segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Eles iam ao Teatro para ouvir Sófocles

''Que um estado social plenamente democrático é um estado social no qual já não há, por assim dizer, influências individuais '' (A. Tocqueville)

Não há dúvida de que a análise de Tocqueville é justa ao registrar o recuo progressivo das influências fortes e duráveis de família e de corpos na democracia moderna, mas isso não significa erosão e desaparecimento de influências individuais. É verdade que a ''autoridade'' dos grandes mestres intelectuais há muito se eclipsou, e que as classes sociais superiores já não são em nada modelos preeminentes, e que a maior parte das celebridades contemporâneas não representam mais os pólos magnéticos que eram antigamente . Mas ainda que a decadência democrática do mundo rasteje em seu caldo de pequenas influências disseminadas precariamente ''à la carte'' , algo que os gregos nos deixaram de herança (ou pelo menos os atenienses) foi sua poderosa atração por ''belos discursos''  ; de suas obscuras origens sicilianas até a tentativa dos sofistas de dominarem o mundo ''falando'' , a arte da retórica sempre despertou um ávido apego nos ocidentais . Na Grécia antiga, exigia-se inclusive que os atores falassem bem, e o público que ia ao teatro jamais se incomodava pela falta de naturalidade dramática , se em compensação o ator possuísse o poder da palavra. Na natureza, a paixão humana sempre foi considerada ''pobre'' de palavras; quando ela não é ''muda e acanhada'' , torna-se confusa e insensata . E talvez, graças a isso, os gregos tenham se acostumado à falta de naturalidade no palco, e suportado até com certo gosto aquela outra falta de naturalidade, a paixão ''pelo canto'', graças aos italianos . ----- Tratam-se, obviamente, de necessidades que não somos capazes de satisfazer na realidade: ouvir bem e minuciosamente as pessoas nas situações mais difíceis . E o antagonismo permanente do sentido é uma dessas situações, na era democrática. Certamente, nossas sociedades encontram-se hoje no grau zero dos valores: a liberdade e a igualdade constituem nossa base comum de inspiração, mas somente enquanto ''quimeras conceituais'' , princípios constitucionais que tornamos impossíveis, não-positivados , e suscetíveis de interpretações infinitamente contrárias ; o s referentes intelectuais da era democrática nao fazem senão aprofundar essa anemia cultural ,  estimulando um processo ilimitado, vazio e superficial de crítica da crítica, discórdias e questionamentos da ordem instalada, que nada mudam.  Esse é o resultado imediato de um amplo ajuste social promovido pelas forças econômicas da globalização escudada por governos títeres, tanto do primeiro quanto do terceiro mundo, percebido sobretudo na reversão do enraizamento dos mercados. GloBaNalização: a descentralização e integração ao redor do mundo de vastas cadeias de produção e distribuição que acompanham o movimento dos valores em escala global reduzindo a humanidade à um rebanho de consumidores automatizados. Uma concentração sem precedentes na história dos mecanismos de gestão empresarial, além da centralização do poder político na esfera de influência submetida aos agentes transnacionais. A Democracia moderna converteu-se numa plutocracia internacional concentrada nas finanças globais,  cujos paradigmas não estão a serviço nem da liberdade, e muito menos da igualdade. Unanimismo sem clivagem de fundo, onde somente a moda consegue fugir à uniformidade de convicções e comportamentos, muitos deles, inclusive, vindo a constituir uma espécie de ''discurso mudo'' , por lhe faltarem maiores recursos artísticos.  Por isso, ainda hoje, alimentamos a nostalgia e o encantamento dos palcos gregos. Encanta-nos quando somos informados de que, mesmo em apuros, o herói encontrou palavras, motivos, gestos convincentes e, no geral, uma clara espiritualidade em que a vida se aproxima dos abismos da Tragédia Grega e a pessoa perde a cabeça, mas certamente não a ''bela fala'' A heróica falta de naturalidade e convenção do Teatro Grego decepciona quando ''The Rest Is Silent '' ----- o mesmo tipo de decepção que experimentamos quando sentimos que o ''cantor de ópera''  não encontrou uma melodia para alguma forte emoção, mas apenas um afetado murmúrio  e uma grito ''naturais'' . Nesse caso, portanto, é que a Natureza deve ser totalmente CONTRARIADA . Sim, para os gregos, o encanto comum da ilusão DEVIA ser transformado num encanto superior . E eles costumavam ir bem longe nesse caminho, levando sua civilização para as alturas . Criaram um tipo de palco incrivelmente estreito, que impedia qualquer ação em profundidade, não havia ''planos de fundo'', o que tornava quase impossível a mímica e mesmo o mais leve movimento do ator, fazendo dele um espantalho festivo , rígido e caricato , substituindo o plano de fundo da paixão pelo do ''belo discurso''  . A esse respeito , podemos ver nos poetas gregos da Tragédia o que mais estimulou seus esforços, sua criatividade, sua ambição ----- certamente, não foi o propósito de dominar os espectadores pela ''emoção''  , sintoma de arte ruim em qualquer época ou sociedade. O ateniense ia ao Teatro apenas para ''ouvir belas falas'' . Eles iam ao Teatro para ouvir Sófocles (!) 

K.M.

Nenhum comentário:

Postar um comentário