sábado, 3 de dezembro de 2016

''Ratos de laboratório'' da Troika.

A campanha pelo Brexit, no Reino Unido, mostrou que a falta de soluções políticas críveis , em escala européia, deixara o campo livre para que os europeus começassem a acusar a voga neoliberal de ter degradado a democracia. A Ukip certamente foi um exemplo bem sucedido de como é possível acolher as preocupações populares e conferir direitos de soberania à suas convicções políticas. Só quando essa reviravolta na cultura política européia se concretizou é  que ficou claro que os ''de baixo'' agora tinham voz ativa contra ''os de cima'', incluindo sérias objeções contra a cultura do lucro e do mercado. Até na França, historicamente tão ligada ao centralismo protetor do poder público, a reação liberal vem sendo limitada pelos anseios nacionalistas, que a obrigarão a descer ao nível da modéstia, à hipóteses liberais ''mais equilibradas'', nem que seja de um ponto de vista eleitoral provisório. As ''ficções reguladoras'' , de todos os lados do espectro político, servem tanto para indicar os limites da ação do Estado, quanto para questionar uma economia radicalmente engajada no mercado internacional. Alguns países europeus que já passaram pela experiência de servirem como ''ratos de laboratório'' para a aplicação das medidas de austeridade da Troika, exigidas pela União Européia, hoje voltam a abrir os olhos para as opressões da cartilha neoliberal e a realidade abissal da crise em que ela mergulhou o continente. Em todo caso, a denúncia popular atual sempre começa no pólo negativo, deixando que a identificação do projeto que se quer defender se inicie como uma vigilância. A polícia da desconfiança popular é necessária para frear a sangria que priva a população de direitos conquistados com muita luta, e que vem sendo submetidos à golpes orçamentários atrozes. Desemprego persistente, crescimento perto de zero, fraqueza industrial, perda de competitividade, déficit da balança de pagamentos... o pragmatismo liberal nunca mostra realmente ao que veio, não oferece nenhum meio de saída para crise que já não tenha sido testado e desaprovado. Não há mais escolha para os europeus a não ser não se deixarem mais enganar. E , mesmo assim, será com atraso que a tomada de consciência da sufocação das nações européias será desencadeada. Principalmente por que o trabalho da mídia liberal obriga o povo à lutar contra as aparências o tempo todo, como se a vida nacional fosse um escarro ligado às aparências liberais projetadas pelos meios de comunicação de massas, digamos, ao engano, à traição das elites, à dissimulação ostentatória e meritocrática, ao ofuscamento da soberania popular, quando, na verdade, as grandes formas da vida nacional, em qualquer país do mundo, sempre demonstraram estar do lado dos mais impensáveis ''politropoi'' . 

K.M.

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