K.M.
domingo, 11 de dezembro de 2016
Uma comédia com um bom jogo de cena
Por não ser antinômica com um funcionamento estável das instituições democráticas, a nova regulação do sentido , no mundo liberal, nem por isso deixa de colocar uma questão espinhosa quanto ao ideal democrático da autonomia subjetiva na esfera das opiniões políticas. Como falar de liberdade individual ali onde a vida da consciência vibra no ritmo da moda e da moral de ocasião liberal. Se as idéias políticas do Ocidente oscilam ao sabor de ''amores de verão ' flutuantes, se adotamos e abandonamos, com a mesma facilidade, um monte de correntes em voga, como fica a finalidade democrático-individualista por excelência, que é a autodeterminação pessoal na ordem das idéias ?? Décadas após sua publicação, os ''Comentários '' à Sociedade do Espetáculo, de Guy Debor, puderam registrar em todos os âmbitos a exatidão de seus diagnósticos e previsões ; o curso dos acontecimentos se acelerou tão uniformemente na mesma direção, que se diria que a política mundial não é, hoje, nada mais do que uma apressada e paródica encenação do roteiro que ela trazia. A unificação substancial do Espetáculo Concentrado (as democracias populares do leste) e de Espetáculo Difundido (as democracias ocidentais) no Espetáculo Integrado, que constitui a tese central dos Comentários de Debord, é hoje uma realidade banal. Questão essencial : homens famosos que precisam de sua fama, digamos: todos os políticos do mundo, escolhem seus aliados e amigos com segundas intenções ; do amigo eles querem tirar um pedaço do brilho e do reflexo de suas virtudes, e do aliado querem o temor instilado por certas características preocupantes que todos reconhecem nele. Isso, no entanto, enobrece o fato de estarem todos à espreita, desenterrando coisas às pressas para simular diante das câmeras de televisão camadas sucessivas de legitimação pública. Ora precisam do fantasista, ora do homem de letras, ora do erudito eurasiano, ora do esoterista pacificador, ora do pedante fatalista, ora da Bíblia. A fama dos políticos está sempre mudando, pois seus meios mutantes exigem essas mudanças e os empurram ora essa, ora aquela característica real ou inventada para frente e para fora, pra cima do palco ; amigos e aliados fazem parte da cenografia. Aquilo que realmente ''querem'' deve permanecer de pé a qualquer custo, sempre mais firme e mais forte, com seu brilho metálico alcançando uma longa distância ---- e isso, obviamente, pede, o mais das vezes, uma comédia com um bom jogo de cena. Uma formulação típica disto encontrava-se já em Tocqueville. Ainda que não haja ''teoria da moda'' nem ''sociedade do espetáculo'' em De la Démocratie en Amérique , a análise tocquevilliana da origem das crenças nas nações democráticas ilustra exatamente o reino crescente das influências novas sobre as inteligências particulares. O pessimismo nuançado por Tocqueville sobre o destino das democracias é conhecido: à medida que progride a igualdade de condições, o jogo dos hábitos e os preconceitos de grupo regridem em favor da independência de espírito e do esforço individual da razão. Mas, enquanto os indivíduos são remetidos incessantemente para seu próprio entendimento, uma tendência contrária se desenvolve, conduzindo-os a fiar-se na opinião de massa. Por um lado, mais esforço para procurar em si mesmo a verdade ; por outro, mais inclinação para seguir cegamente os juízos da maioria. Nas democracias, a ação da opinião comum sobre os átomos privados tem um poder novo e incomparável, exercido como Moda, não por coerção mas por pressão invisível do número, cujo círculo se fechou completamente com o advento das redes sociais. No limite, os tempos atuais conduzem ao ''poder absoluto da maioria burra'' ; ''a não mais pensar'' , à negação da liberdade intelectual ''. Como não levar a sério hoje aquelas velhas inquietações de Tocqueville em vista do impacto da mídia na multiplicação do espectro liberal na política ?? É conhecida a brincadeira do jornalista austríaco Karl Krauss que , na Terceira Noite de Valpurga, justifica seu silêncio diante do fenômeno nazista: '' Sobre Hitler não me vem em mente nada ''. Certamente em Guy Debord, assim com em Krauss, a língua se apresenta como imagem e lugar da justiça. Mas o discurso de Debord só começa ali onde qualquer possibilidade de sátira torna-se muda. Eu, particularmente, me dedico à ela com tanto gosto quanto outros se dedicam à guerra e à política. Acredito profundamente que, como indivíduo nobre, menos submetido às leis mortais do momento que os outros, posso praticá-la como um ''luxo dos sentidos''. Só assim , penso, é possível refinar a linguagem política novamente, transformando-a na espada do homem nobre. É até possível que muitos a considerem vulgar, a ponto de rotulá-la de ''literatura folhetinesca'' e ''prostituição do espírito'' . Em todo caso, o racismo culto já não tem mais a virulência de outrora, hoje ele está mais contido, menos agressivo. Ninguém gosta de estrangeiros na Europa, mas todos preferem a alteridade e a subnormalidade estética do que a Solução Final. Uma comédia com um bom jogo de cena. Nada mais.
K.M.
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