http://gazetarussa.com.br/economia/2016/12/29/boas-perspectivas-levam-investidores-estrangeiros-de-volta-ao-mercado-russo_671563
29 de dezembro de 2016 VITÁLI GAIDAEV, GAZETA RUSSA
Montante recorde de investimento de fora foi registrado em 2016, superando todos os índices desde 2010. Expectativa de aproximação EUA-Rússia com posse de Trump e possível fim de sanções aumenta ainda mais influxo de capital externo.
Os investidores internacionais vêm aumentando os investimentos no mercado de ações russo desde o início de novembro.
De acordo com o Citibank (que baseou seus cálculo na consultoria Emerging Portfolio Fund Research), o montante de investimento estrangeiro em ações russas na semana que terminou em 22 de dezembro foi de 120 milhões de dólares.
Desde o início do ano o influxo de investimento estrangeiro em ações russas ultrapassou os US$ 727 milhões. Este é o primeiro resultado anual positivo desde 2012 (quando país recebeu US$ 410 mi em investimento estrangeiro) e o melhor balanço desde 2010 (US$ 3,3 bi).
Levando em conta as estimativas do jornal russo “Kommersant”, que também se baseia nos dados do Emerging Portfolio Fund, os investidores estrangeiros injetaram cerca de US$ 1 bilhão em mercados emergentes, incluindo a Rússia, em 2016.
A retomada de interesse dos investimentos de portfólio estrangeiros no mercado russo elevou os índices das ações nacionais no final do ano para um máximo histórico.
No início de 2016, o índice do mercado de ações estava em 23,7%. De acordo com a Bloomberg, em dólares, esse índice aumentou em 47% e apresentou um dos melhores resultados entre os índices de ações em países desenvolvidos e em desenvolvimento. Apenas os índices do Brasil, do Cazaquistão e do Peru cresceram mais – de 59 a 63%.
Vitória de Trump aumentou investimentos na Rússia
A decisão histórica da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) em novembro de limitar a produção de petróleo e o resultado inesperado das eleições presidenciais norte-americanas tiveram um efeito positivo nas ações russas.
Ainda de acordo com a Emerging Portfolio Fund Research, nas seis semanas após a vitória de Donald Trump, os estrangeiros investiram quase US$ 1,3 bilhão no país, compensando, assim, a fuga de investimentos nos dois anos e meio anteriores.
“As sanções e os baixos preços do petróleo pressionaram o mercado russo em 2014 e 2015”, diz Farit Zakirov, gerente de portfólio do Trinfico Group.
“Mas, com a possível reconciliação entre a Rússia e os EUA depois da vitória de Trump e o fortalecimento dos preços do petróleo, a margem de competição entre o mercado russo e a de outros países emergentes nos últimos anos diminuiu.”
Os participantes do mercado estimam ainda que o fluxo de entrada de investimento estrangeiro na Rússia continuará no início de 2017.
De acordo com Christian Gattiker, diretor do departamento de análise do Julius Baer Bank, as sanções americanas deverão ser eliminadas já em março de 2017, e isso criará espaço para reduzir desavenças.
“Há muitos fundos ocidentais quem por causa das sanções, não podem comprar ações de empresas russas, embora queiram muito”, explica.
Quase todo mundo agora quer se aproximar da Rússia. Eis o resumo da confiança dos investidores nas economias em desenvolvimento da Europa, do Oriente Médio e da África. As projeções dos administradores de recursos para 2017 se focam me mercados onde o clima político está cada vez melhor e os ativos são menos vulneráveis achoques externos produzidos pela alta do custo do crédito nos Estados Unidos. O UBS GROUP diz que o rublo oferecerá a melhor oportunidade de ''carry trade'' ----- estratégia que consiste em tomar dinheiro em moeda estrangeira e aplicar em um país onde os juros são mais altos ---- da EMEA (Europa, O.Médio e África ) nos próximos 12 meses, com um possível retorno de 26% . Taxas de juros altas e uma recuperação do petróleo moverão a apreciação da moeda .A NN Investment Partners tbm vê o mercado acionário russo como candidato óbvio. Uma alta dos preços do petróleo, um fortalecimento do rublo e uma redução da inflação deveriam encorajar o Banco Central russo a flexibilizar a política monetária . Apenas credores na Rússia parecem ainda estagnados. A estabilidade cada vez maior beneficiará a dívida russa, que certamente tirará algum proveito de um melhor relacionamento com os Estados Unidos.
https://espacoeconomia.revues.org/1382
O interesse norte-americano pelo gás e energia da Eurásia3 fez desta região o eixo geopolítico mundial, por ser considerada, sob o ponto de vista econômico, a mais produtiva e mais avançada do mundo. Na Eurásia, “viviam 75% da população mundial e estavam depositadas ¾ das fontes de energia conhecidas em todo o mundo” (BANDEIRA, 2008, p. 11). O autor continua indicando que, com a queda da União Soviética, a partir de 1989, perdendo o domínio sobre o Leste Europeu, o Báltico e a Ásia Central, abriu-se um vácuo político que os EUA ocuparam. Uma queda celebrada por Fukuyama em um artigo de 1989 (posteriormente retomado em Fukuyama, 1992, p. 11) como “legitimidade da democracia liberal como sistema de governo, à medida que ele conquistava ideologias rivais como a monarquia hereditária, o fascismo e, mais recentemente, o comunismo”. Bandeira (2008) e Wallerstein (2002) partilham a ideia de que a Grande Depressão de 1930 e o fim da Guerra Fria endossaram múltiplas vantagens para os EUA: i) possibilitaram o controle das maiores fontes de energia, gás e petróleo; ii) permitiram a ocupação, através das alianças militares, dos estados emergentes saídos dos escombros da União Soviética; iii) possibilitaram diligências para ocupar o Afeganistão e o Iraque; iv) impediram a militarização da União Européia fora da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)4; v) impediram a remilitarização do Japão e da Rússia e desencorajaram qualquer desafio à sua preponderância ou tentativa de reverter a ordem econômica e política internacional por eles (EUA) estabelecida.
9Assim, para Bandeira (2008), a primeira missão política e militar dos EUA após a Guerra Fria consiste em impedir o surgimento de algum poder rival a ele, seja a partir da Europa, da Ásia ou mesmo da extinta União Soviética. A estratégia geopolítica norte-americana orienta-se por três grandes imperativos que são “impedir a coalizão e preservar a dependência dos vassalos mais poderosos em questões de segurança, manter a submissão e a obediência das nações tributárias e prevenir a unificação dos bárbaros” (PANITCH e GINDIN, 2004, p. 20).
10Todavia, Wallerstein (2002) não vê nenhuma vitória do capitalismo sobre o socialismo, mas sim, uma fase de transição do liberalismo para o pós-liberalismo. Deste modo, 1990 representa o fim do imperialismo norte-americano (1945-1990), uma visão que tem ganhado maior visibilidade desde 2001, quando o Grupo Econômico Goldman Sachs cunhou o acrônimo BRICs para fazer referência aos maiores mercados econômicos emergentes. Para caracterizar a era do imperialismo norte-americano, 60% das pessoas entrevistadas por Hobsbawn (1995, pp. 11-12) aplicaram uma das seguintes expressões: “[…] era o mais terrível da história; terríveis acontecimentos; massacres e guerras; século de opressão; mais violento da história; catástrofes e tragédias; […]”. Essa experiência de terríveis acontecimentos gerou um sentimento anti-americano, sobretudo com a invasão ao Iraque em 2003, mesmo junto aos tradicionais aliados.
1 O termo foi inicialmente criado como um acrônimo – BRIC – diretamente relacionado ao nome dos países emergentes Brasil, Rússia, Índia e China, cujo agrupamento efetivo, na forma de uma associação informal, foi oficializado em 2006. Desde a criação do termo, tais países, como conjunto, passaram a ser referidos como “os BRICs”, a letra s minúscula apenas designando a passagem do termo para o plural. Com a agregação da África do Sul, em 2011, a letra S, em maiúsculo, relacionada à grafia em língua inglesa do nome desse país (South Africa), foi incorporada ao termo, cuja grafia passa a ser BRICS.
2 Como exposto anteriormente, a literatura conceitual sobre a sigla BRICS toma a associação das letras iniciais dos cinco países (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) para designar os mercados econômicos emergentes. Todavia, tal nomenclatura varia de autor para autor. Lima e Hirst (2009), por exemplo, lançam uma infinidade de termos para definir esses países, como, por exemplo, potências médias; países intermediários; potências regionais e emergentes. Esses termos pretendem, na verdade, expressar algo de econômico que diferencia esses países dos demais.
3 Território que se estende entre Europa e Ásia, especificamente situado entre Ásia Central e Mar Cáspio, abrangendo de acordo com Bandeira (2008) Cazaquistão, Armênia, Azerbaijão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão, Sibéria Ocidental e parte setentrional do Paquistão, e é circundada pelo Afeganistão, Rússia, China, Índia e Irão.
4 O Tratado do Atlântico Norte, deu origem à OTAN (NATO), assinado em Washington, DC em abril de 1949, e composto inicialmente por doze países, que são: Estados Unidos da América, Bélgica Canadá, Dinamarca, França, Islândia, Itália, Portugal, Reino Unido, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos. Mais tarde aderiram países como Bulgária, Alemanha, Eslováquia, Eslovênia, Hungria, Grécia, Estônia, Espanha, Turquia, Romênia, Letônia, Lituânia, Polônia e República Checa.
