segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Una sociedad homosexual con la que supo lidiar.

Siempre he estado firmemente convencido de que SOCRATES no fue homosexual ni ejerció la homosexualidad; tampoco la fomentó ni la consintió ( jugó con ella magistralmente). Fue un heterosexual al que le tocó una sociedad homosexual con la que supo lidiar y hacer su alquimia.

Desgraciosas segundas intenções.

Diante das circunstâncias,como pode ainda o eleitorado democrata não retroceder e procurar outro modelo, capaz de proporcionar uma verdadeiro desenvolvimento à nação; nao só político e econômico, mas sobretudo moral. Trata-se de um tarefa urgente e que agora, mais do que nunca, requer igualmente responsabilidade e imaginação, honestidade e sensibilidade por parte dos eleitores de Hillary, que descobriram-se, de repente, traídos. Para eles, uma tarefa sem precedentes, do qual depende toda uma população, porque todos os modelos que o Partido Democrata pôde oferecer até agora, levaram ao desastre social e econômico. E nas circunstâncias atuais, a corrida de H. Clinton pela sucessão do poder transformou-se  numa pura pressa de escapar do FBI. As crises políticas são essencialmente morais. Mas o abismo sobre o qual vacila a consciência política de Hillary não é o da ''necessidade'' em si, e sim o da contingência e da banalidade do crime; no momento, abusando da propaganda enganosa, ela se gaba de não poder ser considerada culpada ou inocente, em função de um mero lapso temporal. Sim, pode apenas sentir-se envergonhada de sua conduta e da dos seus assessores; o sentimento da miséria moral é o último pudor do ser humano frente à si próprio, do mesmo modo que a urgência e o pânico com que agora sua campanha agoniza publicamente é a máscara que encobre o peso crescente que a podridão do seu projeto de poder exerce sobre os destinos da América. A doença de Hillary tornou-se agora mais moral que física; mais policial que política. À vista de todos, suas idéias de governo revelam-se meros ''acordos corporativos'', e tais acordos, meras máscaras de uma quadrilha internacional. Ao lado das flores de plástico que nos oferecem seus discursos finais, triunfa e se propaga a sintaxe bárbara dos jornais que apoiam seu conluio criminoso para tomar a Casa Branca de assalto.  Na condição de jovem filólogo que não pode abrir mão de apontar o dedo  para trabalhos ruins de interpretação dos fatos, peço que me perdoem: Mas a vergonha, a execração pública de H. Clinton, nos últimos dias, tornou-se a forma vazia do mais íntimo sentimento de um eu reduzido à sua última expressão.Um sentimento embaraçoso, torturante,  que nauseia até seus adversários, e dos quais  alguns jornais ainda encontram estômago  para pintar orgulhosamente, como se tal orgulho existisse apenas graças à sua péssima interpretação dos fatos. Nestes, os crimes de Hillary nunca chegam a constituir nenhum fato, antes somente um arranjo ingênuo e acefalado e uma deturpação de sentido com que reproduzem à saciedade os mais baixos  instintos democráticos da alma americana; desgraciosas ''segundas intenções'' em que se  encontram disfarçadas a cumplicidade, a participação e a co-autoria nos crimes políticos, eleitorais e financeiros da candidata. A desonra diária da palavra nos noticiários que promovem o Partido Democrata, a cafonice enjoativa da publicidade governamental e corporativa, toda essa asfixiante retórica política vazia empenhada numa ''operação de resgate'' moral da democrata, ao mesmo tempo nauseante e açucarada, de gente que indubitavelmente receberá ''a sua parte'', caso consigam levá-la à Casa Branca... também constitui crime.

K.M.

sábado, 29 de outubro de 2016

Grandón do pidgin Joss (33)

