A partir do momento em que a moda não remete mais exclusivamente ao domínio das futilidades e designa uma lógica e uma temporalidade social de conjunto, é útil e necessário voltar à obra que mais longe foi na conceitualização, na amplificação e no realce do problema: a de Gabriel De Tarde, o primeiro a conseguir teorizar a moda para além das aparências frívolas, a ter dado uma dignidade conceitual ao assunto, nele reconhecendo uma lógica social e um tempo social específicos. O primeiro a identificar uma forma de sociabilidade totalmente derivada da moda, a ter definido épocas e civilizações inteiras pelo princípio da moda. Para Tarde, não existe sociedade senão por um fundo de idéias e de desejos comuns ; é a semelhança entre os seres que institui o elo de sociedade, a ponto de ele afirmar que ''a sociedade é imitação''. A moda e o costume são as duas grandes formas de imitatividade que permitem a assimilação social das pessoas e até mesmo a mobilidade social . Antigamente, por exemplo ,o milagroso fazia mais bem para as pessoas do que hoje em dia; de vez em quando elas cansavam-se das regras sociais a qual estavam presas,e procuravam perder o chão pelo menos uma vez, escapando da reprodução mecânica de si mesmo. Flutuar, vagar por aí, tornar-se incrível ... tudo isso fazia parte do paraíso e do banquete dos tempos antigos : enquanto que, nos tempos atuais, nossa bem-aventurança se assemelha mais à do náufrago que chega à praia e pisa com os dois pés na velha terra firme, assombrado pelo fato de ela não balançar. Quando a influência dos ancestrais cede passo às sugestões dos inovadores, as eras de costume dão lugar às eras de moda, uma época social independente de ''conteúdos'' : todas as instituições, então , todas as condutas, em todos os setores da sociedade, tornam-se passíveis de serem arrastados pela correnteza da moda, pelo fascínio e a atração dos fractais da moda. Dois princípios caracterizam a moda aos olhos de De Tarde : por um lado, uma relação de pessoa a pessoa regida pela imitação dos modelos contemporâneos ; por outro , uma nova temporalidade legítima, o 'presente social'', que ilustra o mais exatamente possível a divisa das eras da moda : ''quanto mais novo melhor''. Nos tempos em que a moda domina, os ''momentos atuais'' e suas ''virtualidades'' magnetizam as consciências até convertê-las em política. Passa-se a venerar então a mudança permanente, como signo de prestígio, e a releitura de nossa herança cultural converte tudo em magma . O racional transmuta-se em pós-racional, que não é irracional nem pré-racional, mas intuitivo nas mais altas esferas do intelecto. Tarde enfatizou que a moda era, por isso, bem mais do que uma instituição frívola: antes de ser um ''conteúdo'' passível de ser explicado pela sociedade, a moda era antes uma estrutura da vida coletiva. A economia, a cultura, o sentido e a existência cotidiana encontram-se regulados pelo efêmero e pela sedução, hierarquizados de acordo com o grau de influência que cada pessoa é capaz de exercer sobre outras. Com a moda consumada operou-se uma mutação telepática capital no eixo do tempo e da sociabilidade, uma reviravolta completa na composição das forças que integram a sociedade. E à medida que acorrente da moda segue englobando esferas cada vez mais amplas da vida coletiva, o reinado daquilo que se pretendia burguesamente estabelecido se eclipsa, velhos monopólios de paradigmas vão sendo arrastados para o esgoto, e qualquer tentativa de oferecer resistência à esse processo, seja por parte de poderes políticos, econômicos ou midiáticos, rapidamente depara-se com um Legislador implacável e sem limites, capaz de neutralizar , de forma instantânea, qualquer contradição.
K.M.
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