sábado, 17 de dezembro de 2016

Moda biopolítica e potência intelectual.

Certamente a moda consumada prolonga uma forma de extra-determinação dos pensamentos ; e certamente ela significa um reino todo particular de influência do Outro. Mas a autoridade aí nunca é decisivamente ''diretiva'', exerce-se livre de monolitismos de qualquer espécie, e vem frequentemente acompanhada de uma vontade de argumentação e contra-argumentação maiores nos indivíduos. Numa vida está sempre em jogo o próprio viver e, no seu viver , está em jogo, antes de tudo, seu modo de viver, em que os modos particulares, pessoais, os atos e processos pelos quais se vive nunca são simplesmente ''fatos'', mas sempre ''possibilidades'', sempre, e primeiramente, ''potência''. Comportamentos e formas de viver nunca são prescritos por uma vocação biológica , nem atribuídos por ''necessidades'' , mas, mesmo condicionados socialmente, conservam seu caráter de possibilidade e de jogo. O homem é o único ser em cujo viver está sempre em jogo a felicidade, porém isso constitui imediatamente a forma-de-vida como vida essencialmente política. A política, em função disso, tornou-se ''biopolítica'' . Seu lugar é variável, mas ela tem necessariamente um lugar: se em relação à lógica do gênio criador o reino da moda limita a autonomia pessoal,socialmente ela torna possível sua expansão . Ela (a moda), que opera por meio da sedução e repousa sobre a facilidade mimética, não é o resultado de um trabalho individual, de um ato de coragem  e vontade explícita ??Aplicada mais à obra de descoberta intelectual do que à constituição dos pensamentos mais gerais das pessoas, a moda , no entanto, de forma alguma se limita apenas a alguns profissionais do conceito e sua pretensão ao reino da liberdade do espírito . Chamamos de ''pensamento'' o nexo que constitui as formas-de-vida em um contexto inseparável , em forma-de-vida . Com isso não entendemos a atividade individual de um orgão ou de uma faculdade psíquica, mas um experiência, um ''experimentum '' que tem por objeto o caráter potencial da vida e da inteligência humana. ''Pensar'' não significa apenas ser afetado por esta ou aquela coisa , por este ou por aquele conteúdo de pensamento em ato , mas ser , ao mesmo tempo, afetado pela própria receptividade, fazer dela a ''experiência'' ,em cada coisa pensada , de um pura ''potência de pensar'' . O pensamento é o Ser cuja natureza é ser em potência... quando o pensamento se torna, em ato, cada um de seus próprios inteligíveis ,pode pensar inclusive a si mesmo. A conquista da liberdade intelectual é pensável também fora do modelo prestigioso da razão arquitetônica, legitimada socialmente, para efetuar-se em um outro nível, mais amplo, mais empírico e mais poderoso: pelo ângulo da multiplicidade de influências e seus ''choques'', pelo jogo das analogias diversas e pela instalação do Ser na linguagem poética.  A marcha do governo de si mesmo na história não se efetua pela estrada real do esforço especulativo individual ,mas por um conjunto de fenômenos culturais e sociais aparentemente contrários à luz intelectual: A MODA. Ela é esse momento que permite à massas muito vastas fazer uso de sua própria razão, e isso porque a ordem imemorial da tradição explodiu e os sistemas terroristas que monopolizavam o ''sentido da vida'' já não tem domínio sobre os espíritos. Sofre-se ainda, sem nenhum dúvida, as influências da indústria ; mas nenhuma delas, porém , é no presente determinante, mais nenhuma delas abole a capacidade das pessoas de voltarem-se para si mesmas. O espírito crítico se propaga inclusive nos e pelos mimetismos da moda, nas e pelas flutuações atormentadas das ''opiniões'' . Comunidade e potência intelectual identificam=se em resíduos. Podemos nos comunicar com os outros só através daquilo que em nós, assim como nos outros , permaneceu em potência , e toda comunicação é, antes de tudo, comunicação não de um ''sentimento comum'', mas da própria comunicabilidade.  Especialmente naquele ponto em que Dante, no De Monarchia, afirma o ser inerente de uma ''multitudo'' à mesma potência do pensamento: ''A tarefa da espécie humana, apreendida na sua totalidade, é a de atuar incessantemente toda a potência do intelecto possível , em primeiro lugar com vistas  à contemplação mística e, consequentemente, depois, em vista da ação . Mas evitemos uma visão beata da coisa: as seitas, o conhecimento esotérico, a chave para o domínio da natureza, o mundo além da mente e o fogo parapsicológico estáo aí para nos lembrar apenas que as Luzes avançam além do pensamento. Que além do clímax humano, existem outros ; o intelecto como potência social só pode adquirir seu sentido mais completo na perspectiva dessa experiência: o nirvana. A intelectualidade e o pensamento não são uma forma de vida ao lado de outras, nas quais se articulam a vida e a produção social, com seus vários níveis intermediários entre o vazio intelectual e a iluminação do pensamento, mas são a potência unitária que constitui em forma-de-vida superior as múltiplas formas-de-vida, tornando-se o conceito-guia da política que vem. A moda, nesse contexto, tem razões que a própria razão desconhece.

K.M.

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