Ao chegar à varanda do apartamento de Liz, na manhã seguinte, puxei uma cadeira para sentar-me fora da luz, já prevendo algumas dificuldades. As associações subjetivas, no entanto, só existiam para serem ultrapassadas no caminho para uma realidade superior. Naquela hora, eu ainda  me encontrava na atitude noturna, da noite passada, que as atitudes mais agradáveis de Dorothy tinham, por sua vez, exigido de mim. Mas agora  tratava-se de fugir do relógio, estabelecendo distâncias variáveis entre o meu corpo e as cadeias associativas dos meus estados de alma. Uma surda batalha de substituições instantâneas em que alguma paciência era necessária. Sentia-me um pouco preocupado, pois estava extremamente sensível a todo tipo de sinais. Pensava que não poderia existir nada tão grande e tão pequeno nas pessoas, nada mais audacioso, cruelmente criativo e rancoroso, quanto as manobras da vingança. Qualquer outra mulher estaria com a tez febril, afogueada, mas Liz estava de uma brancura de cera. Sua voz, que em suas entonações parecia querer imitar a de Sophia Loren, não continha  o menor traço de divertimento. Suas sobrancelhas castanhas, pintadas como asas, erguiam-se sem parar. Por vezes, parecia querer dar a impressão de quem pede auxílio, mas também era visível que isso não lhe era nada fácil, pois percebia-se o quanto estava zangada. Na verdade, o que ela queria ouvir uma vez mais, como reverso, como ''conselho'' da boca de outro, era antes sua própria opinião, já previamente tomada. Mesmo o franzir de suas sobrancelhas parecia custar-lhe um sério esforço de concentração.  Alguma coisa realmente descomunal estava se passando em seu espírito. Estava vestida com uma blusa decotada de seda e uma minissaia, com uma faixa verde cobrindo a parte de cima de suas coxas. O cabelo curto penteado de lado, a pele  repleta de atrativos sexuais ; e do lóbulo de suas orelhas pendiam duas grandes argolas de prata. Era uma mulher adulta vestida jovialmente, eroticamente brincando de adolescente, embora ninguém pudesse tomá-la por uma adolescente. Sentado perto dela eu não sentia, porém, seu habitual perfume arábico, e sim os eflúvios muito atrativos de uma mulher madura, o cheiro de lágrimas adocicadas provenientes do mais íntimo das mulheres. Cada palavra dela calava fundo em mim : ------ Lembra o que Burton dizia em Anatomia da Melancolia (?) Que todos nós temos predisposição para a melancolia, mas só alguns adquirem o hábito dela. E a gente adquire o hábito da melancolia ao sentir-se perdido. Sexo e estilo em demasia também provocam isso. Até mesmo seu cabelo hoje está sugerindo algum tipo de perversão, K (.) Por outro lado, sua natureza destrutiva te torna também jovial e alegre. Destruir, desfazer, dissolver e destituir; tudo isso remove os vestígios de nossa própria idade. Destruir cria ''espaços'', e esvazia a pessoa de sentimentos pesados. O caráter destrutivo está sempre pronto a trabalhar, é a própria natureza que lhe prescreve o ritmo (.) ------, ela disse. Mas aquilo não envolvia, curiosamente, nenhum preconceito de sua parte. Ela não sentia nenhum preconceito com relação à perversão, ou a assuntos relacionados com sexo. Devia considerar demasiado tarde em sua vida para sentir-se impressionada por tais coisas. Ela sabia que forças muito superiores ao do homem comum estavam atuando