Dorothy ria. ----- E do que é feito um espectro, K (?) ----, perguntou-me ela. Naquele momento, ela também me parecia dedicada à idéias de conduta existencial já completamente desacreditadas pela sociedade. A única diferença era que ela tinha dinheiro, e seus desvios eram conhecidos, e eu não só era pobre, como meus padrões comportamentais estavam perdidos num passado remoto da humanidade. ----- Um espectro é basicamente constituído de signos, ou se preferir, de ''assinaturas'' ; cifras ou monogramas arranhados pelo tempo sobre as coisas. E também por ''hecceidades''. Para um espectro, o decisivo não é a passagem de conhecimento à conhecimento, mas o salto dentro do conhecimento com o próprio corpo, como se tratasse de um todo. Esse é o signo de autenticidade de um espectro, que o distingue radicalmente de todos os seres humanos de série fabricados por um molde social. Todo espectro contém, necessariamente, um grãozinho de contra-senso, como no padrão das tapeçarias antigas, nas quais se descobria sempre um pequeno desvio fatal em relação ao seu desenvolvimento regular. (.) -----, eu disse. Não fôra meu comportamento inicial em relação à ela que mudara, mas a forma com que eu manipulava as palavras dentro de sua mente. Formas e signos que pareciam estar ausentes de nossa interação, antes de sairmos para passear no World Financial Center, onde ela pretendia me explicar o processo de recuperação do Lower Manhattan e os moldes de arquitetura urbana de Cesar Pelli e Associados. Ali havia quatro imponentes torres de escritórios alojando algumas das maiores empresas financeiras do mundo. ----- O Winter Garden é todo de aço e vidro (ela disse) Mais de dois mil painéis tiveram que ser repostos após o 11 de setembro (.) ------, concluiu. Não a honra de sua companhia em si, mas a palavra ''honra '' roçando meus lábios à todo momento; não os impulsos virtuosos da deriva urbana informativa, , mas os termos representativos, interjeições e onomatopéias, transformadas em sua voz no maior dos acontecimentos urbanos de Nova York; não, ainda, a compaixão, mas o que era a expressão da compaixão ?? Exprimir compaixão diante de um desastre parecia de uma premência mortal para ela, naquele momento; exprimir o som sufocado da esperança e do desejo de milhares de vítimas ceifadas como moscas. Mas tais coisas, há muito, haviam sido suprimidas como ilícitas dentro de mim. Qualquer identificação com o mundo me parecia um atoleiro de falsificações. Às vezes, no máximo, transpareciam como cifras ou vagas figuras rabiscadas em vidraças de edifícios destinados à demolição; mas naquele momento, sobrava em mim somente uma terrível mudez a respeito. Até que eu disse: ------ Agora, os arquitetos criaram algo novo (?) Não creio, apesar das 45 lojas e restaurantes que dão para a praça e a marina à beira do Hudson, há quase cem anos alguém chamado Paul Scheerbart já dissera que ''era possível falar de uma cultura do vidro'', e que ''o novo ambiente de vidro transformaria radicalmente as pessoas ''; e ainda que ''Esperava que a nova cultura do vidro não encontrasse opositores''. Bem, aqui estamos nós; particularmente, estou adorando (.) -----, eu disse, descendo com ela a escadaria de mármore que levava ao Winter Garden. Ali, palmeiras de 20 metros do deserto de Mojave criavam uma versão moderna das palm court antigas (.) ------ É mais um lugar de lazer para a maioria das pessoas. Até os críticos de arquitetura mais severos gostam disso aqui. A abóbada de vidro tem quase 40 metros de altura ; e a escada em forma de ampulheta acomoda platéias durante concertos no jardim lá embaixo (.) -----, ela disse. Mas sobre as coisas mais essenciais do nosso passeio, quase nada podia ser dito. Ainda assim, eu sabia como fazer os sinais necessários para ativar outro tipo de comunicação, bem mais sutil e eficiente. O suficiente para que, enquanto eu olhava as folhas das palmeiras e seus mínimos movimentos, Dorothy subitamente se apoderasse daquela linguagem em mim, de tal modo que esta consumou num instante, para mim, o enlace com ela. O tom de Dorothy estava agora cheio de matizes não-identificáveis, tão espectrais como os meus, e um certo mal estar , ou estranhamento, quase interferiu com sua respiração. Muito lentamente foi que ela voltou a se concentrar, consciente de certa ansiedade impressa em seu rosto. Eu permanecia silencioso, manipulando a atenção dos seus olhos como se se tratasse de manobrar um transatlântico entre geleiras. Em meio às palmeiras mojave ela era conspicuamente branca,como sua tia. A primavera daquela tia ! Na cabeça, estava usando um lenço esverdeado, tão exuberante quanto o verde que admirávamos nas palmeiras. Pela inclinação do seus ombros e a expressão nos seus lábios vermelhos, parecia-me apaixonada, mas disposta a aceitar qualquer interrupção do seu desejo. Eu me perguntava, então, se devia segurar sua cabeça com as mãos ou roçar discretamente meu braço nos seus seios. Aquele tipo de jogo humano (eu pensava ) sempre se dava a conhecer pelo modo como a centelha da paixão, no plano do corpo, saltava de um centro para o outro, mobilizando ora este, ora aquele órgão, concentrando e circunscrevendo nele toda a existência. ----- Formidável. Interessante. Impressionante (.) ----- , eu disse. Dinheiro, posição, vantagens... eu realmente não tinha projetos de vida nem ilusões, era um espectro. Vivia apenas de tempestades cerebrais, dentro de um esquema que não deixava de ser sedutor para mim. Mas me apaixonar (?), eu me perguntava ceticamente. Porque tudo que era emocional no mundo tinha que ser tão superabundante, comprometendo tanto nossos poderes psíquicos (?) No meu caso era diferente: quando encontrava meu alvo, eu me limitava a disparar. E mesmo sendo incapaz de emocionar-me, penso que seria um pecado não fazê-lo.
K.M.
Nenhum comentário:
Postar um comentário