5 Cuja posição mundial em termos de PIB era no período de 2001 a 2008, de acordo com Gonçalves (2010): China, Rússia, Brasil, Índia e África do sul 3°, 8°, 10°, 12° e 32° lugares, respectivamente.
http://gazetarussa.com.br/economia/2016/12/21/russia-supera-china-em-ranking-mundial-de-estabilidade_664623
21 de dezembro de 2016 ALEKSÊI LOSSAN, GAZETA RUSSA
Indicadores fiscais contribuíram para posição de Moscou em pesquisa do Bank of America envolvendo países emergentes. Brasil figura em 8º lugar na lista.
A Rússia ficou em segundo lugar na classificação das economias emergentes mais estáveis divulgada recentemente pelo Bank of America Merrill Lynch, perdendo apenas para Coreia do Sul. Pequim segue logo atrás de Moscou, na 3ª posição.
De acordo com o banco, embora demonstre fraco crescimento econômico, a Rússia possui alguns indicadores fiscais mais estáveis do mundo.
“A China permanece entre os cinco primeiros em crescimento do PIB, mas perdeu terreno nos indicadores de dívida pública e privada, crédito em conta corrente e adequação de reservas”, explicou o estrategista do Bank of America, David Hauner.
Ainda segundo os autores, a Rússia retorna com sucesso ao ranking após sua economia ter sofrido com a queda dos preços do petróleo em 2014.
O ranking leva em conta diversos indicadores de estabilidade, desde crescimento econômico a inflação e arrecadação de impostos.
A China, que caiu para o terceiro lugar, é seguida no ranking por Índia, Indonésia, Polônia, México, Brasil, Turquia e África do Sul (que manteve o último lugar na lista por causa de “estagflação, déficits gêmeos e alto índice de dívida entre setores”).
Motor industrial
De acordo com os dados divulgados pelo Ministério da Indústria e Comércio russo, a produção industrial no país deve terminar o ano com um saldo positivo simbólico.
Além disso, a produção industrial entre janeiro e outubro de 2016 cresceu 0,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Pelas previsões oficiais, esse crescimento aumentará de 0,4% em 2016 para 1,1% em 2017, 1,7% em 2018 e 2,1% em 2019.
“Considerando as sondagens entre gerentes corporativos, a atividade de negócios na indústria russa em novembro se mostrou a mais alta dos últimos cinco anos”, diz Serguêi Tsukhlo, chefe do departamento de pesquisas de negócios do Instituto Gaidar de Política Econômica.
Escalada nos rankings
Segundo os analistas, o avanço da Rússia do 51º para o 40º lugar no recente ranking Doing Business, do Banco Mundial (que classifica a facilidade de fazer negócios em 190 países), também aponta para uma melhoria no clima de negócios do país.
“Este é um acontecimento bastante significativo, tanto para os negócios russos como para a economia como um todo. A classificação russa é melhor do que a dos outros Brics, embora ainda esteja longe dos líderes”, diz Timur Nigmatullin, analista financeiro da consultoria investimentos Finam, em Moscou.
“Além disso, a Rússia ficou entre os cinco primeiros países em termos de reformas, o que afetou sua classificação no ranking do Banco Mundial”, acrescenta Nigmatullin.
Entre os pontos fortes de Moscou estão a facilidade de obtenção de ligação à rede elétrica, registro de propriedades e execução de contratos.
As classificações mais altas obtidas recentemente poderão ter impacto positivo na atração de investimentos, compensando a queda gerada por tensões políticas com o Ocidente, acredita o analista da Finam.
A tendência vem sendo intensificada pelos esforços assumidos pelas autoridades russas para melhorar a posição do país nos estudos internacionais, incluindo a redução de processos burocráticos, sugere Serguêi Khestanov, consultor de macroeconomia para a empresa de corretagem Otkrytie Broker, em Moscou.
“Com o tempo, o progresso consistente nessa área levará a Rússia para as posições de liderança, mas, para tanto, o ainda há muito a ser feito”, diz.
Apesar de tudo, Alsop era uma pessoa agradável . A expressão do seu rosto , típico da Nova Inglaterra, embora um pouco mais obscuro, constantemente sugeria que ele se livrara de tudo o que era supérfluo na vida e concentrara-se apenas no poder ; que se tratava de um homem que já vira todas as misérias e grandezas do século sem pestanejar ou suspirar , habilitando-se assim a penetrar em reinos mais profundos de pensamento a que quase ninguém tem acesso. Dava a impressão de realmente ter passado pelo ordálio anglo-saxão, e superado todo tipo de privações iniciáticas, vindo a aceitar corajosamente todas as responsabilidades envolvidas na posse dos ''grandes dons''. Aristocrata anglo-saxão até a medula, mas também mundano , duro, frio, obstinado, dando sempre a impressão de considerar-se um homem do destino ---- algum estilo americano aqui, devemos acrescentar . Segundo testemunhas, Alsop adorava contar histórias emociantes sobre suas experiências na China. '' Como sobre a 'Tina' de T´ang'' (ele dizia) '' Renovar: JIH ; HSIN ; Mais aquele olho luminoso: CHIEN ''. E contava tbm deliciosas pilhérias sobre senadores de Washington ; discorria sobre mobiliário do século XVIII com grande desenvoltura e erudição, mais antiguidades chinesas, arqueologia grega, filologia alemã e, claro, filosofia e literatura. Mas passava sem nenhum esforço da mais alta cultura para a gíria de GI. E era, nitidamente, bem mais do que um mero colunista sindicalizado. Via sempre o destino das nações numa perspectiva grandiosa, de uma luta cósmica entre o Bem e o Mal , do papel da América no século XX e de sua própria participação nos acontecimentos históricos. De um encontro com ele, qualquer um saía sentindo que Alsop até que carregava seu poder modestamente, porque havia poder demais envolvido e ele podia vir a ser usado de maneira arrasadora . Meu Deus: como esses homens (os ''Do Destino'' ) implicam com as pessoas (!) Aquela maldita ''Carta ao caro Amós'' falava de ''flagrantes intromissões estrangeiras '' e em ''intervenções premeditadas'' por parte de Israel nos assuntos internos dos Estados Unidos, criando terríveis dificuldades para Kissinger no Congresso, pressões dos amigos de Israel ---- e tais amigos não poderiam mesmo deixar de ser judeus americanos. Nessas ocasiões é que Alsop parecia-se um pouco com o General Brown do Estado -Maior conjunto e com Ernest Bevin em seus piores ataques megalomaníacos de anti-sionismo . Ben Gurion sempre teve o cuidado de distinguir entre anti-sionismo e anti-semitismo ; ninguém tinha Gurion na conta de anti-semita. O fato de que Israel ainda dependa dos Estados Unidos salta aos olhos ainda hoje. Ora: porque então um especialista em política internacional se sentiria tão tentado a tornar cruelmente explícito o que toda a gente podia ver com os próprios olhos ??????
K.M.
Eduardo Viveiros de Castro
C'est en intensité qu' il faut tout interpréter
G. Deleuze & F. Guattari, L'Anti-dipe
Para a minha geração, o nome de Gilles Deleuze evoca de pronto a mudança de orientação no pensamento que marcou os anos em torno de 1968, durante os quais alguns elementos-chave de nossa presente apercepção cultural foram inventados1. O significado, as conseqüências e a própria realidade dessa mudança são objeto de uma controvérsia que ainda grassa. Para os servidores espirituais da ordem, aquelas muitas "petites mains" que trabalham pela Maioria2, a mudança representou sobretudo algo de que foi e continua a ser preciso proteger as gerações futuras – os protetores de hoje tendo sido os protegidos de ontem e vice-versa e assim por diante –, difundindo a convicção de que o evento-68 se consumiu sem se consumar, ou seja, que na verdade nada aconteceu. A verdadeira revolução se fez contra o evento e foi ganha pela razão (para usarmos o eufemismo de praxe), força que firmou o Império como a máquina planetária em cujas entranhas realiza-se a união mística do Capital com a Terra – a "globalização" – e a sua transfiguração gloriosa em Noosfera – a "economia da informação", ou "capitalismo cognitivo". (Se o capital não está sempre com a razão, dir-se-ia que a razão está sempre com o capital.) Para muitos outros, ao contrário, os inservíveis que não conseguiram não escolher uma trajetória minoritária, insistindo romanticamente (para usarmos o insulto de praxe) que um outro mundo é possível, a propagação da peste neoliberal e a consolidação tecnopolítica das sociedades de controle só poderão ser enfrentadas se continuarmos capazes de conectar com os fluxos de desejo que subiram à superfície por um brilhante e fugaz momento; já lá vão quase quarenta anos. Para esses outros, o evento puro que foi 68 ainda não terminou, e ao mesmo tempo talvez nem sequer tenha começado, inscrito como parece estar em uma espécie de futuro do subjuntivo histórico.3
Gostaria de me incluir, com ou sem razão, entre esses outros. Por isso, diria a mesma coisa da influência de Deleuze e de seu parceiro Félix Guattari, autores da obra mais radicalmente consistente, do ponto de vista conceitual, e mais consistentemente radical, do ponto de vista político, produzida na filosofia da segunda metade do século XX: que essa influência está longe de ter atualizado todo o seu potencial. A presença dos conceitos deleuzianos (e deleuzo-guattarianos) em certas disciplinas ou campos de investigação contemporâneos é, com efeito, bem menos evidente ou direta do que se deveria esperar, manifestando-se ali antes por meio de seus efeitos sistêmicos difusos no ambiente cultural das últimas décadas. Uma disciplina em que essa presença ainda se mostra demasiado tímida é aquela que pratico, a antropologia social.
