quinta-feira, 6 de outubro de 2016
Grandón do pidgin Joss (17)
----- O homem tem uma natureza moral, Anna (eu disse) E certas anomalias só podem ser resolvidas pela loucura, por delírios nos quais as ilusões da consciência são mantidas de forma sistemática, em estados de insanidade semelhantes às formas modernas da administração de empresas, fazendo disso um ''trabalho governamental''. Nesse mesmo mundo, o estilo de decoração de nossos apartamentos tem de ser obrigatoriamente pequeno-burguês, para fazer jus ao estado de nossas consciências morais: quadros nas paredes, almofadas nos sofás, cobertas sobre as almofadas, bibelôs nos aparadores e vidros coloridos nas janelas (.) -----, eu disse. ''Meu Deus (eu pensava) E ainda tenho que ficar enchendo essa desmiolada Anna com os altos ideais de minhas profecias críticas. Ou ela ou eu havia se tornado delicado, ou melhor, etéreo demais para a vida terrena. Certo: era eu quem havia me tornado absorto demais em assuntos universais, dos quais ela passava a maior parte do tempo excluída, tentando me imitar. Assim, por mera histrionice, seus pensamentos se tornavam para mim campos de batalha pelos quais passavam um ataque sempre vitorioso contra o que havia de mais etéreo em mim . Uma miscelânea constritadora, sem me deixar margem de escolha, a não ser aceitar sua dominação. Ela desejava implicar-me na carne obcecada de suas manobras psicológicas e trazer-me de volta para manter-me nesse mundo ao seu lado. Que mundo ! que mulher ! O enaltecimento que eu extraía de uma tal situação servia, além de tudo, para colocá-la nas alturas pelas quais ela tanto ansiava. De tudo isso, resultavam feitos de cultura inacreditáveis, saídos da melancolia em que a situação me mergulhava. A biliosidade de nossa relação transformava minha ''zona de conforto'' intelectual num processo radical de luxúria e ''kultúrni''. ----- Kulturnáia, palavra mais apropriada para o termo russo '' kultúrni''. Expressão de uma realidade mais alta reclamando de nosso ''byt'' seus direitos de forma tão absoluta e intensa em cada situação concreta, que eu facilmente compreendia o fatalismo da alma russa, de Pushkin à Soljenitsin, passando por Dostoiévski , Tólstoi e Tchekov. A Rússia , até hoje, só produzira escritores fatalistas. Os maiores de todos os tempos. Nem na capital da Rússia era possível encontrar uma forma de sensibilidade mínima ao valor do tempo, apesar de toda a racionalização histórica da política e do militarismo. Poderia dizer inclusive que os minutos, para os russos, são uma overdose que nunca os satisfaz, que eles ''se embriagam com o tempo '', como dia o poeta Charles Baudelaire (.) ------, eu disse. Naquele momento, Anna poderia cair de joelhos e rezar pela minha atenção, que eu não daria o braço a torcer. O roubo do meu meu tempo, para mim, era sempre um roubo real e insuportável. É certo que mesmo um homem dominado, tornando-se criativo, pode enfrentar qualquer obstáculo de dominação, mas no fundo de mim mesmo havia um campo liso, um plano de deslizamento onde muitos caçadores, com intenções contraditórias, estavam disputando meu tempo como quem disputa a última coca-cola do deserto. Diante de Anna e seus contorcionismos, de suas manobras, eu era uma força da natureza incontrolável sendo submetida à um teste de aptidão ao casamento à maneira americana, pragmática e não didática. Ela incorporara o espírito protestante dos americanos em sua cabeça. Para ela, os altos vôos do meu pensamento, muitas vezes, precisavam ser punidos em nome de um ''bem maior'' ----- totalmente cristão e casamenteiro ----, tão grande era o mal da vontade americanófila de ''ajudar'' e tão enervante seu espírito liberal de ''explicar as coisas''. A psicopatologia do ensino nos Estados Unidos estava presente nas neuroses de todos os cidadãos americanos, não só nos nascidos na América, do berçário até o túmulo. Todos os imigrantes ficavam assim com o tempo, e a intransigência de Anna não tinha nada de polonesa naquele momento. Ela arriscaria tudo para seguir tendo razão sempre, transformando muitos significados provisórios, dentro de nossas conversas, em monumentos decisivos erguidos em favor de sua força biológica e de suas obsessões sexuais de dominação. ------ Mesmo sabendo que só me olha de cima para baixo, não posso negar que você representa para mim uma experiência incomparável para o sentido do tato (.) -----, eu disse, colocando meu manuscrito no bolso. Anna observava-me em silêncio, sorrindo ironicamente, enquanto segurava os punhos com as mãos, os antebraços cruzados por cima do peito, para evitar que o roupão se abrisse. Apesar do laço na cintura, era possível ver-lhe a curvatura dos seios, e as veias salientes à sua volta. Nos cantos de sua boca, agora que se cumprira mais uma de suas malandragens, aparecia uma sádica expressão de saciedade. A parte de trás de seu pescoço era forte, e abaixo dele aparecia uma madura elevação dorsal. Uma mulher adulta, com pernas e braços muito bem proporcionados.
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