em mim, e que a qualquer momento elas podiam entrar em ação. ------- Pense só nas tragédias (eu disse) O que suscita a melancolia, a fúria, a carnificina (?) Otelo, perdido. Hamlet, perdido. Lear, perdido. Diria até que Macbeth perdera-se, ainda que por si mesmo, o que é um pouco diferente. A perdição está no coração da história. Pense na Bíblia (!) A narrativa básica é a traição e a perdição. Judas, traído. José, traído. Moisés, traído. Jó, traído. Davi, traído. Urias, traído. Jó foi traído por ninguém menos do que Deus (!)  E não nos esqueçamos da traição ao próprio Deus (.) Deus, traído a todo instante, por cada um de nós (.) ------, eu disse. O golpe que eu acertara com meus medalhões históricos na raiz de nossa conversa, modificara  a maneira elementar com que os nervos de Liz vinham atuando . Ela ainda continuava furiosa, ou amargurada, por minha causa. Mas agora, confrontando toda sua superfeminilidade, sua sensualidade ligeiramente abatida, eu via tudo numa claridade aumentada. A linguagem muda das coisas, variável e enganadora, era dirigida exclusivamente pela minha inteligência. Aos signos do fogo que pareciam anunciar a vitória de Clitemnestra , minha linguagem mentirosa e fragmentária, boa para as mulheres, Liz tentava,  em vão, opôr uma outra, de medida justa e verdadeira. ------ Do mesmo modo que uma referência trigonométrica está exposta ao vento por todos os lados (ela disse) você expõe-se de todos os lados ao palavreado. Não vê sentido nenhum em tentar proteger-se disso. Nem sequer faz questão de ser compreendido.  A incompreensão dos outros nunca lhe afetou de fato. Muito pelo contrário, frequentemente você a provoca por puro divertimento, tal como um oráculo (.) -----, ela disse. Era assim mesmo que eu (também) enxergava as coisas. Vê-la se debatendo com as arestas daquela verdade era uma coisa deliciosa. Não havia dúvida, dava-me um prazer imenso ! Mas na minha linguagem, ao contrário, só havia verdade naquilo que era feito para enganar e desviar. Só existia, para mim, verdades traídas; entregues pelo inimigo  ou reveladas em pedaços.  ------ Você converte em ruínas todas as impressões que os outros têm de você; não pela impressão, mas pelo caminho que as atravessa, em chamas. Eu tenho medo de você por causa das lutas internas que pode desencadear nos outros. E pela sua capacidade de revelar coisas escondidas no ar. E de uma forma rigorosamente épica e rapsódica. Muitas vezes, num mínimo de espaço, você revela tantos buracos e esconderijos  da psique, que é como se certos conhecimentos vivessem numa casa de sete divisões em estilo Makart (.) -----, ela disse. Mudando cortesmente de assunto, Liz arranjara, de repente, uma novo rosto para exibir sua maravilhosa aterrissagem. O sol, pela janela, fazia sobressair toda a cortesia do mundo, refletindo-se nos seus olhos. Uma claridade como aquela, tão vívida, de um momento para o outro me deixou perturbado. A macia brancura da face de Liz, o esforço visível que ela agora fazia, e que era demonstrada pelas suas sobrancelhas,  proporcionava-me um sentido apurado do extremo, cômico, particular e surpreendente da situação. Aquilo permitiu-me tomar as rédeas da negociação imediatamente, e, por fim , também as dos seus interesses. Olhei para ela e pensei : ''A cortesia, no seu papel de musa do meio-termo '' (.)