A relevância para a antropologia da obra de Deleuze e Guattari é no mínimo tão grande quanto a de pensadores como Michel Foucault ou Jacques Derrida, cujos trabalhos já foram extensivamente absorvidos (ainda que freqüentemente mal entendidos) pelo que poderíamos chamar de contracorrentes dominantes do pensamento social contemporâneo, na antropologia inclusive; contracorrentes que, note-se, não correm na França. As relações entre antropologia e filosofia se intensificaram sobremaneira no último quartel do século passado, mas o processo se desenrolou essencialmente na academia anglo-saxã, na qual a antropologia, como outras humanities, tem se mostrado muito mais aberta à "filosofia continental" que a antropologia francesa ela própria. A analítica existencial de Heidegger, a fenomenologia da corporalidade de Merleau-Ponty, a microfísica do poder de Foucault e o método da desconstrução de Derrida vieram se somar, nos anos 1980 e 1990, aos ventos continentais que já sopravam na década de 1970, responsáveis pela popularidade, na antropologia americana e britânica, de diferentes sabores do marxismo velho-europeu – uma sucessão de influências que podem ser vistas, aliás, como reações imunológicas ao estruturalismo lévi-straussiano, a ameaça continental dominante na década de 1960. Na Velha Europa, em particular na França, as relações entre antropologia e filosofia foram-se esgarçando no mesmo passo em que o estruturalismo perdia seu ímpeto paradigmático, ou foram sendo reconfiguradas em bases antes pré- que pós-estruturalistas4. O pós-estruturalismo filosófico, a "French theory" por excelência5, teve pouco efeito sobre a antropologia feita naquele país, enquanto foi, ao contrário, o principal responsável pela aproximação entre as duas disciplinas nos países de língua inglesa (não sem reações violentas, é claro, da parte – de boa parte – do cardinalato epistêmico nativo).
Um curioso entrecruzamento, pois: a melhor antropologia anglo-saxã atual faz amplo uso da filosofia francesa oriunda de 68, enxertando-a de modo inventivo no arraigado habitus empiriopragmatista indígena; a antropologia francesa, em troca – com as exceções de praxe, a mais notável sendo a de Bruno Latour, cuja condição de antropólogo é, talvez por isso mesmo, localmente questionada –, mostra ao contrário sinais de franca reabsorção por seu substrato geológico durkheimiano, o que não a impede (impossible n'est pas français) de andar estudando propostas de casamento com diversas filiais locais da tradição analítica e logicista hegemônica no mundo anglo, que conhece uma expansão, na França de hoje, tão rápida e inexplicável como a da rede McDonald's.
A novidade da filosofia de Deleuze foi logo percebida pelas múltiplas políticas contraculturais que emergiram de 68, pela arte experimental e pelos movimentos de minorias, em particular por algumas correntes do mais importante de todos eles, o feminismo. Não muito mais tarde, ela foi incorporada ao repertório conceitual de novos projetos estratégicos de antropologia simétrico-reflexiva, como os science studies, e foi reivindicada por algumas disquisições influentes sobre a dinâmica do capitalismo tardio. Em contrapartida, as tentativas de articulação entre a antropologia social clássica (o estudo dos sujeitos e objetos minoritários, em todos os sentidos dessas três palavras) e os conceitos deleuzianos ainda são relativamente raras, e quase sempre tímidas, ao contrário do que se poderia esperar. Afinal, o díptico Capitalismo e esquizofrenia6 apóia muitos de seus argumentos em uma vasta bibliografia sobre povos não-ocidentais, dos Guayaki aos Kachin e dos Nuer aos mongóis, desenvolvendo a partir dela teses ricas em implicações antropológicas – ricas demais, talvez, para certas constituições teóricas mais delicadas. Por outro lado, o trabalho de alguns dos antropólogos mais inovadores nas últimas duas décadas, como Roy Wagner, Marilyn Strathern ou Bruno Latour, mostra conexões muito sugestivas, que ainda não creio tenham sido registradas, com as idéias de Deleuze; conexões que ainda não foram, sobretudo, conectadas entre si. No caso de Wagner, elas parecem ser puramente virtuais, fruto de uma "evolução aparalela" (no sentido de Deleuze) ou uma "invenção" (no sentido de Wagner) independente; nem por isso são menos reais, ou menos surpreendentes. Em Strathern, as conexões são parciais (et pour cause)7, ou indiretas; mas a antropóloga de Cambridge compartilha com Deleuze uma teia de termos conceitualmente densos, como multiplicidade, perspectiva, dividual, fractalidade. Sob diversos aspectos, Strathern é o antropólogo mais "molecularmente" deleuziano, dentre os três citados. No caso de Latour, as conexões são atuais e explícitas, "molares", constituindo um dos alicerces da infra-estrutura teórica deste pensador; ao mesmo tempo, há porções significativas da obra de Latour alheias ao espírito da filosofia deleuziana.8
Não é acidental que os três antropólogos acima estejam entre os poucos que poderiam ser rotulados de pós-estruturalistas (antes que, por exemplo, de pós-modernos) com alguma propriedade. Eles assimilaram o que havia de novo no estruturalismo e seguiram adiante, em vez de, como tantos de seus colegas, embarcar em projetos teóricos francamente retrógrados, como o pseudo-imanentismo sentimental dos mundos vividos, das moradas existenciais e das práticas incorporadas, ou a truculência macho-positivista de Teorias de Tudo, tais o sociologismo bourdivino, o cognitivismo high-tech ou a psicologia evolucionária. Da mesma forma, o pensamento de Deleuze, desde pelo menos os dois livros decisivos de 1968 e 1969, Diferença e repetição e Lógica do sentido, pode ser visto como um projeto de desterritorialização sistemática do estruturalismo, movimento de que Deleuze extraiu as intuições mais originais, para com a ajuda delas partir em outras direções9. Esses dois livros, com efeito, marcam ao mesmo tempo a expressão mais sofisticada do estruturalismo filosófico e sua mais ousada radicalização, sua torção teórica até um ponto de ruptura. Tal ruptura se tornará explícita com o Anti-Édipo, livro que foi um dos principais eixos de cristalização de um pós-estruturalismo em sentido próprio, isto é, um estilo de pensamento que se desenvolveu como magnificação dos aspectos mais inovadores do estruturalismo em relação ao que "vinha antes", mas também como abandono (muitas vezes barulhento) de seus aspectos mais conservadores.10
O antropólogo que decide ler ou reler Deleuze e Guattari, depois de anos de imersão na literatura de sua própria disciplina, não pode deixar de experimentar uma curiosa sensação, como um déjà vu às avessas: já vi isso escrito depois
Muitas das perspectivas teóricas e técnicas descritivas que apenas recentemente, na antropologia, começaram a perder seu perfume de escândalo "fazem rizoma" poderosamente com os textos deleuzo-guattarianos de quinze ou vinte anos antes11. Para situar com precisão o valor antropológico destes textos, seria preciso descrever em detalhe a constelação de forças em que a antropologia social se vê hoje implicada, algo que ultrapassa o âmbito de minha competência. Se quisermos ser genéricos, entretanto, não é difícil assinalar a participação de Deleuze na sedimentação de uma certa estética conceitual contemporânea. Essa nova estética pode ser caracterizada com o auxílio do vocabulário binário do estruturalismo, até porque ela é uma resposta a esta outra estética, ou melhor, é uma reproblematização interna dela. Assim, observa-se já há algum tempo um deslocamento do foco de interesse, nas ciências humanas, para processos semióticos como a metonímia, a indicialidade e a literalidade – três modos de recusar a metáfora e a representação (a metáfora como essência da representação), de privilegiar a pragmática sobre a semântica, e de valorizar a parataxe sobre a sintaxe (a coordenação sobre a subordinação). A "virada lingüística" que, no século passado, foi o foco virtual de convergência de temperamentos, projetos e sistemas filosóficos tão diversos, parece estar começando a virar para outros lados, para longe da lingüística e, até certo ponto, da linguagem enquanto macroparadigma antropológico: as ênfases acima sugeridas mostram como as linhas de escape da linguagem como modelo foram sendo divisadas de dentro mesmo do modelo da linguagem.
