A radicalização do projeto neoliberal que se seguiu à crise de 2008, além de desfigurar ideologicamente a esquerda européia, aumentou brutalmente as desigualdades sociais, destruiu empregos, sacudiu as fidelidades partidárias, reverteu todo tipo de consensos que até então serviam de pontos de referências aglutinadores, e conduziu a Europa a deslizamentos identitários perigosos cujos efeitos ninguém mais é capaz de prever; a própria esfera subjetiva do povo europeu, sobretudo na França e Alemanha, parece já estar sendo dirigida por novos sentidos e objetivos. E aqui estamos longe de qualquer dissidência marginal de extrema esquerda, e muito mais próximos do verdadeiro barril de pólvora nacionalista do que das promessas salvíficas da austeridade neoliberal. A única coisa que parece inquietar o povo europeu, no momento, é a areia movediça do futuro em si, pesadelo que até então vinha sendo sonhado através desses velhos filtros ideológicos. As noções de esforço , risco, emulação e coragem política voltam a ter voz ativa nessa nova mutação da social-democracia que rejeita o social liberalismo e os conluios da esquerda pró-empresarial e da direita pró-patronato a serviço do 1% mais rico, a elite oligárquica que François Fillon quer proteger, livrando suas fortunas duvidosas de impostos. Todos esses pregadores de penitência neoliberal , com ou sem verniz católico, chegam no cenário político da Europa de hoje sob uma forte desconfiança popular quanto aos seus ''meios êxitos'' políticos ; todos eles falam de ''deveres'', e sempre de ''deveres'' com o caráter de algo incondicional ------ sem fiarem-se nisso não poderiam justificar a austeridade. Eles sabem disso, o meio cultural, os buracos de onde elessempre voltam a sair , a cada eleição presidencial, soa sempre afinado com o perfil narcisista do pior tipo de personalidade pública. Sempre buscando reabilitar, em seus conteúdos programáticos, o espírito competitivo que corrói as bases da sociedade e a ambição, o consenso em torno da predação empresarial ----- ansiando sempre por uma nova rodada de distribuição de cartas políticas com as quais possam reciclar suas sensações mais íntimas de laxismo europeísta. Mas a atmosfera do momento não está mais nessas permissividades liberais, nesses psicologismos e ativismos com que massificam os anseios populares em todas as direções; há toda uma parcela de cultura cool cedendo passo a referentes políticos e sociais muito mais sérios, mais responsáveis e mais impacientes, em busca de desempenhos políticos verdadeiramente novos. O individualismo neoliberal, no entanto, não morreu ainda, busca reciclar-se de todas as formas, cortejando as novas sedes e matrizes conceituais de business ,de softwares, de mídias e de publicidade. A digitalização performativa dessa ''contra-revolução'' liberal é tomada pela febre do barômetro-imagem. À medida que o nacionalismo ganha corpo no povo europeu, o liberalismo persevera no enfrentamento estrutural sob formas cada vez mais covardes , como os delírios publicitários de meritocracia. O processo narcisista de redução da dependência subjetiva em relação à critérios objetivos de honorabilidade social. Mas no coração do individualismo burguês contemporâneo, o ego das pessoas comuns vem prevalecendo sobre os anseios de reconhecimento social, que ''legitimam'' a meritocracia enquanto forma de ''interesse'' que ensina a submissão. Quem agora se sente humilhado com a idéia de ser um instrumento gratificado pelo sistema, só para ter o seu miserável cadinho , sua posição social reconhecida, aspira cada vez mais a formas mais convincentes de felicidade , e dá mais importância à livre expressão de si do que ao julgamento dos outros para fazer recuar o demônio do espelhismo meritocrático. Honra, dispêndio ostentatório, ''standing'' , posição social, etc, todos esses demônios nascidos do imaginário da escassez neoliberal, só prosseguem em sua dinâmica muito penosamente, nos tempos atuais. É simplista e ingênuo acreditar que um pouco mais de neoliberalismo ali, uma pincelada de socialismo aqui, vá satisfazer o vazio de esperanças populares que tragou para o Inferno toda a ideologia concorrencial dos últimos trinta anos, junto com todo seu frenesi de sucesso e ascensão social. O ar dos novos tempos está carregado da impressão popular de que o ato de refletir com competência perdeu toda sua dignidade nas bocas e nos rostos dos políticos liberais. Frustrado e cada vez mais impaciente, o povo europeu vem transformando o cerimonial e os gestos festivos da reflexão política de natureza liberal num escárnio contínuo, único meio de negociação com esses tipos atropelados pela história.
K.M.
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