Sempre preparados para as crises e debaixo de fortes tensões , os israelenses sempre tiveram que enfrentar não só seus inimigos históricos ,mas também suas ''amizades difíceis''. Em dezembro de 1975 foi a vez de H. Kissinger, um judeu no Departamento de Estado. Mas hoje renunciarei à minha mágica ---- como o Próspero de Shakespeare ---- e jogarei meu escrito no mar dessa histórica relação diplomática . Mas Próspero tinha apenas uma pequena ilha da qual abrir mão , não eram os interesses globais e estratégicos de uma superpotência como Israel . Refiro-me à um incidente obscuro na história da relação diplomática EUA ---ISRAEL , derivada de um artigo de Joseph Alsop, publicado no The New York Times Magazine, no mesmo período, intitulada ''Carta aberta a um amigo israelense'' . O ''Caro Amós'' , a quem a carta é dirigida, era Amós Eiran , então diretor-geral do Escritório do Primeiro-Ministro e conselheiro político do mesmo . A Carta ao ''Caro Amós'' revela que Alsop não passou de político a rezador e que seu estado de espírito era então tão imperial quanto sempre , apesar de referir-se a si no artigo com uma dose razoável de modéstia. Apenas o ''amigo americano do Sr. Eiran : ''Qualquer americano tem sempre de pôr o interesse dos americanos em primeiro lugar (isso nos lembra algo?) Assim , tenho pensado muito na maneira pela qual Israel afeta os interesses americanos . Alguns efeitos tem sido adversos , o que é evidente, como na área das relações americanas com o mundo árabe . Todavia tais considerações mudam de figura, na minha opinião, quando se submete a relação Israel -Estados Unidos à prova de fogo . O resultado é sempre meio macabro . Dada a situação de perigo nacional de Israel, nós americanos temos sempre de pensar na maneira pela qual a destruição do país afetaria os Estados Unidos''. Alsop era obviamente um grande amigo de Israel. Não que o tenha sido desde o começo. No começo ele não era inteiramente favorável à existência de um Estado judeu na Palestina, mas mudou de opinião com os anos , e passou a mostrar-se cheio de admiração pelas virtudes militares dos israelenses. Apoiou os israelenses em muitas crises. E embora sua Carta ao Caro Amós fale com brutalidade na destruição de Israel, ele acrescenta : ''DEUS NOS DEFENDA (!) '' . E diz mais : diz que se isso acontecesse, disso resultaria : ''Um dilúvio de culpa e ódio e recriminações CAPAZ DE CORROER a própria estrutura de nossa sociedade. Por isso mesmo tenho sempre acreditado que nos cabe assegurar a sobrevivência de Israel, quando mais não fôra para assegurar a sobrevivência daqueles valores americanos que mais estimo . E dessa linha não recuo no que diz respeito ao seu país ''. Mas porque escreveria Alsop uma carta esquista dessas, alertando Israel para o perigo da destruição , lembrando-lhe que Israel possui ''UM SÓ PROTETOR'' . É simples: porque ''uma séria desavença surgiu entre Israel e os Estados Unidos. Entre outras coisas, Alsop estava chocado com ''A INGRATIDÃO DE ISRAEL PARA COM O SECRETÁRIO DE ESTADO HENRY KISSINGER'' . Alerto a leitora aqui que ninguém conhece melhor a vida e a personalidade do Sr. Kissinger do que o autor desta crônica . Obtendo um acordo com o Egito no deserto do Sinai, na mesma época, Kissinger obteve uma interrupção das hostilidades de que precisava Israel para ''voltar a respirar'' . E, no entanto, por toda parte, em Israel , Alsop encontrou provas , durante a primavera de 1976 , de uma ''CAMPANHA CONTRA KISSINGER'' .Uma alta personagem israelense chegou mesmo a dizer-lhe: ''Estaríamos melhor sem um judeu no Departamento de Estado '' . ''Um Congresso hostil ratificou a barganha conseguida por Kissinger no Sinai '' (continua Alsop) Israel não pode absolutamente contar com o apoio permanente da opinião pública americana, e isso é mais problemático do que parece. Até hoje é assim: a opinião, em certa altura, começa a voltar-se violentamente contra Israel, e a ter peso até mesmo no coeficiente eleitoral dos políticos americanos. Então todos começam a buscar meios de inverter o processo. Sempre foi assim... Quais são as causas dessas perigosas mudanças de atitude ?? Isso data justamente de uma ''obra de Henry Kissinger '', a chamada ''crise de março de 1975'' ; Kissinger não teria retomado sua diplomacia de vaivém entre Jerusalém e o Cairo, se não tivesse sido convidado a tentar de novo tanto pelo Egito quanto por Israel . E (segundo Alsop) teria ''recusado pôr o pé naquele Air Force One em março último se não acreditasse que , depois de um adequado regateio diplomático , o governo israelense acabaria por aceitar as exigências finais do Presidente Sadat para um acordo temporário ''. O Ministro Rabin (idem) ao demonstrar confiança em ''arrastar todo o gabinete consigo '' teria ''involuntariamente induzido em erro'' o Secretário de Estado Kissinger ---- o que levou o Presidente Ford a despachar-lhe uma violenta carta pessoal. Numa palavra: sem intenção de enganar, ao que tudo indica, Israel portara-se de maneira a enganar . Havia muita intriga no seio do Gabinete de Israel que não vinha a público. Um rival presumido de Rabin, ambicioso de suceder-lhe , tinha conhecimento , devido a sua posição, de que o Estado -Maior de Israel encarava a retirada dos desfiladeiros de Mitla e Gidi como militarmente aceitável. Pois justamente esse rival declarou depois que Rabin não podia ter feito tal concessão. Continua Alsop : ''Tenho horror do mal hábito americano de tomar partido em querelas políticas alheias, de modo que não vou identificar esse membro do Gabinete de Israel senão dizendo (por ser necessário) que ele controlava oito votos no Knesset ''.
K.M.
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