Dito de outra forma, o antigo postulado da descontinuidade ontológica entre o signo e o referente, a linguagem e o mundo, que garantia a realidade da primeira e a inteligibilidade do segundo e vice-versa, e que serviu de fundamento e pretexto para tantas outras descontinuidades e exclusões – entre mito e filosofia, magia e ciência, primitivos e civilizados – parece estar em via de se tornar metafisicamente obsoleto; é por aqui que estamos deixando de ser, ou melhor, que estamos jamais-tendo-sido modernos. Do lado do "mundo" (um lado que não tem mais outro lado, pois que agora feito ele próprio apenas de lados), a mudança de ênfase correspondente veio privilegiar o fracionário-fractal e o diferencial em detrimento do unitário-inteiro e do combinatório, as multiplicidades planas ali onde se valorizavam as totalidades hierárquicas, a conexão transcategorial de elementos heterogêneos mais que a correspondência entre séries internamente homogêneas, a continuidade (ondulatória ou topológica) das forças antes que a descontinuidade (corpuscular ou geométrica) das formas. "Eis o que gostaríamos de dizer: um cromatismo generalizado [
]"12. A descontinuidade massiva (molar) entre as duas séries internamente homogêneas do significante e do significado, por um lado – elas mesmas em descontinuidade estrutural –, e a série fenomenologicamente contínua do real, por outro, desmancha-se em descontinuidades moleculares ou fractais, em auto-similaridades transeriais que potenciam a diferença e a revelam como variação contínua – ou, antes, que revelam a continuidade como intrinsecamente diferencial e heterogênea (distinção entre as idéias de contínuo e de indiferenciado). Uma ontologia "plana" e uma correspondente epistemologia "simétrica" ; o colapso, na verdade, da distinção entre epistemologia (linguagem) e ontologia (mundo), e a progressiva emergência de uma "ontologia prática"13, dentro da qual o conhecer não é mais um modo de representar o (des)conhecido mas de interagir com ele, isto é, um modo de criar antes que um modo de contemplar, de refletir ou de comunicar14. A tarefa do conhecimento deixa de ser a de unificar o diverso sob a representação, passando a ser a de "multiplicar o número de agências que povoam o mundo" (Latour). Os harmônicos deleuzianos são audíveis. Uma nova imagem do pensamento. Nomadologia. Multinaturalismo.15
O presente artigo pretende explorar um setor muito limitado dessa estética conceitual . A título de exemplo mais que qualquer outra coisa, ele sugere duas direções para o aprofundamento de um diálogo possível entre Deleuze e a antropologia. Nesta primeira parte, o artigo traça alguns paralelos esquemáticos entre conceitos deleuzianos e temas analíticos influentes na antropologia de hoje; na segunda, examina uma incidência específica da antropologia social clássica – a teoria do parentesco – sobre a concepção deleuzo-guattariana da máquina territorial primitiva, ou semiótica pré-significante.
[1] A fração da humanidade determinada pelo pronome "nossa" (apercepção cultural) é aquela que se imagina.
[2] P. Pignarre e I. Stengers. La sorcellerie capitaliste. Pratiques de desenvoûtement. Paris: La Découverte, 2005, pp. 49-53. [ Links ]
[3] G. Deleuze e F. Guattari, "Mai 68 n'a pas eu lieu". In: D. Lapoujade (org.). Deux régimes de fous. Textes et entretiens 1975-1995. Paris: Minuit, 1984, pp. 214-20. [ Links ]Para uma reflexão de inspiração deleuziana sobre o projeto altermundialista, ver o trabalho já citado de P. Pignarre e I. Stengers, 2005.
[4] D. Eribon: "Este refluxo do estruturalismo foi acompanhado de um retorno às formas mais tradicionais de filosofia
"; C. Lévi-Strauss: "Os dois fenômenos estão ligados" (apud P. Maniglier, "L' humanisme interminable de Claude Lévi-Strauss". Les Temps Modernes, 609, 2000, p. 216. [ Links ])
[5] F. Cusset. French theory. Foucault, Derrida, Deleuze & Cie er les mutations de la vie intelectuelle aux États-Unis. Paris: La Découverte, 2003. [ Links ]
[6] Doravante usaremos GD para as referências bibliográficas a Deleuze e DG para Deleuze & Guattari. As referências citadas neste artigo provêm dos textos originais; as traduções são de minha responsabilidade, exceto quando indicado. E para suas obras L'Anti-dipe. Capitalisme et schizophrénie. Paris: Minuit, 1972, [ Links ]usaremos AE, e MP para Milles plateaux. Capitalisme et schizophrénie. Paris: Minuit, 1981. [ Links ]
[7] M. Strathern. Partial connections. Savage, Md.: Rowman and Littlefield, 1991. [ Links ]
[8] B. Latour já indicou a importância do Anti-Édipo para sua formação; o filosófo que lhe é mais próximo é, porém, Michel Serres, cuja obra intersecta aliás em vários pontos a de Deleuze. Wagner (que é americano) e Strathern (que é britânica), cujos trabalhos estão diretamente relacionados, são antropólogos "clássicos", especialistas na Melanésia; ambos também escreveram textos importantes sobre a tradição cultural ocidental, e Strathern publicou análises enormemente influentes das práticas de conhecimento ocidentais, em particular daquelas associadas ao parentesco. O francês Latour, como se sabe, é tudo menos um antropólogo clássico, pela razão mesma que seu trabalho reproblematizou o escopo da antropologia, ao incorporar as ciências – e portanto as condições perspectivas de possibilidade da antropologia – no rol dos objetos possíveis de uma etnografia "clássica".
[9] D. Lapoujade. "Le structuralisme dissident de Deleuze". In A. Akay (org.). Gilles Deleuze için / Pour Gilles Deleuze. Istambul: Akbank Sanat, pp. 27-36. [ Links ]
[10] Observe-se de passagem que se não o século, como previu Foucault, é pelo menos o estruturalismo que, em reavaliações recentes, parece estar se tornando deleuziano (o que é diferente de dizer que Deleuze está-se tornando estruturalista). Assim transparece, por exemplo, no minucioso e instigante comentário dos escritos de Saussure por Maniglier (La vie énigmatiques des signes. Saussure et la naissance du structuralisme. Paris: Léo Scheer, 2006). [ Links ]
[11] "Talvez esse sentimento de déjà vu seja também um sentimento de se habitar uma matriz cultural
" (M. Strathern, op. cit., p. 25). O leitor poderá conferir a pregnância de tal "matriz" – mas o termo deve ser tomado como prospectivo tanto ou mais que como retrospectivo – no belo Seis propostas para o próximo milênio: Lições americanas, de Italo Calvino (São Paulo: Companhia das Letras, 2001 [ [ Links ]1988]), cujas seis "propostas para o próximo milênio" incluem pelo menos três qualidades ou valores lógico-estéticos emblemáticas do pensamento deleuziano: "leveza", "rapidez", "multiplicidade" [
] E poderá voltar a Diferença e repetição para recordar que Deleuze via seu livro como expressão de um certo espírito da época, do qual o autor pretendia extrair todas as consequências filosóficas (GD. Différence et répétition. Paris: PUF, 1968, p. 1). [ Links ]
[12] MP, p. 123.
[13] M. DeLanda. Intensive science and virtual philosophy. Londres: Continuum, 2002; [ Links ]B. Latour. Nous n'avons jamais été modernes. Paris: La Découverte, 1991; [ Links ]C. B. Jensen. "A nonhumanist disposition: on performativity, practical ontology, and intervention". Configurations, 12, pp. 229-61, 2004. [ Links ]
[14] DG. Qu'est-ce que la philosophie? Paris: Minuit, 1991. [ Links ]
[15] A noção de uma ontologia plana remete à "univocidade do ser", tese medieval reciclada por Deleuze: "a univocidade é a síntese imediata do múltiplo. O um não se diz senão do múltiplo, ao invés de que este último se subordine ao um como ao gênero superior e comum capaz de englobá-lo" (F. Zourabichvili. Le vocabulaire de Deleuze. Paris: Ellipses, 2003, p. 82). [ Links ]O comentador prossegue: "O corolário desta síntese imediata do múltiplo é o desdobrar de todas as coisas sobre um plano comum de igualdade: 'comum' aqui não tem o sentido de uma identidade genérica, mas de uma comunicação transversal e sem hierarquia entre seres que simplesmente diferem. A medida (ou hierarquia) muda igualmente de sentido: ela não é mais a medida externa dos seres em relação a um padrão, mas a medida interior a cada ser em sua relação com seus próprios limites" (idem, pp. 82-3). A idéia de ontologia plana é extensamente comentada em DeLanda (op. cit.); ele a desenvolve em uma direção própria em DeLanda (A new philosophy of society: assemblage theory and social complexity. Londres: Continuum, 2006). [ Links ]Jensen (op. cit.) faz uma excelente análise das repercussões teórico-políticas (equivocadas ou não) dessas ontologias, especialmente para o caso de Latour. Este último, em seu recente Reassembling the social, insiste sobre o imperativo metodológico de "manter o social plano", próprio da "teoria do ator-rede", cujo outro nome, aliás, seria "ontologia do actante-rizoma" (Latour, 2005: 9). A análise conceitual própria a esta teoria (seu método de obviação, diria Wagner) consiste no desenglobamento hierárquico do socius de modo a liberar as diferenças intensivas que o atravessam e destotalizam – operação completamente diferente de uma rendição ao "individualismo", ao contrário do que clamam os retroprofetas do Velho Testamento holista.
