------ Ninguém
pode dizer onde tudo isso vai parar. O primeiro sintoma de que uma pessoa se
tornou um vidente não é uma vaga sensação premonitória, mas um estado de
atenção refinado, que o eleva às alturas de domínio do mundo, onde as cenas que
se sucedem parecem já ter acontecido inúmeras vezes (.) -----, eu disse à Anna.
Falava inspirado pela força da arte divinatória. Falava para o mundo, voando de
cume em cume, produzindo uma linguagem universal de pigmentos carregados. ------
Surgem imagens e série de imagens, cenas e situações que começam por suscitar um
vivo interesse no vidente (e às vezes prazer) pelo fato de estarem acontecendo
em tempo real. Quando finalmente grudam na retina, é inevitável sentir sono,
pois não é possível dirigi-las identificando-se com elas (continuei) Nos
momentos mais inspirados o espaço em volta parece dilatar-se, o teto inclina-se
e surgem todo tipo de sensações atmosféricas e cósmicas: as paredes de névoa, a
opacidade, a diluição do pensamento, a pesadez do ar, a levitação, indicam que
seus meios cognitivos se concentraram num fantasma que, passando da sensação à
imagem, despiu-se de seus elementos sensíveis e alcançou a ‘’denudatio perfecta’’
. As cores tornam-se luminosas, psíquicas, e a mente passa a oscilar entre
estados oníricos e realistas, num vaivém constante que só pode ser dirigido
pela audição oculta do silêncio. É no meio de certas frases que tudo isso ganha
forma. O pensamento realmente perde toda sua forma de palavra e, muitas vezes,
torna-se hilariante. O Êxtase é algo muito nítido (.) ------, concluí. Embora
nossas roupas cinzentas fossem mais escuras que carvão, mais vermelhas que a
doença, naquele pôr-do sol, e que nossos blocos de anotações parecessem duplamente
mortos em nossas bagagens, depois de tantas horas de vôo, o carro que nos
apanhou no Aeroporto Kennedy era um Sedan perfeitamente prateado. Pedi a
direção ao motorista, e Anna sentou ao meu lado, no carona. ------ Gosto de
dirigir -----, eu disse, lembrando à ela que há um dia , em Moscou, eu fôra obrigado
à consultar um painel de controle só para sair do pátio rente ao Kremlin.
Destino: Aeroporto Cheremetievo, a 40 km do centro . Agora, as auto-estradas
novaiorquinas cumprimentavam-me como se eu fosse um glorioso astronauta, e
Anna, uma modelo tentando a ‘’Kariera’’ de atriz em Hollywood, com dentes
úmidos e brilhantes, num êxtase desesperador. Kariera e Extass. Palavras russas
no meio da barulhenta epopéia imperial na qual flamejavam nossas cabeças
fulminadas por raios , decididas a trabalharem juntas. ------ Pretende
realmente estabelecer nossa atividade como um ‘’negócio’’ tão gigantesco (?)
-----, ela me perguntou. Uma pesada mala de tecido grosso estava suspensa por
cordéis no punho de Anna , e ela me dirigia uma careta cínica. Ali dentro,
estavam as provas do meu novo manuscrito. ----- Sinto circular nessas páginas
um frissom de infinito (ela disse) Um dispositivo teológico capaz de
transformar qualquer nu artístico num protoplasto metafísico. Ideal tempestuoso
brilhando em lábios queimados, aproximando as artérias da alma universal de uma
pura funcionalidade biológica. Rever o Cinturão dos Jardins, em Moscou, me fez
pensar no degelo stalinista e de como os tempos de revolução são desprovidos de
esplendor literário. Isso transforma você (automaticamente) numa exceção de
fazer inveja a muitos. Pois esses são tempos revolucionários, em certo sentido.
Ainda assim, um incompreendido. Seu Sedan prateado como metáfora de uma
torneira mágica: cabendo-lhe todo o poder de abri-la e fechá-la sem prestação
de contas. Gozando de uma reputação colossal em vida, ainda assim, uma má
reputação. Fora do alcance de toda miserável e aflita rivalidade, ao lado de
sua formosa máquina prateada de fazer cifras com analogias. Bibliófilo e erudito
escrupuloso, preciso como um rochedo ligado ao silêncio da noite, suas palavras
colocam no papel questões tão graves que um século inteiro não será demais para
tentar respondê-las (.) -----, ela disse. A luz n interior do Sedan, como os
estofados cinzentos, acentuava o rosto de Anna. Os olhos claros nas suas
imensas órbitas pareciam querer me oferecer um divertimento cortês, enquanto eu
dirigia. Considerando o quão profundamente eu estava absorvido em minhas
próprias ‘’questões’’, como ela as chamava, não havia como deixar de considerar
a generosidade e a dificuldade que representava para ela conseguir exibir um
sorriso para mim. Por outro lado, ela representava para mim a guardiã tenaz da
nudez paradisíaca que eu adorava fotografar. ------ É muito comum (eu disse)
que alguns de nossos sonhos de consumo permitam-nos entrever a ‘’possibilidade
perfeita’’ em qualquer situação, sempre furtada no último instante. Respostas
embaralhadas são as únicas caprichosas o bastante para cumular nosso desejo
exasperado com a matéria em ebulição (.) -----, concluí. O carro, agora, corria
na West Side Highway, acompanhando o Rio Hudson. Ali estava a água ----- como
era linda (!) , mas também insidiosa. A luz da ponte espalhava-se sobre a água
suavemente, brilhante e agradável.
K.M.
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