segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

''Consensus'' dos povos europeus ''menos mansos'' .

O desemprego, a dívida pública elevada e o fraco crescimento do PIB dos últimos anos tem dificultado o crescimento econômico do país. Em 2014, o PIB apresentou uma queda de 0,4%, mostrando que o país ainda enfrenta dificuldades no processo de recuperação econômica. As reformas econômicas colocadas em prática nos últimos anos, entre elas a redução dos gastos públicos, ainda não surtiram o efeito desejado. A economia italiana só veio declinando em relação à da França e da Alemanha e o ponto mais fraco de todo esse insucesso, como revelado pelo resultado do referendo de ontem (04-12-2016), era mesmo  sua frágil legitimidade política. Os defensores não só do ''não'' ao referendo, mas da própria saída da Itália da União Européia há muito se irritam com a interferência desta nos assuntos nacionais, vendo em tratados internacionais como a UE e a OMC muitos indícios anti-democráticos por natureza, que obrigam seus signatários a atar as próprias mãos para o bem comum .  As interferências de Bruxelas no mercado italiano prejudicaram muito mais do que beneficiaram as empresas italianas, nos últimos anos, à medida que a austeridade imposta à nação veio se mostrando inócua. As barreiras comerciais derrubadas na Europa continental pela UE não compensam a situação das empresas nacionais. Assim como em outros países europeus, os italianos sentem na própria pele que a integração global enriqueceu as elites à custa  de seus trabalhadores mais simples e indefesos. A casta de profissionais qualificados que os truques econômicos da UE privilegia é a mesma que cospe na cara do povo quando este reivindica as nunca cumpridas promessas de produtos melhores e mais baratos que o laxismo europeísta anuncia na propaganda liberal de suas ações. Espalhar a produção econômica por mais fábricas pode proteger as empresas nacionais de impulsos protecionistas, mas também reduz drasticamente a produtividade e eleva os custos para os consumidores finais. E isso, multiplicado por muitos países e empresas, provoca efeitos exponenciais. Um deles, diga-se de passagem ,vem sendo justamente a desaceleração do crescimento do comércio global desde 2010, que deixou o PIB mundial quase 3% menor do que estaria se não existisse a União Européia. A grande recusa nacionalista vem produzindo efeitos diversos,  ainda que detonados por um mesmo ímpeto. Na hora da contestação, a reivindicação patriótica naturalmente dá livre curso à denúncia do sistema burocrático-capitalista que promove o hedonismo político liberal. Apenas com as antenas do pensamento frio e curioso é possível arrancar os grandes problemas dos nós de promessas liberais,supondo-se que se deixem capturar após tanta desconfiança. É natural que as incertezas sigam castigando os mercados financeiros por algum tempo, antes que se tenha uma idéia precisa do melhor projeto de estímulo para a economia. Talvez, vacinado contra as superstições liberais, algum ''consensus'' dos povos europeus, ou dos povos europeus ''menos  mansos'', possa, a partir de agora, deduzir sua vinculação a uma nova ordem de idéias. A situação particular de fragilidade dos bancos italianos, a queda nas ações dos bancos europeus, aponta para o risco de contágio iminente da economia européia, no caso de não se encontrar arranjo econômico capaz de driblar a insistência na austeridade como fórmula mágica.  Perdeu-se, certamente, muito  tempo para limpar o balanço dos bancos, e essa limpeza continua inacabada. As perspectivas de retomada do crescimento continuam quase  nulas em toda a Europa. Investimentos privados seguirão sendo adiados ''ad nauseam' e os problemas de inadimplência dos bancos italianos, suas montanhas de empréstimos problemáticos, e toda a tensão internacional que os atinge num momento em que já estão na penúria, coloca ainda mais em cheque as regras européias que complicam a autonomia da Itália para resolver seus próprios problemas. 

K.M.

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