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K.M.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Artaud e o Duplo na Estética de Vanguarda.

O Romantismo, el Doble e o Fantástico

http://elianeoromantismoeldobleeofantstico.blogspot.com.br/2012/02/o-romantismo-el-doble-e-o-fantastico.html

Eliane Colchete

Artaud define o Duplo como o Kha dos egípcios, mas também referencia os pontos sensíveis da acumpuntura associados a uma manipulação dos sentidos, por meio da percepção de sons e da visão de gestos;  e manipulação corpórea cuja lógica vem do conhecimento dos chakras, a qual pode ainda ser feita por meio da respiração, mas quanto à esta Artaud se utiliza do simbolismo das tríades cabalísticas para criar sequências respiratórias que ele supunha qualificáveis em neutro, feminino e masculino, revertendo em emoções e disposições aníminas específicas. 

Nesse aspecto da temática artaudiana do Duplo, ele é efetivamente um corpo espiritual no sentido de ser um corpo de sensações e de atitudes que envolvem sentimentos reais como coragem ou cólera, mas pensado como um nível mais sutil da matéria, um nível que Artaud chama fluído. Assim, esse corpo é designado "metafísico" como algo co-extensivo ao físico que se entende correspondente ao nível visível da matéria. 

Como nós veremos oportunamente, o misticismo moderno-ocidental, que demarcaremos desde Swendenborg,  não se caracteriza por propagar uma única doutrina do Duplo, mas sim por que cada místico historicamente importante, e até Guenon, tendo sua própria doutrina, é dela que haure uma explicação ou tematização original do Duplo. Ora, entre as fórmulas de Duplos que aí encontraremos, há uma variação mais ou menos constante que é em torno dele ser um corpo sutil ou pensado em termos outros termos, por exemplo psíquicos (níveis de realizações existenciais) ou históricos (natureza adâmica antes e depois da queda). Isso depende de como se entende o universo, tópico referencial do misticismo que estamos chamando moderno-ocidental porque o que se deve entender por universo é algo evolutivo, não o conjunto das coisas dadas desde sempre. 

Então as opções mais básicas são sobre como entender a evolução - desde o pré-transformismo em que tratava-se apenas de pensar uma corrente ativa entre os seres responsável pelo aumento de perfeição entre as espécies, até Lamarck e a consolidação do transformismo pré-darwinista, isto é, podendo-se ainda ficar com a imagem de uma ação vinda do ente. As explicações dos místicos variam conforme eles podem ainda interpretar a corrente ou precisam se limitar a pensar a ação. Tratando-se da corrente, ela pode ser tematizada em termos de fluído material, e assim os mesmeristas são os que hipnotizam à base da concepção de Mesmer de que há um fluído percorrente no universo, o qual pode ser manipulado como a consciência. Mas quando se trata somente da ação, já se está no pleno romantismo, não apenas no ambiente pré-romântico. 

Ora, logo após esse momenteo lamarkiano, sabemos que precipita-se o positivismo-realismo com a interpretação determinista de Darwin, enquanto na história do misticismo, as teorias de duplos e a influência dos seus autores vão sendo substituídas pelas teorias orientais da multiplicidade dos corpos, como estabilizando-se de Papus a Guenon, as quais entendem os corpos além do físico como planos materiais sutis, o duplo etérico e ainda um plano mais elevado puramente espiritual. 

Aparentemente há uma coincidência com os místicos precedentes que haviam materializado pela noção de fluído, a corrente de perfeição entre as espécies, mas de fato nessa transposição há uma irredutibilidade incontornável. 