Quando as negociações com o Egito e Israel chegaram no ponto morto, Mr. Kissinger, ciente das dificuldades de Rabin , sentiu-se burlado . O Presidente Ford ficou tão irritado que mandou aquela carta ao Premier. Alsop podia até ter seu ''horror'' ao hábito americano de tomar partido em disputas alheias, mas isso não o impediu de dizer ao Sr. Eiran : ''Numa questão de guerra ou de paz da maior importância para seus parceiros americanos, Israel havia permitido que sua política interna, manhosa ou corrupta , assumisse o controle . Foi isso , e só isso, que originou as dificuldades entre o vosso país e o meu ---- pelo menos do lado americano, que é o lado que representa perigo para vocês. É injusto, sem dúvida, mas dificuldades com os Estados Unidos podem se tornar fatais para Israel, enquanto que dificuldades com Israel não constituem uma ameaça séria para os Estados Unidos. Seria difícl para um observador político ----- e em Israel todos os cidadãos são observadores políticos ----- saber como entender uma coisa dessas . Alsop queria francamente dizer : ----- ''Coloquem a casa em ordem, disciplinem-se, menos estardalhaço, menos pose, NÃO AVANCEM O SINAL VERMELHO ''. Mas seriam tais ameaças realmente inspiradas pelo Secretário de Estado ?? ou pelo Presidente ?? Ou teria o próprio Alsop, cidadão privado americano, mas também homem público, por sua estatura, por considerar a si mesmo um gigante , chamado a si mesmo a tarefa de fazer estalar o chicote no melhor estilo circense de Toulouse Lautrec ?? ''Israel '' (prosseguia Alsop ) ''Não se adaptou ao fato de que as relações dos Estados Unidos com os países árabes mudaram muito. Essa adaptação é mais urgente do que nunca agora, a não ser que os Israelenses desejem dificuldades ainda maiores, não só com os Estados Unidos, mas com o próprio Universo. Mas ajustar-se à nova realidade, aos novos tempos, não implica ABSOLUTAMENTE em curvar-se invariavelmente às opiniões da Comunidade Internacional ou da América. Sempre haverá campo para discussões em profundidade ''Alsop fala aqui apenas do fato de Israel não ter sabido ''adaptar-se'' , não diz nada sobre o reconhecimento do Egito do direito de Israel existir. Nem menciona os esforços árabes para influenciar a política americana no Oriente Médio. Pois não existe ainda hoje boicote de companhias que têm negócios com Israel ?? Não se conhecem hoje tantos lobbystas árabes ?? Apesar de tudo, no livro ''The Secret Conversations of Henry Kissinger '' , de Matti Golan , o Secretário de Estado é acusado de duplicidade ao negociar um cessar-fogo com os russos que impediu os israelenses de destruírem dois exércitos egípcios, que já haviam encurralado . Parece que antes de voar para Moscou , no momento mais crítico da Guerra do Yom Kippur, Kissinger prometeu ao embaixador de Israel, S. Dinitz , negociar devagar com os russos, a fim de dar tempo a Israel para alcançar seus objetivos militares; mas, segundo o Sr. Golan , mal desembarcou , o cessar-fogo foi acertado, e o Presidente Nixon pediu à Golda Meir que anunciasse sua aceitação dos termos que Kissinger negociara sem consultas à ninguém . A Sra. Meir ficou ''chocada e furiosa '' Durante uma reunião do Gabinete, recebeu uma mensagem do Primeiro Ministro britânico insistindo para que aceitasse o cessar-fogo. ''Ela e os outros ministros compreenderam, então, que não só Kissinger não a consultara, mas que ele só dera-lhe parte do acordo após informar o Ministro do Exterior britânico ''. Israel sentiu-se profundamente insultado --- e até mesmo traído por Kissinger . Possivelmente os russos ameaçaram intervir. É improvável que tivessem permitido à Israel destruir dois exércitos egípcios e talvez tomar o Cairo. E que diabos Israel faria com o Cairo ?? Outra semana de uma guerra como aquela custaria à Israel alguns milhares de vidas a mais. O que em Kissinger era chamado de TRAIÇÃO, no entanto , em outro Secretário de Estado seria aceito,com um dar de ombros , como mera DIPLOMACIA ---- ou seja: uma das formas habituais da PERFÍDIA DIPLOMÁTICA.
K.M.
Sempre preparados para as crises e debaixo de fortes tensões , os israelenses sempre tiveram que enfrentar não só seus inimigos históricos ,mas também suas ''amizades difíceis''. Em dezembro de 1975 foi a vez de H. Kissinger, um judeu no Departamento de Estado. Mas hoje renunciarei à minha mágica ---- como o Próspero de Shakespeare ---- e jogarei meu escrito no mar dessa histórica relação diplomática . Mas Próspero tinha apenas uma pequena ilha da qual abrir mão , não eram os interesses globais e estratégicos de uma superpotência como Israel . Refiro-me à um incidente obscuro na história da relação diplomática EUA ---ISRAEL , derivada de um artigo de Joseph Alsop, publicado no The New York Times Magazine, no mesmo período, intitulada ''Carta aberta a um amigo israelense'' . O ''Caro Amós'' , a quem a carta é dirigida, era Amós Eiran , então diretor-geral do Escritório do Primeiro-Ministro e conselheiro político do mesmo . A Carta ao ''Caro Amós'' revela que Alsop não passou de político a rezador e que seu estado de espírito era então tão imperial quanto sempre , apesar de referir-se a si no artigo com uma dose razoável de modéstia. Apenas o ''amigo americano do Sr. Eiran : ''Qualquer americano tem sempre de pôr o interesse dos americanos em primeiro lugar (isso nos lembra algo?) Assim , tenho pensado muito na maneira pela qual Israel afeta os interesses americanos . Alguns efeitos tem sido adversos , o que é evidente, como na área das relações americanas com o mundo árabe . Todavia tais considerações mudam de figura, na minha opinião, quando se submete a relação Israel -Estados Unidos à prova de fogo . O resultado é sempre meio macabro . Dada a situação de perigo nacional de Israel, nós americanos temos sempre de pensar na maneira pela qual a destruição do país afetaria os Estados Unidos''. Alsop era obviamente um grande amigo de Israel. Não que o tenha sido desde o começo. No começo ele não era inteiramente favorável à existência de um Estado judeu na Palestina, mas mudou de opinião com os anos , e passou a mostrar-se cheio de admiração pelas virtudes militares dos israelenses. Apoiou os israelenses em muitas crises. E embora sua Carta ao Caro Amós fale com brutalidade na destruição de Israel, ele acrescenta : ''DEUS NOS DEFENDA (!) '' . E diz mais : diz que se isso acontecesse, disso resultaria : ''Um dilúvio de culpa e ódio e recriminações CAPAZ DE CORROER a própria estrutura de nossa sociedade. Por isso mesmo tenho sempre acreditado que nos cabe assegurar a sobrevivência de Israel, quando mais não fôra para assegurar a sobrevivência daqueles valores americanos que mais estimo . E dessa linha não recuo no que diz respeito ao seu país ''. Mas porque escreveria Alsop uma carta esquista dessas, alertando Israel para o perigo da destruição , lembrando-lhe que Israel possui ''UM SÓ PROTETOR'' . É simples: porque ''uma séria desavença surgiu entre Israel e os Estados Unidos. Entre outras coisas, Alsop estava chocado com ''A INGRATIDÃO DE ISRAEL PARA COM O SECRETÁRIO DE ESTADO HENRY KISSINGER'' . Alerto a leitora aqui que ninguém conhece melhor a vida e a personalidade do Sr. Kissinger do que o autor desta crônica . Obtendo um acordo com o Egito no deserto do Sinai, na mesma época, Kissinger obteve uma interrupção das hostilidades de que precisava Israel para ''voltar a respirar'' . E, no entanto, por toda parte, em Israel , Alsop encontrou provas , durante a primavera de 1976 , de uma ''CAMPANHA CONTRA KISSINGER'' .Uma alta personagem israelense chegou mesmo a dizer-lhe: ''Estaríamos melhor sem um judeu no Departamento de Estado '' . ''Um Congresso hostil ratificou a barganha conseguida por Kissinger no Sinai '' (continua Alsop) Israel não pode absolutamente contar com o apoio permanente da opinião pública americana, e isso é mais problemático do que parece. Até hoje é assim: a opinião, em certa altura, começa a voltar-se violentamente contra Israel, e a ter peso até mesmo no coeficiente eleitoral dos políticos americanos. Então todos começam a buscar meios de inverter o processo. Sempre foi assim... Quais são as causas dessas perigosas mudanças de atitude ?? Isso data justamente de uma ''obra de Henry Kissinger '', a chamada ''crise de março de 1975'' ; Kissinger não teria retomado sua diplomacia de vaivém entre Jerusalém e o Cairo, se não tivesse sido convidado a tentar de novo tanto pelo Egito quanto por Israel . E (segundo Alsop) teria ''recusado pôr o pé naquele Air Force One em março último se não acreditasse que , depois de um adequado regateio diplomático , o governo israelense acabaria por aceitar as exigências finais do Presidente Sadat para um acordo temporário ''. O Ministro Rabin (idem) ao demonstrar confiança em ''arrastar todo o gabinete consigo '' teria ''involuntariamente induzido em erro'' o Secretário de Estado Kissinger ---- o que levou o Presidente Ford a despachar-lhe uma violenta carta pessoal. Numa palavra: sem intenção de enganar, ao que tudo indica, Israel portara-se de maneira a enganar . Havia muita intriga no seio do Gabinete de Israel que não vinha a público. Um rival presumido de Rabin, ambicioso de suceder-lhe , tinha conhecimento , devido a sua posição, de que o Estado -Maior de Israel encarava a retirada dos desfiladeiros de Mitla e Gidi como militarmente aceitável. Pois justamente esse rival declarou depois que Rabin não podia ter feito tal concessão. Continua Alsop : ''Tenho horror do mal hábito americano de tomar partido em querelas políticas alheias, de modo que não vou identificar esse membro do Gabinete de Israel senão dizendo (por ser necessário) que ele controlava oito votos no Knesset ''.
