domingo, 25 de dezembro de 2016

Fenômeno que um dia levou o nome de Dioniso.

Descobrir nos gregos ''belas almas '', ''áureas frivolidades''  e outras perfeições culturais , admirar neles, por exemplo , a calma  na grandeza , a maneira ideal de ser , a elevada simplicidade ----- dessa ''elevada simplicidade'' , uma ''niaiserie allemande'' afinal  , fui protegido pelo psicólogo que levava em mim . Eu vi seu instante forte, a vontade de poder , eu os vi estremecer diante da violência indômita desse impulso ----- vi todas as suas instituições brotarem de medidas de proteção para se salvaguardarem mutuamente de seus ''explosivos'' interiores. A formidável tensão se descarregava então numa terrível e brutal hostilidade contra o exterior : as cidades se despedaçavam entre si para que os cidadãos de cada uma delas tivessem paz consigo mesmos. Ser forte era um necessidade, não uma vaidade circunstancial : o perigo estava sempre próximo , espreitava-os em toda parte.  A magnifica agilidade corporal, o realismo e o imoralismo temerários, próprios dos helenos , foram uma necessidade e não uma natureza . Eles foram uma consequência, não estiveram presentes desde o início. E com as artes e os festejos, os gregos não queriam outra coisa senão se sentir ''em cima'' , ''se mostrar'' em cima : eram meios de glorificarem a si mesmos, e às vezes, de inspirarem a si mesmos .... julgar os gregos pelos seus filósofos , à maneira alemã , usar a bonomia das escolas socráticas para explicar o que é, no fundo, helênico (?!) Os filósofos são, afinal , os decadents do helenismo , o movimento contrário ao gosto antigo, nobre contrário ao gosto agonal , à pólis e à autoridade da tradição . As virtudes socráticas só foram pregadas porque os gregos tinham perdido as anteriores, realmente xamânicas , do contrário não haveria necessidade nem de se filosofar, nem de escrever ou falar. Mas, irritadiços , medrosos , instáveis, comediantes em sua quase totalidade, eles tinham algumas razões de sobra para deixar que alguém lhes soprasse coisas ao pé do ouvido . E sejamos honestos, em algumas épocas específicas, grandes palavras e belas poses combinam muito bem com ''décadents'' . Felizmente, não mais é o que vem acontecendo em nossa sociedade hoje. Aquilo que é contrário à acentuação pessoal e à individualização é a imitação de um único modelo, sobre o qual nos modelamos em tudo ; mas contra o monopólio midiático que busca assim apropriar-se de uma originalidade que não é sua, afunilando tendências e influências que, em absoluto, não lhe pertencem em nada , esnobamos o pretenso poder diretivo da indústria e colocamos nossa própria radiação paradigmática acima de qualquer outra, em caleidoscópio , fazendo com que, ao invés de se regularem por um ou alguns fetiches televisivos fabricados sob medida para imbecilizar o público, oferecemos cem , mil, dez mil, um milhão de arquétipos diretivos que provém diretamente do Axis Mundi ---- mesmo considerados cada um sob aspectos particulares ----- , transportando idéias e potências que, em seguida, combinamos para exprimir e acentuar nossa personalidade original . Para compreender o instinto helênico mais antigo, muito semelhante a esta situação em riqueza e transbordamento , levemos  muito a sério esse fenômeno que um dia levou o nome de Dioniso, fenômeno explicável apenas por um excesso de força. Na célebre obra de Jakob Burchardt , Cultura dos Gregos, há um capítulo específico acerca de tal fenômeno Quanto à surpreendente riqueza de ritos, símbolos e mitos de origem orgiástica, dos quais o mundo pré-socrático está literalmente coberto , não duvidemos que elas brotavam diretamente  da arte dionisíaca . Pois apenas nos mistérios dionisíacos , na psicologia do estado dionisíaco , se manifesta o fato fundamental do instinto grego : sua vontade de vida. O eterno retorno da vida , o futuro prometido e consagrado no passado , o sim triunfante da vida ultrapassando a morte e a mudança, a vida verdadeira como constituição geral da vida através da geração , através dos mistérios tântricos e extra-sensoriais. Todos dos detalhes do ato de geração , da gravidez , do nascimento , despertavam os sentimentos mais elevados e mais solenes na Grécia Antiga. Na doutrina dos Mistérios Helênicos,  até a dor é santificada : as dores da parturiente significam  a dor em geral ---- todo devir e crescer , tudo o que garante o futuro, requer a dor para se consumar... Para que exista a eterna volúpia da criação, para que a vontade de vida afirme a si mesma eternamente, também precisa existir o ''tormento da parturiente'', eternidade afora ....A palavra Dioniso significa tudo isso : não conheço simbolismo mais elevado do que esse simbolismo grego, o das dionisíacas . Nele, o instinto mais profundo da vida,  o de futuro da vida , a eternidade da vida , é considerado espiritualmente ----- o próprio caminho do deus é o que leva à essa vida mais ampla.

K.M.

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