Aqui encontramos Artaud, e vemos, como é bem típico em Guenon, a marca do momento positivista-racionalista, pois em vez de uma explicação relativa ao entorno de um pensamento autônomo, Guenon procede como desde a teosofia de Blavatski, na pressuposição de uma tradição univesal que reúne todas as expressões de misticismos de povos particulares, que Guenon faz expressar como variações da mesma noção de Centro do universo e Rei do mundo, de que se origina a sua noção de sociedade arquetípica cujo modelo são todas as idealizáveis não-ocidentais à semelhança da sociedade feudal. Efetivamente Artaud não é de forma alguma um positivista, nem Guenon que acusa o progresso científico de ser o "reino da quantidade", símbolo do estado de coisas apocaplítico, inviabilidade do humano porque inviável ao espírito. Mas é do corte determinista universalizante do racionalismo positivista que vem esse novo aporte da ciência e do misticismo. Sendo assim, as relações que são bem referenciáveis de Artaud, como pós-positivista, ao Romantismo, exibem a marca desse corte, o que se trata de recuperar na composição de sua noção de duplo.

Como se vê, ele pode ser dado alinhando-se ao anti-colonialismo de Schopenhauer cujo desdobramento foi uma redução sintética das questões místicas à filosofia oriental, e nesse orientalismo ambos são radicalmente anti-nietszchianos. Ora, a oposição conceitual de Nietzsche não era entre oriente e ocidente, mas entre tipos de sociedade cuja conceituação independe da localização geográfica. Ainda que aplicando esses conceitos às sociedades históricas, Nietzsche valorizou Roma contra Ìndia e Judeia. Mas, ele não pratica a terminologia do"primitivo" oposto ao bárbaro, que não pode por sua vez ser destacada do contexto positivista racista na qual surgiu. Inversamente, na classificação de Nietzsche, Ìndia e Judeia são esquemáticos do ocidente-moderno, como civilização cristã que o cientificismo continua. São a decadência do "sacerdotal" em relação ao originário não-sacerdotal em que Roma estaria por sua vez esquematizável, ainda que não como o prototípico que seriam as sociedades tribais. 

Pareceria ser o misticismo o pivô da irredutibilidade Artaud-Nietzsche, posto que argumentar que o dionisíaco é o teatro ocidental que Artaud está criticando na verdade ignora a forma como Nietzsche opõe totalmente a Polis democrática ao Ocidente, este definido cristão. Também em Weber vale essa definição - o ocidente teria nascido em Antioquia, com o cristianismo extenso a todos os povos. Como o Romantismo nasce precisamente nessa problemática, vemos como é complexo o locus da modernidade quanto a esse aspecto genético da historicidade e pluralidade de cultura, sociedade e etnia. Mas quanto ao misticismo, vemos que em Artaud ele implica o simbolismo nietszchiano da transmutação espiritual enraizado numa concepção de corpos e de forças, ambos rejeitando o idealismo que era o que Nietzsche designava sacerdotal. A imagem do oriente muda, consideravelmente, desde o Romantismo até o pós-moderno como algo, no entanto, bem mais determinante das  teorias em humanities do que vem sendo dado aquilatar. 

  Mas torna-se bem notável a discrepância de um pensamento que valoriza o corpo sutil assim como o físico, como o de Artaud, e a anulação nirvânica como condenação de todo esse produto da vontade qu se chama mundo, em Schopenhauer, cujo prolongamento serão as neo-metafísicas espiritualistas que proliferam no pós-positivsmo, como em von Hartmann, e o epíteto de "neo" aí implica que elas não são programas de retrocesso em relação ao científico, mas pelo contrário, são interpretações espiritualizantes do conteúdo das ciências como da Evolução, meio em que se destacam Royce nos Eua e Bergson na França. Nesse ponto, inversamente aos idealismos, a convergência duplo metafísico em Artaud, que como vimos é o corpo das senações e expressões, com os conceitos nietzschianos de potência, corpo e vontade, me parece bem assinalável. 

Nessa linha artaud-nietzschiana o prolongamento seria a psicanálise com a concepção de "imaginário", o corpo com que efetivamente lidamos psiquicamente, e que é variável conforme as fases de nossa maturação ou os estados do nosso processo edipiano não-resolvido. A meu ver é incontornável a influência da psicanálise em Artaud, ainda que como já assinalei ele proceda como se o não-ocidental esclarecesse a utilidade do conceito ocidental, não o oposto. O tema dessa influência tangencia suas relações com o surrealismo, movimento que ele integrou e que manifestamente tangencia o inconsciente freudiano,  e cujas relações com a obra de Artaud suscita opiniões opostas, Virmaux supondo que elas foram quase nulas, M. Nadeau, inversamente, acentuando-as. Mas assim como Breton estava mais interessado no limiar entre inconsciente e consciente do que naquilo que os psicanalistas almejam como a concreção do consciente, também Artaud é mais um novo intérprete da teoria do que um seguidor de Freud.

 Em todo caso,  no pós-estruturalismo, Deleuze-Guattari se utilizam de Artaud para construir uma concepção de imaginário (corpo) no inconsciente, mas dispensando-se do Édipo. Esse empreendimento do Mille Plateaux efetivamente está lidando com uma noção de duplo estruturante de todo o percurso conceitual - a dupla articulação de Hjelmslev (conteúdo e expressão) suposta generalizável para toda articulação fenomênica pensável, o que implica que toda ação é dupla, é feita duas vezes, mas quanto ao corpo expressivo, seria aquele povoado de intensidades das quais o inconsciente faz um programa de inter-relações possíveis que estruturam o devir do sujeito.

