Pode-se verificar a influência do pensamento de Hegel em Heidegger, tendo em vista a dialética do ser, que sai de si e retorna, em síntese, a si e para si. O tempo inautêntico visa à preocupação com o êxito, sucesso, enquanto o futuro, como viver para a morte, sendo tempo autêntico é desprovido de mundaneidade. O passado autêntico, por sua vez, é a não aceitação passiva da tradição, confiar nas possibilidades oferecidas e reviver a possibilidade do homem que já existiu. O presente, por último, é o instante que, quando autêntico, o homem decide seu destino e repudia a vida inautêntica – absorção pelas coisas a fazer.
Para Heidegger, isso tudo tem as consequências de compreender a significação de tempo usada no pensamento comum e científico, como databilidade e medição temporal científica, é tempo inautêntico, voltado à mundaneidade; a existência angustiada, quando autêntica, faz com que o homem viva os fatos mundanos de seu tempo, mas com consciência de afastamento; a historicidade do dasein resulta na historiografia. (REALE; ANTISERI, 1990b).
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Para Heidegger, a linguagem do ente não é capaz de revelar o sentido do ser, isso deve ser iniciativa do próprio ser. O desvelamento ocorre, então por meio da linguagem, mas não a científica ou a do palavratório, porém na linguagem autêntica poética, que seria a casa do ser. A poesia é a língua originária e a palavra tinha caráter sagrado. As coisas foram nomeadas pela palavra, responsável pela fundação do ser. A fundação do ser não seria obra do homem, mas dom do ser, pois não é o poeta quem fala, mas o ser na linguagem. Dessa forma, o homem não deve ser o senhor do ente, mas sim o pastor do ser; ele não pode desvelar o sentido do ser, é chamado para atuar como guarda da verdade que pertence ao próprio ser. O silêncio para ouvir o ser, o abandono ao ser seria a única atitude correta. O homem, em função disso, deve se colocar livre para com a verdade, sem agir como seu senhor, mas ser seu guardião, pois ela é o desvelamento do ser. Liberdade e verdade coincidem, portanto. (REALE; ANTISERI, 1990b).
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Afirma Martin Heidegger a respeito da liberdade, em sua obra intitulada
“Sobre a Essência da Verdade”, que a
[...] essência da verdade é a liberdade.
[...] A liberdade foi primeiramente determinada como liberdade daquilo que é manifesto no seio do aberto. Como deverá ser pensada esta essência da liberdade? O manifesto ao qual se conforma a enunciação apresentativa, enquanto lhe é conforme, é o ente assim como se manifesta para e por um comportamento aberto. A liberdade em face do que se revela no seio do aberto deixa que cada ente seja o ente que é. A liberdade se revela então como o que deixa-ser o ente.
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A liberdade relaciona-se com a autonomia, no que concerne ao desvelamento de sentido do ser chamado por Heidegger como verdade. Ser livre é desprender-se de tudo o que impede uma vida autêntica, não optando pela efetivação das possibilidades que levam à banalização existencial. Igualmente, o homem, como dasein, apresenta-se livre, quando escolhe parar de sobrepujar o sentido do ser, as suas decisões que fortalecem o jugo do medo. A liberdade ocorre pela atitude humana de abrir mão dos empecilhos existenciais quanto a sua relação com o ser e passa a “ouvi-lo” para compreender seu sentido.
No sentido positivo, a liberdade é a decisão de agir conforme a consciência
de que o homem é ser-para-a-morte, de modo a direcionar suas forças para
efetivação de possibilidades autênticas.
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A seguir, apresenta-se texto de Heidegger (2007), escrito em “Ser e Tempo”,
o qual se tornou muito conhecido sobre o círculo hermenêutico.
No projetar-se do compreender, o ente se abre em sua possibilidade. O caráter de possibilidade sempre corresponde ao modo de ser de um ente compreendido. O ente intramundano em geral é projetado para o mundo, ou seja, para um todo de significância em cujas remissões referenciais a ocupação se consolida previamente como ser-no-mundo. Se junto com o ser da presença o ente intramundano também se descobre, isto é, chega a uma compreensão, dizemos que ele tem sentido. Rigorosamente, porém, o que é compreendido não é o sentido, mas o ente e o ser. Sentido é aquilo em que se sustenta a compreensibilidade de alguma coisa. Chamamos de sentido aquilo que pode articular-se na abertura compreensiva.
A LIBERDADE NO PENSAMENTO DE HEIDEGGER E GADAMER
Gualter de Souza Andrade Júnior.
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