Na prática, o esforço está apenas começando. Procuramos simultaneamente as palavras e os ouvidos. Se quiséssemos simplesmente nos chamar de neoconservadores moralistas ainda nos julgaríamos indefinidos. Entendemos o liberalismo cultural e econômico dos anos anteriores como uma exacerbação irresponsável da existência humana naquilo que ela possui de mais baixo, como uma conspiração planetária que escaldou nossos espíritos e nos tornou mais duros que nunca, capazes inclusive de reverter algumas formas da moda em nosso favor, o que parecia impensável. A coisa mais ou menos certa que nossa desconfiança conseguiu captar até agora é que o liberalismo não se alimenta de novidades, nem das tão propaladas diversidades culturais de sua propaganda mundial; trata-se apenas de um efeito da moda a ser reproduzido politicamente como um círculo vicioso, que se alimenta de velhos dogmas econômicos que devem ser prolongados como tais. A moda joga a favor da nova desconfiança política mundial, não porque tenha se tornado ''conservadora'', mas porque movida por um desejo insaciável de ''mudança'' e ''renovação''. A idéia fixa da ordem liberal que se desmantela atualmente tem seus fundamentos religiosos na teoria monetária convencional estabelecida pelo sacerdócio dos grandes bancos centrais do mundo ; quando os últimos e sucessivos afrouxamentos monetários realizados por eles, na esperança de que os investidores e consumidores da ordem liberal reagissem à fartura de recursos para crédito , começaram a apresentar graves limitações, os bons observadores já puderam antever o começo do fim. A derrocada política veio como mero acréscimo, previsível , ainda que turbulenta. Não é mais possível reproduzir a ordem das coisas, sob o cajado do capitalismo convencional. Assim, as promessas de recuperação econômica, na América e na Europa, naturalmente deram lugar ao vazio de uma angústia econômica e a consistência da ordem liberal foi sendo substituída por projeções de expansão mais e mais tímidas. O FMI é sempre o primeiro a cortar a euforia e a exaltação do presente, indo buscar em fontes conservadoras os valores de ''esforço'' que justificam seus apelos à austeridade fiscal. Com a traumática paralisia do consumo e dos investimentos no mundo inteiro, a nuvem de dinheiro despejada na economia mundial ficou empoçada e, finalmente retornou aos bancos centrais sob a forma de excessos de reservas. Toda a expansão promovida pelos afrouxamentos monetários voltou para os Bancos Centrais, mergulhando a ordem liberal na armadilha da liquidez. A demanda, os investimentos e a própria inflação, que resiste a avançar, começam a provocar incômodos cada vez mais fortes, expressos por temores crescentes de fragilidade na solvência do sistema bancário global. É justamente disso que a humanidade, ou a política mundial, se preferir, vem retornando, como numa fuga da loucura desregrada da vaidade e da insensatez liberal que, por muito tempo, não pôde ser reconhecida como tal. As consequências culturais e sociais de tal insanidade não são menos dramáticas, embora mais difíceis de serem apontadas, em função da cobertura de imagens publicitárias que distorce a visão da realidade; mas citaríamos, sem margem para dúvidas, a total desintegração das identidade sociais e uma inédita ansiedade individual e coletiva com assuntos políticos e econômicos.
K.M.
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