Artaud é relacionado especialmente ao trecho onde se trata da oposição construída por Deleuze-Guattari, entre esse corpo que na psicanálise corresponderia ao imaginário - e que para eles é uma função de memória - e o corpo organizado cuja imagem formamos ao longo do processo de socialização que corresponde à maturação da nossa sexualidade na adolescência. Assim, Artaud é citado logo no início do texto, por sua alusão à inutilidade da unidade funcional do oganismo, como se Artaud fosse o precursor da teoria ora enunciada.

  Além disso, devemos lembrar que o Mille Plateaux é a continuação do Anti-Édipo, ambos perfazendo o projeto "capitalismo e esquizofrenia". O corpo expressivo ou a-orgânico do Mille Plateaux é o desenvolvimento do conceito positivo de esquizofrenia como potência do inconsciente,  apresentado no Anti-Édipo. Torna-se a articulação do corpo expressivo em Artaud, ao mesmo tempo o que seria a sua expressão da essência da esquizofrenia. 

Grandón do pidgin Joss (32)

De lábios um pouco apertados, e com a cara um pouco amarrada, telefonei para Dorothy enquanto fazia meus cálculos sobre os signos astrais de Liz. Naquele momento, a generalidade do amor me parecia mais serial que nunca; só era possível vivê-los profundamente, tendo cada um deles em vista da série à qual pertenciam. No telefone, Dorothy parecia-me parte de um filme mudo no qual eu também atuava. Demorei para introduzir-me na questão, mas numa encenação desmiolada, uma súbita invenção de puro exagero, disse-lhe que ''passear'', no espanhol ladino que os sefardistas falavam quando foram expulsos da Espanha, era um termo particularmente feliz para o dia. E repeti a fórmula, uma hora depois, quando ela retornou o telefonema inicial para aceitar meu convite. Um de meus papéis prediletos: O Suplicante. ----- Podemos tomar a linha Z ou o trem 6, de Lexington Avenue para o Canal St. , ou o ônibus M1-103. O M15 também serve o Lower East Side. Suplico a você que vá comigo hoje à Chinatown e Little Italy(...) Por favor, não me deixe só (!) -----, eu disse, como se não fosse um simples ''paseo'' que estivesse em jogo, mas a redenção da humanidade. Ou ainda, o movimento infinito de auto-apresentação do ser. Um otário dissimulado, parcialmente iludido pela própria aflição, vindo para a frente do palco suplicar. Mas houve uma emoção que Dorothy não conseguiu dissimular em si mesma quando me ouviu suplicar daquele jeito. Pelo menos isso (pensei eu). Como diria Epiteto, nossos modos de ser ''fazem ginástica'', rejeitando, frequentemente, seguir qualquer linha racional. ----- Todos deveriam ter um Lower East Side nessa vida (.) -----, eu disse, antes de desligar o telefone. Dorothy fora arrebatada por aquele impulso que quase todo mundo experimenta quando alguém querido está perto de desmoronar. A melhor mulher do mundo . Eu te amo, D. Minha cena ao telefone havia solapado completamente sua capacidade de observação, permitindo-me operar uma guinada de cento e oitenta graus no meu estado de espírito: um novo arado contra a página em branco daquele dia faria de mim uma companhia agradável e bem humorada ao lado dela. Dorothy definitivamente engolira a justificação melodramática da minha infâmia, assim que, quando nos encontramos no metrô, acreditei recompensá-la segurando-a pela cintura e beijando sua boca. Isso, àquela altura, já era permitido entre nós; o novo código dos nossos encontros reconhecia agora o alto valor da impulsividade e do calor humano. E sem dúvida nenhuma, os sentimentos dela eram tão fortes quanto os meus, ao contrário dos de Liz. Ainda assim, perseverava na minha conduta um incômodo resíduo de auto-propaganda, adquirido talvez do prolongado contato com a mídia, e que denunciava certa submissão minha ao ''sistema''. A democracia americana era propagandística até o osso. Não havia dúvidas de que o mundo inteiro expressava-se por meio de uma propaganda social, histórica e política, mas na América, quando você tentava emitir seus signos mundanos, de amor ou de sexo, eles caíam num vazio astronômico, transformando qualquer conversação mais ou menos inteligente numa mera repetição dos princípios liberais. Apesar disso, Dorothy certamente não ficou desapontada comigo ao perceber que eu pretendia transformar nossa amizade num caso amoroso o mais depressa possível. ----- Antes das duas, de preferência (.) -----, eu disse. Um homem condenado, ''suplicando'' por amor e afeição. ------ Você me parece mesmo ferrado (.) -----, ela disse, ao notar que seus sentimentos vinham adquirindo uma importância quase cômica dentro de mim. ------ Nada nessa vida (eu disse à ela) provoca tanto nossa curiosidade quanto saber o que de fato se passa na cabeça de um tolo (.) -----, e no geral, creio que eu era mesmo tolo. Imediatamente tornou-se cômico, para ela, perceber que um homem como eu, que punha tanta ênfase na própria liberdade, pudesse admitir de um instante para o outro tamanho controle sobre seus pensamentos e emoções. Moralmente, Dorothy me parecia agora ligeiramente ''incrédula'' ; o pressuposto do meu heroísmo melodramático era agora a mais pura indiscrição, o ''mal du siécle''. ----- Acho que a ocupação obsessiva com a arte (ela disse) e a ''questão social'', foi o que te pôs assim meio doente (.) Sua ''doença'' agora é um emblema social, tal como a loucura era para os Antigos (.) Esquizofrênicos, em geral, têm esse faro todo especial para apreender o verdadeiro estado da sociedade, a atmosfera em que respiram seus contemporâneos (.) Em indivíduos como você, que não têm papas na língua, os nervos são como fibras inspiradas, como aquelas fibras que se estendem, com rejuvenescimentos insatisfeitos , com meandros cheios de nostalgia, nos móveis e na fachada do prédio que Stanford White projetou para o antigo Bowery Saving Bank, em 1894 (.) -----, ela disse, enquanto seguíamos a pé pela Grand Street com a Mulberry, onde Joey Gallo fôra assassinado. ------ Tenho que admitir (eu disse) que , desde novo, minha imagem preferida para isso é a de um Dante que, à aproximação do Inferno, se transforma instantaneamente num feixe de fibras nervosas frementes no ar. Alguém cujo poder supremo é a capacidade de desejar o próprio desejo (.) -----, eu disse. Enquanto ela ria, eu imaginava um esplêndido jorro esguichando do meu pênis.