K.M.
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-65782011000100011
Blanchot injured with fire
Daniel de Oliveira Gomes
Universidade Estadual do Centro Oeste Paraná - UNICENTRO - Brasil
RESUMO
O presente ensaio trabalha especificamente com a obra de um autor da filosofia e da literatura francesa pós-estruturalista, Maurice Blanchot. O artigo visa a produzir uma confabulação blanchotiana com a questão fascinante da fala, da literatura e dos sentidos do próprio autor, confessando um desespero e uma contaminação ardente e inevitável. Aproximando-o dos paradoxos do espaço literário, queremos demonstrar metodologicamente o hermetismo do autor e o modo com o qual ele sempre colocou a filosofia contra a própria filosofia. Até que ponto Blanchot veste uma infantilidade kafkiana em seu aberto compromisso com a escritura? Ler Blanchot só pode-se fazer ao gesto de um ferimento com fogo, a perda de memória que se sente ante a ameaça de um revolver carregado.
Palavras-chave: Blanchot. Memória. Kafka. Filosofia.
ABSTRACT
This essay deals specifically with Maurice Blanchot's philosophic and literary work. It aims to raise such a blachotianian confabulation into its fascinant question of word, literature and their meanings for Blanchot himself, avowing some flaming and unavoidable despair and contamination. At approaching Blanchot from these literary space paradoxes, we want to demonstrate methodologically the author's and the way by which he always has put philosophy against itself. We ask: At what point does Blanchot wears a kafkian infantility in his open commitment towards writing? So reading Blanchot is only possible with a sign like a fire-hurting, the loss of memory that one can feel under a gun pointed to his head.
Keywords: Blanchot. Memory. Kafka. Philosophy.
Introdução
Por falar em Blanchot Falar de Blanchot é falar "em" Blanchot1. Estar em Blanchot é compartilhar sua fala infinita. Falar de Blanchot é como ter um ovo nas mãos. Ferimento com fogo, ficção.
Para compreender essa brincadeira com fogo, no duplo sentido, de um fogo pacífico e belicoso que é o ato escritural de Blanchot, gostaria de entregar-me um pouco ao seu "fascínio da ausência de tempo"; ou seja, sem querer afirmar ou negar um rosto adulto, mas apenas deixando hoje que minha infância me abisme através da sobrevivência de Blanchot, neste ensaio. Assim, vou escrevendo um pequeno memorial caloroso, ou melhor, um pequeno fragmento de diário, que jamais será lido por mim, como que lançado ao fogo, feito para desaparecer, ao sabor de "chamas imaginárias" (termo de Bataille).
Quero escrever como devir, no reino da indecisão do suave começo, tal como Simone Curi apontou em Clarice Lispector ao descrever a imagem do ovo: o ovo é devir (...), a escrita é devir (...) (CURI, 2001, p. 149).
Blanchot infantil. Penso-o como uma criança apaixonada com um lança-chamas nas mãos. Vejo-o como um "infante". Super-homem, bélico, e, ao mesmo tempo, pequeno, quebradiço ovo... No entanto, não no sentido baudelairiano de flanêur, um mero observante do seu tempo, de uma moda de filosofia pós-estrutural, ovo depositado de anômalos literatos do vazio, Mallarmé, Valéry, Joyce, Joubert ou Proust. Vejo-o "infante", no sentido que Agamben associa a infância à experiência:Como infância do homem, a experiência é a simples diferença entre humano e linguístico. Que o homem não seja sempre já falante, que ele tenha sido e seja ainda in-fante, isto é a experiência (AGAMBEN, 2005).
Por vezes, este lança-chamas serve para "apagar" toda uma biblioteca anterior a ele mesmo. Somente um espírito ardentemente infantil poderia ter feito o que Blanchot fez, brincando sobre seu tempo, que é o mesmo feitio de Kafka. Ambos compartilham uma intimidade dilacerante, o mesmo ninho.
Blanchot brincando com fogo
E assim se faz, coisa possível apenas na execução de um canto, uma dança nietzschiana, mesmo que devotadamente desqualificado de tudo que já se fez, qual o personagem protagonista de Truffaut, no filme "Fahrenheit 451". Uma estranha paixão exaltada e desesperadamente nova e violenta. Blanchot é um infante, em desespero infantil, como Montag.
Ou quem sabe, por vezes, como a personagem vizinha de Montag, Senhora Blake, aquela que se ajoelhou entre os livros, de títulos dourados, encharcados de querosene no chão, e acusou Montag com o olhar. Senhora Blake, como uma garotinha indefesa ante o fogo, tinha visto bombearem o líquido que traziam em tanques de número 451 presos aos ombros, tal como Blanchot nos coloca na exata posição de desconfiança epistêmica de Montag. De algum modo, precisamos entender esta pessoa, este autor, esta senhora apaixonada que se sente pela ferida das coisas, dos livros que não podem chorar, pois...
Não se feria ninguém, apenas coisas! E uma vez que as coisas não sentiam nada, e coisas não gritam nem choram, como esta mulher poderia começar a gritar e a chorar, não havia nada para importunar sua consciência depois. Você está simplesmente limpando. Basicamente, um trabalho de faxina. Tudo em seu devido lugar. Rápido com a querosene! Quem está com os fósforos? (BRADBURY, 2009).
Blanchot não precisa que se escreva sobre ele. Se quisermos consumi-lo, atear-lhe fogo, em seus dedos já se encontrará girando com certo deboche um palito de fósforos. Eis esta loucura entre o fogo e os livros, a Babel blanchotiana a qual precisamos queimar criticamente, a valiosa biblioteca que precisamos consumir, o acervo infinito, de alguém ao lado. É quando surpreendentemente a pessoa mesma nos mostra que não precisa de nós, de nada, de ninguém além dos livros; ela mostra um acendedor, um simples fósforo de cozinha...
Abriu ligeiramente os dedos de uma mão e em sua palma estava um objeto fino. Um fósforo comum de cozinha. À vista dele os homens se precipitaram a sair e se afastar para longe da casa. O capitão Beatty, mantendo a dignidade recuou lentamente pela porta da frente, o rosto corado, queimado e reluzente após mil incêndios e emoções noturnas. Meu Deus, pensou Montag, é isso mesmo! O alarme sempre chega à noite. Nunca de dia! Será porque à noite o fogo é mais bonito? Mais espetacular, um programa melhor? A face rosada de Beatty à porta agora traía um princípio de pânico. A mulher girava nos dedos o palito de fósforo. Os vapores de querosene exalavam ao seu redor. Montag sentiu o livro escondido pulsar como um coração contra seu peito./ -Vá - Disse a mulher, e Montag se sentiu recuando cada vez mais para fora da porta, depois de Beatty, descendo os degraus, atravessando o gramado onde o rastro de querosene se estendia como a baba de uma lesma maligna. / Na varanda da frente, para onde viera avaliá-los calmamente com os olhos, a mulher parou imóvel; sua impassividade, uma condenação (BRADBURY, 2009).
E, como diria Flaubert, o fogo purifica tudo... Ao ouvir-se gritar 'fogo!' deve começarse por se perder a cabeça. (FLAUBERT, 1974, p.59).
"Chocar" Blanchot com Kafka
Como falar de um autor como Blanchot sem perder a cabeça, sem cair em desespero? O desespero como "doença mortal", visto que se não nos aparentamos desesperados, isto pode justamente significar que estamos em estado de desespero, dizia Kierkegard. Como falar desesperadamente de Blanchot, sem sobrevir na loucura e no desastre da filosofia contra a própria filosofia, tal como Blanchot afirmava a potência literária de Kafka contra a literatura?
Em A escritura do Desastre, podemos ler: Quando Kafka deixa entender a um amigo que ele escreve porque, de outra forma, tornar-se-ia louco, ele sabe que escrever é já loucura, é a sua loucura, espécie de vigília fora de consciência, insônia. Loucura contra loucura2.
E há uma glória motriz nesse desespero que presume o universo kafkiano. Blanchot disse alguém põe-se a escrever, determinado pelo desespero. Mas o desespero nada pode determinar (BLANCHOT, 1987, p.50). Acredito que a única fidelidade (infiel) possível sobre seu legado está em visualizá-lo, desesperadamente, como um guerreiro, uma criança.
Uma vez Georges Bataille perguntou se era preciso queimar Kafka (BATAILLE, 1989, p.129). Porque ele vislumbrava Kafka como um grande exemplo, porém, de modo muito provocativo, celebrando seu mestre, mas excitado e um tanto profanador. No caso-Blanchot, o perigo não está em perguntar o mesmo, e sim se seríamos antes qual Max Brod, um amigo cheio de escrúpulos, pronto para salvá-lo do sacrifício. Mas, assim mesmo, lancemos a mesma pergunta - a de Bataille sobre Kafka - contra Blanchot.
