sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

''Potentia intellectus, sive de libertate '

A nova onda conservadora européia compreende sensivelmente que a ''Vida Feliz'', idéia sobre a qual está fundada toda filosofia política ocidental, não pode, apesar de tudo, limitar-se à vida nua e crua que a soberania pressupõe para fazer-se sujeito nos cidadãos de um pátria; tampouco se limita a Vida Feliz ao teatro de variedades impenetrável da ciência e da biopolítica moderna e representativa; cientes de que o sistema inteiro sofre de sérias ''falhas'' de convencimento e honestidade, vemos na idéia de uma ''vida suficiente'', absolutamente voltada para a perfeição da própria potência, física e mental, e da própria independência comunicativa, sobre a qual a soberania e o direito não tem mais qualquer domínio, a grande meta política para a vida das nações no século XXI. Pensamos que uma sociedade como a atual, reestruturada pelas formas da moda, não impede em nada a ''vedetização'' de alguns valores rigoristas, até mesmo morais, com a condição de acrescentar que tal fenômeno não constitui nenhum núcleo de prioridades, mas apenas um espetáculo epidérmico, circunstancial e quase minoritário. Os vestígios de neo-puritanismo, na politica conservadora européia, também não dependem de nenhum ''amor de verão'' eleitoral, assim como os clamores populares por medidas de segurança pública não podem ser considerados produtos da moda ou da ''moral de ocasião '' liberal. Retorno da pena de morte, justiça mais firme, controle de identidades nas vias públicas, restrições ao direito de asilo, códigos de nacionalidade, legítima de defesa... tais clamores, visíveis nas manifestações populares da Europa, nada têm a ver com as flutuações efêmeras da moda. As sondagens são unânimes: a luta contra a criminalidade, a imigração e o desejo de segurança estão à frente nas preocupações dos cidadãos europeus. A exigência de ordem como experimento dentro das sociedade democráticas não é fruto de nenhuma ideologia específica, mas um componente inegável da vida individualista e policiada que, ao longo do tempo, veio sendo reestruturada por várias formas de moda, políticas e sociais. A socialização, nas democracias modernas, exclui completamente a violência e a crueldade física, onde a comunicação deve substituir a repressão e a ordem pública assegurada, para que o medo não tome o lugar da independência de espírito em cidadãos pacificados e desarmados. A angústia da segurança não é uma mania, e sim uma invariante da vida democrática moderna.  No Estado contemporâneo, no entanto, até mesmo a esfera autônoma da comunicação e da linguagem tornaram-se fator essencial do ciclo produtivo. De modo que é a própria comunicação que impede a comunicação entre as pessoas, que restam separadas daquilo que, justamente, deveria uni-las. Na Sociedade do Espetáculo, é a própria natureza linguística dos cidadãos que vem ao seu encontro ''invertida'', através dos mecanismos de contensão da mídia,  com uma forma de violência sutil, mas destruidora. Talvez, por essa mesma razão, tal armadilha sistêmica contém, veladamente, algo como uma possibilidade positiva que pode ser usada contra ela mesma. É próprio da época atual permitir aos homens fazerem uso de sua natureza linguística ----- não deste ou daquele conteúdo de linguagem, desta ou daquela proposição verdadeira, mas do próprio fato de que, hoje, todos nós falemos. Essa situação não constitui um ''estado'', mas um ''evento'' de linguagem, um experimento que diz respeito à própria matéria ou à potência do pensamento independente; em termos espinozistas: de ''potentia intellectus, sive de libertate ''. Tal é a única arma efetiva, ao alcance do povo , para lutar contra as falsas alternativas entre fins e meios que paralisam toda a ética  toda política moderna. O que se encontra em jogo na experiência política de nosso tempo não a busca de um fim mais elevado, principal boneco de argila da publicidade eleitoral, mas antes a instalação de vozes autônomas na linguagem como mediação pura, pois a verdadeira política é isso: exibição de um meio, tornar visíveis os meios enquanto tais. As possibilidades e modalidades de um ''uso livre''  da voz. Se conseguirmos ,de fato, articular o lugar, os modos e o sentido correto desse experimento, desse evento de linguagem global, como uso livre e comum, como ágora dos puros meios independentes, as novas categorias do pensamento político ---- sejam as de ''comunidades'', nação, povo, pátria, sistema inoperante, comparecimento, resistência, igualdade, fidelidade, intelectualidade de massas, povo em formação, singularidade ,etc ,etc ----- poderemos, com toda segurança e eficiência, dar expressão à matéria política explosiva que temos diante de nós.

K.M.

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