K.M.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Grandón do pidgin Joss (31)

A pressão política sobre mim estava passando dos limites ---- falsas acusações, depredações do meu patrimônio intelectual, ameaças de demissão, e o aparecimento do meu nome em várias listas negras que surgiam sem parar na internet inteira. Queriam transformar o acusador em acusado. Apesar de tudo, a crise no meu relacionamento amoroso ainda não era ‘’a’’ crise. Claro, eu sabia correr riscos de ambos os lados, e no final pensava que as duas coisas se tornariam uma só, naturalmente; mas no momento eu ainda era capaz de mantê-las separadas. Fiz o caminho para o novo apartamento com Miss Rogoff conversando com ela numa voz que parecia nascer das profundidades do meu corpo. Minha ‘’autoconsciência’’, como ela disse, capturava minha sensibilidade sobre a corda da minha voz. Mas o que estava além do desejo ( eu pensava) nenhuma voz poderia exprimir. Dentro de mim, no entanto, eu possuía o ductus fluido de um apontamento sumário, que muitas vezes me alertava sobre ‘’erros ‘’ e ‘’enganos’’, e que eu chamava a me servir de suporte na maioria dos meus encontros. Naquele momento, o ductus fluía nas veias do atrito, me fazendo rir da suspeita que Liz lançava sobre mim e o meu trabalho. Sentia-me inclinado a fazer piadinhas com a ‘’Fera’’. Ela queria que eu me submetesse aos seus ’’testes’’ sem recriminações, protegendo-se por trás do seu prestígio social e fingindo que estava tentando fazer alguma coisa importante por mim. E certamente faria, a julgar pelo seus gestos. Mas o que dizer de todos os meus negócios inacabados (?) Para mim, tudo que eu fazia e sentia era uma façanha, e sem tocar no assunto, sem praticamente falar, eu tentava comunicar disso alguma coisa à ela, fortificá-la em seu pensamento. E mesmo não podendo identificá-la com precisão, ela queria saber mais: ----- Seu compromisso comigo é o de se purificar um pouco, antes de mais nada(.) Lembra (?) Não vou mais tolerar esse sentimento de traição que você instala em mim sutilmente, sem nunca revelar nada (.) ------, ela disse. Para justificar todo meu esforço psicológico naquele momento, disse para mim mesmo que tudo estava perto de desabar . ------ Você sabe que se meter ‘’certas coisas’’ no meio do nosso assunto, acabaremos sem nos falar para o resto da vida. Não sabe (?) -----, perguntou-me. Aquilo já era uma pontinha de briga séria, nada agradável. Quando Liz discutia sobre as ‘’coisas que mais importavam para ela ‘’, nunca se dava por vencida. Sobretudo naquela ocasião, em que ter meu espaço próprio representava uma maior propensão à não me importar de sair perdendo. Ela olhava firme para mim, batendo firme seus dedos sobre a mesa da sala. Turbulenta, ela tentava distorcer a questão, atropelando tudo o que eu dizia com : ------ ‘’Não insulte minha inteligência (!) ‘’ ------, sua energia para brigar era impressionante: ------ Não dou a mínima se ninguém a não ser eu entendo essas coisas (!) Se você tivesse a menor idéia de como a sociedade americana está organizada, já teria modificado seu comportamento(.) -----, bradava ela. E se punha especialmente incendiária quando tentava me botar no lugar como mero escrevinhador da internet: ------ O que odeio com mais raiva em você é me pedir ‘’Por favor, explique-me de que diabo você está falando ‘’ (.)-----, parecia não existir, para ela, em tudo o que eu fazia ou dizia, nem um mínimo detalhe sem importância, . Tudo que ela pensava, justamente porque era’’ela ‘’ quem pensava, tinha que ser ‘’decisivo’’. E ela realmente pretendia encontrar alguma validade nisso. ----- Sua teimosia é algo impressionante, K (.) De fato, não é um cara mole de se convencer (.) E olha que eu sei , como ninguém, persuadir os outros de que estou falando sério; mas o seu antagonismo parece inesgotável (!) -----, ela disse. Aquilo me fazia sentir a pressão por todos os lados do espectro social, o que me preocupava. Eu me perguntava que tipo de ‘’narrativa’’’ seria capaz de produzir uma condição mais favorável para mim. Em todo caso, a tensão nervosa dela era um dique que resistiria (eu pensava) à corrente de qualquer narrativa. Restava-me apenas constatar que seria derrubado a qualquer momento . Parecia-me impossível, então, induzir nela uma inclinação suficientemente forte para arrastar para o mar do esquecimento feliz todos os motivos para brigar comigo que ela encontrava pelo caminho. ------ Você só anda na companhia de moças duvidosas (.)  Tudo o que me impele para você, ora nesta, ora naquela ocasião, é puro acidente (.) Você se considera um ator grandioso, capaz de representar na vida real qualquer papel ... mas não é ator coisa nenhuma, apenas tem a cara de pau de se meter em qualquer confusão e pôr aboca no mundo como um maluco (.) Isso (realmente) nunca lhe faltou. Mas ser um ator (?) JAMAIS (!) , você representa todos os papéis do mesmo jeito. Sempre aquele papo furado sobre arte e vida, como se estivesse jogando cartas num canto enfumaçado (.)   Você deve se olhar no espelho e se considerar um instrumento da história... que a história o trouxe para a capital do mundo para corrigir os erros da sociedade, enquanto os seus ficam por isso mesmo  (.) Sua única vocação real é para ser alguém ininteligível. Um terreno eternamente por explorar. Dois pontos, reticências... é isso, então (?) ‘’Uma outra maneira de se aproximar da vida ‘’ (?) de ‘’tocar o mundo ‘’ (?), como você diz... E o que esperar disso (?) Descobrir coisas estranhas sobre a mente humana, condensar em pensamentos alguma essência secreta de experiências mentais  (?) Entramos no meio de alguma situação confusa e agora teremos que concluí-la(.)  Resta descobrir como (.) ------, ela disse.