Pergunto-me se a impossibilidade de entender o ovo condiz com a impossibilidade autoral de ler a obra, conforme Blanchot... Sinto apenas sua superfície, na descrição de João Cabral de Melo Neto, a reserva que um ovo inspira (...) é a que se sente ante um revólver, e não se sente ante uma bala (CABRAL DE MELO NETO, 1995). O revólver e o ovo, a violência obscura da arma de fogo e a delicadeza mais "clara" do ovo, o infante soldado e o infante menino que parasita meus mestres...
O fascínio ameaçante que me afirma que devo recordar-me dignamente de minhas leituras de Blanchot, agir como a galinha: devo "chocar" responsavelmente interpretações blanchotianas no meu ninho de leituras, que me relembra algo no interminável silêncio de signos supernutritivos, sob o reino do fascínio.
É, também, o reino do ovo lido por Clarice Lispector: como o mundo, o ovo é obvio. Podemos afirmar, certamente, que a obviedade não é a característica maior da estilística de Blanchot, seja no campo da ficção ou da filosofia, porém, é sempre um texto poético, circular, e, para mim, oval.
Decifrar Blanchot: queimá-lo
Octávio Paz considerava o conceito de poesia como uma salvação e um abandono, uma oração e uma litania, ao mesmo tempo, poesia como um elemento distintivo no interior de uma obra que tem por função distingui-la de um utensílio, ou seja, fora de um esquema de superação (técnica). Blanchot, realmente, não tem fim. Não há começo.
No conceito de útil operado por Bataille, Blanchot não ingressaria no mundo luminoso das significações, da utilidade, mesmo que filosófica. Ele deve ser encarado antes como um profundo (e sempre superficial) poeta... Barthes nos explicou, algumas vezes, que o poeta clássico era o poeta que vivia o tempo da "arte de expressão" sobre o pensar, enquanto que o poeta moderno já se depara no tempo onde a sua realização não é mais uma obra imagética como um ornamento da prosa, e sim instalar o pensamento como efeito do discurso. Blanchot, por sua vez, estaria no tempo do fascínio imperfeito da infância. O fascínio, por exemplo, da ausência de tempo, da ausência de obra. Por isso falar de Blanchot é queimá-lo, ausentar-se pela alocução.
Entre o ovo e o revólver: ali vislumbro as chamas do infante. Em termos blanchotianos, a visão do escritor é a visão quase plena do fascínio, ou melhor, a visão do encantamento infantil -ovalado, ovulado -o momento em que tudo germina incessantemente. Por este motivo, o escritor não vai rumo a uma superação, uma segurança, a macropercepção, a linguagem para todos.
Quando o faz, apenas redescobre a ambiguidade da solidão interminável em que já não é o "eu" mesmo. Já Barthes, com seu revólver, está preocupado em afirmar a morte do autor, a mesma arma com a qual Nietzsche assassinou a Deus, e que Foucault assassinou o sujeito histórico tradicional. Barthes é um grito, Foucault é uma voz, já Blanchot é um silêncio.
Blanchot e a terapia do branco
Se pegássemos todos os coloridos amigos intelectuais, poetas, escritores, de Blanchot, e girásemos uns com os outros, teríamos o tom branco blanchotiano. Mas nesta roda de amigos, onde devemos incluir Kafka, ocorre um pacto escritural terapêutico, onde estranhamente as feridas são drenadas e ao mesmo tempo aprofundadas, como dirá Tina de Alarcón no prefacio español de "El Processo".
Y el gozo fue la trampa en que cayó Kafka, de forma tan irremediable que cuando quiso salir no pudo de ninguna manera (...) En realidad -esa era la trampa -, la escritura no curaba su herida, la drenaba momentáneamente y, al mismo tiempo, la profundizaba (ALARCÓN, 1999).
Uma escritura terapeuticamente lançada, arremeçada, contra si mesma, gozada e angustiante, como uma bala disparada no duelo das armas de Kafka e Blanchot.
Em Blanchot, o escritor, sempre ferido com fogo, tem em mãos a terapia da página branca, o sério branco gozado, o branco brando do apagamento, branco (insemina)dor, a superfície profunda do branco.
Quando não estou escrevendo, eu simplesmente não sei como se escreve. E se não soasse infantil e falsa a pergunta das mais sinceras, eu escolheria um amigo escritor e lhe perguntaria: como é que se escreve?/ Porque, realmente, como é que se escreve? que é que se diz? e como dizer? e como é que se começa? e que é que se faz com o papel em branco nos defrontando tranquilo? (LISPECTOR, 1999).
O branco de um ovo delicadamente aninhado nas mãos (especificamente a mão esquerda, a mão responsável pela pausa, como nos ensina com a metáfora da preensão persecutória, em O espaço Literário). O branco em questão é, igualmente, a perda de memória que se sente ante a ameaça de um revolver carregado.
Baudelaire discorreu, uma vez, que os soldados, com suas armas, seriam tão ingênuos quanto as crianças. Ter uma arma de fogo nas mãos é, deveras, uma brincadeira com a morte. Em termos kafkianos: Écrire pour pouvoir mourir -Mourir pour pouvoir écrire, ou, como dirá Blanchot, em De Kafka a Kafka: cela signifie que l'oeuvre est elle-même une expérience de la mort...3. Por sua vez, as verdadeiras diversões infantis são sempre violentas, como sabemos. Lançar ovos, por exemplo, é uma brincadeira muito infantil. Entretanto, o branco de Blanchot é antes uma eterna ameaça estática à frieza do olhar. Clarice diz que o ovo é como um projétil parado no ar. (LISPECTOR, 1999, p.207). Acredito que o ovo em Clarice é a solidão essencial da obra.
Blanchot anônimo
E o que mobiliza Kafka, em seu diário, senão toda uma infantaria contra o pai, senhor Hermann, sua torre de babel, para lançar-lhe brilhantes ovos podres? Bataille descreve a obra de Kafka como uma obra que testemunha em seu conjunto uma atitude absolutamente infantil (BATAILLE, 1989, p.132), e assim o faz, posto que, do mesmo modo, Blanchot descreve Kafka como um jovem que simula a solidão essencial de todo escritor: Kafka assemelha-se então a todo jovem em que desperta o gosto de escrever, que reconhece estar aí a sua vocação, que reconhece as exigências nela implícitas e não tem qualquer prova que esteja à altura de satisfazê-las (BLANCHOT, 1981).
O gosto em escrever de Blanchot é, certa medida, o gosto kafkiano, quer seja, gosto neutro, gozo neutro, bel-prazer da palavra inconfessavelmente arremessada ao inacessível. Como diz Peter Pál Pelbart, Blanchot redescobre na literatura um espaço rarefeito em que se põe em xeque a soberania do sujeito. O que se fala do escritor é que ele não é mais ele mesmo, já não é ninguém: não o universal, mas o anônimo, o neutro, o fora. (PELBART, 2002).
Como Blanchot desnudaria Foucault
Considero interessante, por exemplo, como Blanchot, que inicia o texto "Foucault tal como imagino" afirmando cabalmente nunca ter tido relações pessoais com Foucault, para escrever sobre ele, para "imaginá-lo" buscará uma fala tão amiga, que ressoa até mesmo como um eco de uma perdida voz foucaultiana. Uma voz irrepreensível, incessante, como se este fosse, por sua vez, o seu profeta que o desnudaria.
Mas essa é a relação, ad infinitum, com o Fora. O que faz o profeta é justamente isto: faz-nos sentirmos desnudados, na lembrança de uma vergonha original que nos assola inacreditavelmente e nos obriga a fechar os olhos, a nos tornarmos "cegos" e sábios como o profeta. O profeta contamina tudo com sua voz, na medida em que nos propõe o desnudamento de um rosto que só pode ser "absoluto de luz" (em Blanchot a metáfora da luz, não raro, tem o sentido do "fascínio inapreensível" e não o tom iluminista de verdade ou pureza, obviamente).
Ao mesmo tempo, ele jamais imita Foucault, é como se a fala de Foucault não pudesse ser vítima de mimeses, uma mera escolha estilística de palavras, figura simbólica ou alegórica, estilo autoral, mas sim uma linguagem que, fugindo a toda interpretação possível obsessivamente, não propriamente se rejeita ou assimila.
Logo, Blanchot é ele-mesmo e é ele-imprevisto, sua originalidade é assim, perdeu o silêncio, comunidade negativa onde não há fim ali onde reina a finitude (BLANCHOT, 1999, p.55), ou como diria Bataille, comunidade dos que não tem comunidade (Blanchot, 1999, p.65).
Foucault, por exemplo, é uma literatura em Blanchot (no dilema do olhar de Orfeu), quando, destinado a fazer-nos entender como entrar no templum, conforme na leitura de Barthes, estamos em uma região onde fatalmente queremos destruir o templo, sob um rumor que muda de antemão tudo o que podemos dizer, como diz em O Livro por vir.
A comunidade ardente de Blanchot
Ler Blanchot, para mim, é sempre uma calorosa experiência poética, exteriorização oval. É ingressar na comunidade dos que não têm comunidade, como diria Bataille. Comunidade negativa.
Gostaria de finalizar este texto com as palavras de Clarice, visto que ela certamente pertence a essa comunidade inconfessável, e, estou certo, jamais incineraria, em sua biblioteca, um livro de Blanchot: Por devoção ao ovo, eu o esqueci. Meu necessário esquecimento. Meu interesseiro esquecimento. Pois o ovo é um esquivo (LISPECTOR, 1999).
