quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O interesse norte-americano pelo gás e energia da Eurásia.

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O interesse norte-americano pelo gás e energia da Eurásia3 fez desta região o eixo geopolítico mundial, por ser considerada, sob o ponto de vista econômico, a mais produtiva e mais avançada do mundo. Na Eurásia, “viviam 75% da população mundial e estavam depositadas ¾ das fontes de energia conhecidas em todo o mundo” (BANDEIRA, 2008, p. 11). O autor continua indicando que, com a queda da União Soviética, a partir de 1989, perdendo o domínio sobre o Leste Europeu, o Báltico e a Ásia Central, abriu-se um vácuo político que os EUA ocuparam. Uma queda celebrada por Fukuyama em um artigo de 1989 (posteriormente retomado em Fukuyama, 1992, p. 11) como “legitimidade da democracia liberal como sistema de governo, à medida que ele conquistava ideologias rivais como a monarquia hereditária, o fascismo e, mais recentemente, o comunismo”. Bandeira (2008) e Wallerstein (2002) partilham a ideia de que a Grande Depressão de 1930 e o fim da Guerra Fria endossaram múltiplas vantagens para os EUA: i) possibilitaram o controle das maiores fontes de energia, gás e petróleo; ii) permitiram a ocupação, através das alianças militares, dos estados emergentes saídos dos escombros da União Soviética; iii) possibilitaram diligências para ocupar o Afeganistão e o Iraque; iv) impediram a militarização da União Européia fora da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)4; v) impediram a remilitarização do Japão e da Rússia e desencorajaram qualquer desafio à sua preponderância ou tentativa de reverter a ordem econômica e política internacional por eles (EUA) estabelecida.

9Assim, para Bandeira (2008), a primeira missão política e militar dos EUA após a Guerra Fria consiste em impedir o surgimento de algum poder rival a ele, seja a partir da Europa, da Ásia ou mesmo da extinta União Soviética. A estratégia geopolítica norte-americana orienta-se por três grandes imperativos que são “impedir a coalizão e preservar a dependência dos vassalos mais poderosos em questões de segurança, manter a submissão e a obediência das nações tributárias e prevenir a unificação dos bárbaros” (PANITCH e GINDIN, 2004, p. 20).

10Todavia, Wallerstein (2002) não vê nenhuma vitória do capitalismo sobre o socialismo, mas sim, uma fase de transição do liberalismo para o pós-liberalismo. Deste modo, 1990 representa o fim do imperialismo norte-americano (1945-1990), uma visão que tem ganhado maior visibilidade desde 2001, quando o Grupo Econômico Goldman Sachs cunhou o acrônimo BRICs para fazer referência aos maiores mercados econômicos emergentes. Para caracterizar a era do imperialismo norte-americano, 60% das pessoas entrevistadas por Hobsbawn (1995, pp. 11-12) aplicaram uma das seguintes expressões: “[…] era o mais terrível da história; terríveis acontecimentos; massacres e guerras; século de opressão; mais violento da história; catástrofes e tragédias; […]”. Essa experiência de terríveis acontecimentos gerou um sentimento anti-americano, sobretudo com a invasão ao Iraque em 2003, mesmo junto aos tradicionais aliados.

1 O termo foi inicialmente criado como um acrônimo – BRIC – diretamente relacionado ao nome dos países emergentes Brasil, Rússia, Índia e China, cujo agrupamento efetivo, na forma de uma associação informal, foi oficializado em 2006. Desde a criação do termo, tais países, como conjunto, passaram a ser referidos como “os BRICs”, a letra s minúscula apenas designando a passagem do termo para o plural. Com a agregação da África do Sul, em 2011, a letra S, em maiúsculo, relacionada à grafia em língua inglesa do nome desse país (South Africa), foi incorporada ao termo, cuja grafia passa a ser BRICS.
2 Como exposto anteriormente, a literatura conceitual sobre a sigla BRICS toma a associação das letras iniciais dos cinco países (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) para designar os mercados econômicos emergentes. Todavia, tal nomenclatura varia de autor para autor. Lima e Hirst (2009), por exemplo, lançam uma infinidade de termos para definir esses países, como, por exemplo, potências médias; países intermediários; potências regionais e emergentes. Esses termos pretendem, na verdade, expressar algo de econômico que diferencia esses países dos demais.
3 Território que se estende entre Europa e Ásia, especificamente situado entre Ásia Central e Mar Cáspio, abrangendo de acordo com Bandeira (2008) Cazaquistão, Armênia, Azerbaijão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão, Sibéria Ocidental e parte setentrional do Paquistão, e é circundada pelo Afeganistão, Rússia, China, Índia e Irão.
4 O Tratado do Atlântico Norte, deu origem à OTAN (NATO), assinado em Washington, DC em abril de 1949, e composto inicialmente por doze países, que são: Estados Unidos da América, Bélgica Canadá, Dinamarca, França, Islândia, Itália, Portugal, Reino Unido, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos. Mais tarde aderiram países como Bulgária, Alemanha, Eslováquia, Eslovênia, Hungria, Grécia, Estônia, Espanha, Turquia, Romênia, Letônia, Lituânia, Polônia e República Checa.
5 Cuja posição mundial em termos de PIB era no período de 2001 a 2008, de acordo com Gonçalves (2010): China, Rússia, Brasil, Índia e África do sul 3°, 8°, 10°, 12° e 32° lugares, respectivamente.

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