segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Precariado comoditizado e modernidade digital.

O que leva tantas análises a não verem sempre senão uma face do ''fenômeno '' (?) Paradoxalmente, as ''difamações sexuais '' no formato ''última moda'' na arena política prendem-se mais ao imediatismo superficial do que à manutenção da ira popular no centro das atenções. Isso não deixa de incomodar a Dinastia Clinton, mas poderia incomodar muito mais, colocando no  centro das atenções a questão da desigualdade e da desindustrialização, podendo vir até mesmo a anunciar o fim de uma farsa que já dura oito anos. O imediatismo e o formato sexual tornam os discursos infantis e entediantes, martelantes e repetitivos. O tarado que promete empregos versus a Madre Teresa de Calcutá da corrupção. Estranho que alguém encontre nisso algum interesse político sério, retro-alimentado pelos constantes bate-bocas virtuais entre os dois candidatos. No duelo eleitoral, Hillary Clinton representa aclasse média diplomada das metrópoles, dispensando de sua visão de progresso as preocupações igualitárias. A América periférica continua afastada das transbordantes fortunas que financiaram sua campanha e redigiram sua plataforma, observando o rápido desaparecimento dos últimos empregos que restam na indústria. Mesmo quando não apreendido no jogo de distração da campanha democrata, o fato é que Hillary conta com o voto das vítimas da política econômica e comercial do Governo  Obama. Parecem nem ao menos hesitarem ao servirem-se deles mais uma vez como bucha de canhão eleitoral. Mas o nível de conhecimento dos diversos posicionamentos políticos do eleitorado vem aumentando na mesma proporção em que o caos se instala no sistema de ensino americano, na saúde e na segurança pública. Já não é mais possível traçar uma linha rígida entre o que é informação relevante e entretenimento eleitoral: o discurso da ''preocupação estrutural'' com a América e os americanos encontra hoje pouca ressonância no grupo social que mais se identifica com o Establishment Democrata, associado à diversidade demográfica e à modernidade digital. Mas é justamente nesse ponto que o Estado-Espetáculo, o Estado-Propaganda do Partido Democrata assume uma forma antinômica, de ostensiva pragmática neoliberal e reestruturação produtiva globalizante , ambas regidas pelo Império das Altas Finanças. E é bom lembrar que disso resultou diretamente a expansão (em escala inédita)  do capital fictício e uma complexa e revoltante misturado capital produtivo com o bancário, cirando um Leviatã transnacional completamente fora de controle. Na base da pirâmide, o mercado de trabalho americano restou devastado (nunca é demais repetir) . O que os Democratas chamam hoje de ''modernidade digital'' não passa, na verdade, da ampliação vertiginosa de novas modalidades de super-exploração do trabalho, ''desigualmente'' impostas e ''globalmente'' combinadas e distribuídas. Foi assim que se instalou definitivamente nos Estados Unidos o ''estatuto empresarial'' no mundo do trabalho, hoje exportado para o mundo inteiro: ''Sociedade do Conhecimento '' ; Capital Humano; Trabalho em Equipe; Células de Produção; Salários Flexíveis; Envolvimento Participativo; Trabalho Polivalente (risos); Colaboradores. Economia Digital; Trabalho On-Line, etc ----- tudo isso impulsionado por medidores de ''metas'' e ''competência'', o novo taylorismo digital que corroeu completamente a renda das famílias com uma informalidade crescente. Precarização, terceirização e a mais ampla flexibilidade para implodir de vez com as jornadas de trabalho, as férias e os salários dos ''empregados''. Saudade do tempo em que se sabia dizer com certeza se você estava contratado ainda ou se tinha sido desligado. Sub-empregos, Desemprego Estrutural, Assédios Sexuais, Acidentes com morte e suicídios nos serviços comoditizados. Transformação definitiva do proletariado em precariado de call centers, telemarketing, hipermercados, hotéis, restaurantes, fast-foods, shoopings, enfim, todos esses templos da alta rotatividade pós-moderna, da ''modernidade digital'' (risos) onde vicejam a baixa remuneração e a corrosão dos direitos trabalhistas.

K.M.

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