Seria preciso queimar Blanchot? Para destituí-lo da parte do fogo? Para nos contaminarmos com seu ardor? Acredito que podemos fazê-lo arder em sua sagacidade ao lêlo como Kafka (certa relação do fogo que Blanchot lia em Hölderlin), ou seja, para portarmos também nosso próprio lança-chamas, agindo como Montag, contaminados por uma resistente potência e vontade de prolongamento do incessante.
Chamas que vão se intensificando, passando de objeto a objeto; ob-jectum, aquilo que é lançado de encontro... a efervescência de todo o porvir na queimadura do instante (BLANCHOT, 1999).
Os livros bombardeavam seus ombros, braços, o rosto voltado para cima. Um livro pousou, quase obediente, como uma pomba branca, em suas mãos, as asas trêmulas. À luz mortiça, oscilante, uma página pendeu aberta e era como uma pluma de neve, as palavras nela pintadas delicadamente. Em meio à correria e à fúria, Montag teve tempo apenas para ler uma linha, mas esta brilhou em sua mente durante o minuto seguinte, como se marcada a ferro em brasa. "O tempo adormeceu ao sol da tarde". Soltou o livro. Imediatamente, outro caiu em seus braços.
- Montag, por aqui! (BRADBURY, 2009).
Ler Blanchot -em suma -é saber lidar com as labaredas. Enquanto muitos dançam e escorregam em interpretações, visando abafar ou expandir o fogo, acreditando que ter em mãos um livro de Blanchot é como quando se rouba um exemplar de senhora Blake... fascínio que nos alimenta na inocência, como "um passe de mágica", pensaria Montag, pois é um dos infrequentes filósofos que não nos diz "por aqui!".
Referências
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ALARCÓN, T. En Torno a Kafka y su proceso: In KAFKA, Franz, El Proceso, trad. Tina de Alarcón, Madrid: Edimat Libros, 1999.
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BLANCHOT, M. Comunidad Inconfesable. Tradução de Isidro Herrera, Madrid: Arena Libros, 1999.
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______. La bestia de Lascaux, El último em hablar. Barcelona: Tecnos, 1999.
______. L'écriture du desastre. Paris: Éditions Gallimard, 1980.
______. Michel Foucault tel que je l'imagine. Paris: Éditions Fata Morgana, 1986.
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BATAILLE, G. É preciso queimar Kafka? In: A Literatura e o mal, Porto Alegre: L&PM, 1989.
______. A Literatura e o mal. Tradução de Suely Bastos. Porto Alegre, RS: L&PM, 1989.
BAUDELAIRE, Charles. Sobre a Modernidade. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1997.
BRADBURY, R. Fahrenheit 451. Tradução de Cid Knipel, São Paulo: Globo, 2009.
CURI, S. A escritura nômade em Clarice Lispector. Chapecó: Argos, 2001.
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POCA, Anna. La latencia o la ficción de verdade. Sobre el método del discurso de M. Blanchot. Δ ∝ ι µ ω ν 5 Revista de Filosofia, Edición de Compobell, Universidad de Múrcia, 1992.
Recebido em: 08/05/2010
Aceito em: 13/07/2011
Sempre fico fascinado com a profusão e a engenhosidade das idéias judaicas sobre o futuro de Israel . Pensando nelas, vejo nichos e mais nichos de um estúdio de arquiteto cheio de projetos e de detalhamentos de projetos . Os judeus, como sempre, podem ser incrivelmente produtivos e eficientes em qualquer setor da atividade humana, mas em Israel , isso só se dá desde que uma estranha e histórica condição se satisfaça: a de que os objetivos propostos pelo governo israelense sejam estritamente irreais do ponto de vista da comunidade internacional. Mas uma vez que se decidem a atingir tais objetivos, geralmente ninguém os impede. Pessoalmente, só observo..
PS
As únicas idéias políticas e econômicas que fazem sucesso entre os judeus são aquelas que visam fazer de Israel o centro de uma nova civilização, de vez que é evidente a decadência ocidental e oriental em todos os níveis ... Na ordem pragmática, só idéias desse tipo encontram eco entre os judeus.
K.M.
''Que um estado social plenamente democrático é um estado social no qual já não há, por assim dizer, influências individuais '' (A. Tocqueville)
Não há dúvida de que a análise de Tocqueville é justa ao registrar o recuo progressivo das influências fortes e duráveis de família e de corpos na democracia moderna, mas isso não significa erosão e desaparecimento de influências individuais. É verdade que a ''autoridade'' dos grandes mestres intelectuais há muito se eclipsou, e que as classes sociais superiores já não são em nada modelos preeminentes, e que a maior parte das celebridades contemporâneas não representam mais os pólos magnéticos que eram antigamente . Mas ainda que a decadência democrática do mundo rasteje em seu caldo de pequenas influências disseminadas precariamente ''à la carte'' , algo que os gregos nos deixaram de herança (ou pelo menos os atenienses) foi sua poderosa atração por ''belos discursos'' ; de suas obscuras origens sicilianas até a tentativa dos sofistas de dominarem o mundo ''falando'' , a arte da retórica sempre despertou um ávido apego nos ocidentais . Na Grécia antiga, exigia-se inclusive que os atores falassem bem, e o público que ia ao teatro jamais se incomodava pela falta de naturalidade dramática , se em compensação o ator possuísse o poder da palavra. Na natureza, a paixão humana sempre foi considerada ''pobre'' de palavras; quando ela não é ''muda e acanhada'' , torna-se confusa e insensata . E talvez, graças a isso, os gregos tenham se acostumado à falta de naturalidade no palco, e suportado até com certo gosto aquela outra falta de naturalidade, a paixão ''pelo canto'', graças aos italianos . ----- Tratam-se, obviamente, de necessidades que não somos capazes de satisfazer na realidade: ouvir bem e minuciosamente as pessoas nas situações mais difíceis . E o antagonismo permanente do sentido é uma dessas situações, na era democrática. Certamente, nossas sociedades encontram-se hoje no grau zero dos valores: a liberdade e a igualdade constituem nossa base comum de inspiração, mas somente enquanto ''quimeras conceituais'' , princípios constitucionais que tornamos impossíveis, não-positivados , e suscetíveis de interpretações infinitamente contrárias ; o s referentes intelectuais da era democrática nao fazem senão aprofundar essa anemia cultural , estimulando um processo ilimitado, vazio e superficial de crítica da crítica, discórdias e questionamentos da ordem instalada, que nada mudam. Esse é o resultado imediato de um amplo ajuste social promovido pelas forças econômicas da globalização escudada por governos títeres, tanto do primeiro quanto do terceiro mundo, percebido sobretudo na reversão do enraizamento dos mercados. GloBaNalização: a descentralização e integração ao redor do mundo de vastas cadeias de produção e distribuição que acompanham o movimento dos valores em escala global reduzindo a humanidade à um rebanho de consumidores automatizados. Uma concentração sem precedentes na história dos mecanismos de gestão empresarial, além da centralização do poder político na esfera de influência submetida aos agentes transnacionais. A Democracia moderna converteu-se numa plutocracia internacional concentrada nas finanças globais, cujos paradigmas não estão a serviço nem da liberdade, e muito menos da igualdade. Unanimismo sem clivagem de fundo, onde somente a moda consegue fugir à uniformidade de convicções e comportamentos, muitos deles, inclusive, vindo a constituir uma espécie de ''discurso mudo'' , por lhe faltarem maiores recursos artísticos. Por isso, ainda hoje, alimentamos a nostalgia e o encantamento dos palcos gregos. Encanta-nos quando somos informados de que, mesmo em apuros, o herói encontrou palavras, motivos, gestos convincentes e, no geral, uma clara espiritualidade em que a vida se aproxima dos abismos da Tragédia Grega e a pessoa perde a cabeça, mas certamente não a ''bela fala'' A heróica falta de naturalidade e convenção do Teatro Grego decepciona quando ''The Rest Is Silent '' ----- o mesmo tipo de decepção que experimentamos quando sentimos que o ''cantor de ópera'' não encontrou uma melodia para alguma forte emoção, mas apenas um afetado murmúrio e uma grito ''naturais'' . Nesse caso, portanto, é que a Natureza deve ser totalmente CONTRARIADA . Sim, para os gregos, o encanto comum da ilusão DEVIA ser transformado num encanto superior . E eles costumavam ir bem longe nesse caminho, levando sua civilização para as alturas . Criaram um tipo de palco incrivelmente estreito, que impedia qualquer ação em profundidade, não havia ''planos de fundo'', o que tornava quase impossível a mímica e mesmo o mais leve movimento do ator, fazendo dele um espantalho festivo , rígido e caricato , substituindo o plano de fundo da paixão pelo do ''belo discurso'' . A esse respeito , podemos ver nos poetas gregos da Tragédia o que mais estimulou seus esforços, sua criatividade, sua ambição ----- certamente, não foi o propósito de dominar os espectadores pela ''emoção'' , sintoma de arte ruim em qualquer época ou sociedade. O ateniense ia ao Teatro apenas para ''ouvir belas falas'' . Eles iam ao Teatro para ouvir Sófocles (!)
K.M.