A política é aquilo que corresponde à inoperosidade essencial dos homens, ao Ser radicalmente sem obras das comunidades humanas. Existe política por que o homem é um ser ''argós'' (sem finalidade) , não definido por nenhuma operação própria, sem ''érgon'' , ou seja, um ser de puras possibilidades, que nenhuma identidade e nenhuma vocação podem exaurir ; este é, por sinal , o significado político do averroísmo, que liga a vocação política do homem ao intelecto em potência . De modo que essas inoperosidades e potencialidades podem ser assumidas sem se transformarem numa tarefa histórica , de que modo a política poderia ser nada mais do que a exposição da ausência de obra do homem e, quase, da sua indiferença criadora em relação a qualquer tarefa e somente nesse sentido permanecer integralmente destinada à FELICIDADE ---- eis o que, através e para além do domínio planetário da técnica e do mergulho na vida nua e crua do estado exceção , constitui o tema da política do futuro. Quando pensamos no desejo de fazer algo, como aquele que produz comichões e dá alfinetadas constantes no ego de milhões de jovens europeus, que nem a confiança empresarial na Alemanha consegue anestesiar em seu sólido encerramento de ano... jovens que suportam tão mal o tédio e a si mesmos que é de se pensar que para eles um desejo deve ter alguma coisa que os faça sofrer , para extraírem de seu disfarçado sofrimento um provável motivo para fazerem algo, PARA AGIREM .. A aflição é necessária! É disso que vem a gritaria dos políticos atuais: das diversas leituras das crises , políticas, econômicas, culturais, nessa ou naquela direção, exageradas pela ressonância em cada classe social e pela cega predisposição da mídia de acreditar em cada uma delas, por causa do ibope. O mundo jovem, não só na Alemanha, exige que tudo VENHA DE FORA, ou que se torne visível , não sua felicidade, mas antes sua infelicidade ; e todas as fantasias jovens da atualidade se articulam com a publicidade subliminar para criar um monstro contra o qual se possa lutar. É certo que cada povo teve seu modo especial de falir culturalmente , e decisiva é para nós a tarefa que essa falência deixou como herança, esse vácuo que venho procurando ocupar da forma mais entusiasmada possível, mas talvez não seja nem mesmo correto definir tal ocupação como uma tarefa, visto que não mais existe um povo constituído capaz de assumi-la, ainda que seja possível alcançar um bom entendimento com esse ou aquele. Se nossos jovens, desejosos de novas aflições e psico-dramas coloridos, sentissem a força de fazerem o bem a si mesmos, a partir de seu interior, certamente o verão seria uma oportunidade a menos para testemunharmos o modo grosseiro e venerável como os cardumes da juventude burguesa planetária andam pra cá e pra lá sem nenhum pensamento novo na cabeça, nenhuma virada ou nuance mais sutil de um pensamento antigo ressuscitado pelo sol , nem sequer uma história efetiva do que outrora foi pensado heroicamente : apenas um literatura IMPOSSÍVEL no todo pode fermentar o tédio atual com algum grau de malícia e eficiência. Tais invenções tornam-se mais refinadas a cada dia e a satisfação alcançada em todos os níveis por ela alcança sempre o som de uma poderosa música das esferas , capaz de abafar o mundo de grunhidos de aflição e sentimentos negativos que , não sabendo o que fazer consigo mesmo, limita-se a pintar a infelicidade alheia em todas as paredes da vida. O Oráculo passa a despejar então não só psicologia, mas também um tipo muito cuidadoso de filosofia, que martela até o limite nossa necessidade dos outros. Diz-nos ele: ''Perdoem-me, amiga (o)s , mas eu me atrevi a pintar minha FELICIDADE na parede ''. Demasiado duro... mas assim é .
K.M.
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