Makart (.) -----, ela disse. Mudando cortesmente de assunto, Liz arranjara, de repente, uma novo rosto para exibir sua maravilhosa aterrissagem. O sol, pela janela, fazia sobressair toda a cortesia do mundo, refletindo-se nos seus olhos. Uma claridade como aquela, tão vívida, de um momento para o outro me deixou perturbado. A macia brancura da face de Liz, o esforço visível que ela agora fazia, e que era demonstrada pelas suas sobrancelhas, proporcionava-me um sentido apurado do extremo, cômico, particular e surpreendente da situação. Aquilo permitiu-me tomar as rédeas da negociação imediatamente, e, por fim , também as dos seus interesses. Olhei para ela e pensei : ''A cortesia, no seu papel de musa do meio-termo '' (.)
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K.M.
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