K.M.

Grandón do pidgin Joss (30)

Meu sentimento por um novo começo era realmente muito forte, por isso aluguei um apartamento de um andar inteiro, que dava para o lado norte de Washington Square, e fui com Miss Rogoff de carro até Montauk buscar o resto das minhas caixas na casa de praia de uma amiga. Medida pelos ponteiros do relógio, a viagem fôra curta. Nas horas de menor intensidade do trânsito , podia-se avançar com uma deslumbrante rapidez por essa obra de mestre que era a estrada amarela e cinzenta. E Liz sabia como guiar nela, era uma motorista sem falhas num carro sem falhas. ----- Se alguma hora você sentir novamente vontade de passar uma semana inteira comigo, no meu apartamento (ela disse)vista um casaco e pegue um táxi ; penso que levaria horas tentando explicar qualquer outra solução  que eliminasse a necessidade de uma escolha ou definição; ainda assim, parece-me duvidoso que você entenda o que estou dizendo. O entendimento nunca foi o alicerce de suas decisões, K (.) Esse alicerce, em você, é um ''bicho-papão'' ao qual você recorre sempre que lhe falta sabedoria (.) uma alegoria de autoconsciência (.) -----, ela disse, enquanto eu batia levemente no vidro da janela do carro com uma moeda.  ----- Está tudo ok, Liz (.) Posso fumar aqui dentro ?) ----, perguntei, quando paramos no pedágio. Acendi meu cigarro ao seu lado e , olhando suas mãos deslizarem pelo volante, continuei: ----- Je suis étant et me voyant; me voyant me voir, et ainsi de suite (.. já escrevi muito, nessa vida, sobre o estranho poder de cura associado às mãos de certas mulheres. Uma vez, cheguei mesmo a escrever que '' os seus movimentos são extremamente  expressivos, mas seria quase impossível descrever essa expressão.. É como se contassem uma história (.) '' ; Mas nada de Mozart, dessa vez. Dessa vez, pandemonium, em virtude do qual qualquer alicerce de decisão se torna uma ficção teatral provisória, ou um limite impossível. Ainda assim, essa parece ser a melhor ''solução''. Um olho que se vê a si mesmo em um espelho. Então, gesticulamos, pomos a língua de fora... e logo começamos a desconfiar que um deus maligno se diverte a nossas custas diminuindo loucamente a velocidade da luz. Segundo Valéry: ''Estás a 40 cm do espelho. Antes recebia tua imagem em 2,666 milésimos de segundo. Mas o demônio se diverte agora tornando o éter espesso. E agora tu te vês após um minuto, um dia, um ano, um século, ad libitum... '' O que acontece entre uma coisa e ela mesma é frequentemente paradoxal  (.) -----, eu disse, observando as evoluções de Liz ao volante. Talvez eu me encontrasse numa fase em que um homem que já fora duro, principalmente consigo mesmo, começa a ansiar pelo suave deleite de uma massagem em seus ombros,  ou na parte detrás de seu pescoço, onde os nódulos parecem estar mais duros. Sentia-me ligado agora com o melhor, o mais fino, o supremo veículo da terra. Não havia comparação com a ''action painting'', quando o assunto era um processo de cura natural; e, naquele momento, a ''cena sem sujeito'' de Wittgenstein me enchia de confiança ao lado de Miss Rogoff, no carro. E ela queria conhecer o apartamento  que eu alugara em Washington Square, norte. Ele tinha portas duplas  (expliquei a ela) pé direito alto, sancas ornamentais e soalho de parquê; e uma lareira com consolo lavrado. Abaixo do quarto dos fundos, havia um jardim interno bem parecido com o do hotel em Meatpacking District. ----- Deve ser lindo (ela disse) Digo: melhor que aquele quartinho boêmio, com guarda-roupa sem porta, colchão empoeirado no soalho e reproduções baratas de Modigliani nas paredes; Oh, sim, estou bem contente por você. Assim estará melhor. E num estado ''estacionário (por assim dizer) poderá ser submetido a alguns ''testes''. Mas isso é só uma parte do  problema (.) -----, ela disse,enigmaticamente. ----- Estou enganado, ou você está um pouco irritada (?) ----, perguntei-lhe. ----- Estou falando de uma maneira muito amadurecida. Não vejo porque não me considerar calma e controlada . Admito, no entanto, que muitas vezes , minhas opiniões bondosas e cheias de considerações pelos outros têm o dom exasperar algumas pessoas (.) Que tal pararmos para almoçar, e esquecermos por um instante a obscura substância que nós somos sem o saber (?) N`être plus la voix de personne... que me parle, à ma place même (??) -----, ela disse.

K.M.

Apócrifas morellianas (19)

http://teoriadelentusiasmo.blogspot.com.br/search/label/Diderot
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el mejor servicio que pueden prestar a quienes se adentran en la filosofía experimental, no consiste en enseñarles el procedimiento y el resultado, sino en transmitirles ese espíritu de adivinación mediante el cual pueden sospechar, por así decirlo, procedimientos desconocidos, experiencias nuevas y resultados ignorados. 
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Denis Diderot, Pensamientos sobre la interpretación de la naturaleza:

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Invaginação duplicadora.

O Romantismo, el Doble e o Fantástico
Eliane Colchete

http://elianeoromantismoeldobleeofantstico.blogspot.com.br/2012/02/o-romantismo-el-doble-e-o-fantastico.html

6)

Deleuze ressaltou a importância do que designou o  “tema alucinatório dos duplos” na obra de Foucault.  Os duplos obsedam Foucault desde sempre, mas o tema“só encontra seu lugar tardiamente”: o lugar desse encontro é o tratamento dos gregos, algo não imediatamente esperável desde o início do projeto da História da Sexualidade.

 Deleuze resenha a constância do tema nas obras anteriores. O duplo se torna explícito na cena grega porque a questão da sexualidade expressa, no sentido de que precipita ao visível da palavra, o que esteve todo o tempo manifesto em Foucault apenas pelo viés do forro, da prega, da dobra barroca entre o dentro e o fora. Ou seja: do dificílimo conceito perseguido como suficiente para o que está entre o enunciável e o visível, as palavras e as coisas, o poder e os códigos, por que na verdade Nada há, nem pode haver, entre cada par de termos nessas disjunções, que não fosse já apenas a repetição tediosa do acontecimento no interior do sistema, da história enclausurada na estrutura. Mas, a sexualidade está entre, enquanto algo que precipita o limite da psicanálise no seu pensável. 

  Assim, conforme Deleuze, o duplo em Foucault é o não-ser frente ao ser, mas “o duplo nunca é uma projeção do interior, é ao contrário, uma interiorização do lado de fora. Não é um desdobramento do Um, é a reduplicação do Outro”. Até que, retomando a disjunção fichteana, o duplo não é emanação do Moi, é instauração do sempre-outro como o non-Moi. Mas aqui Deleuze é muito ambíguo, acrescentando: “não é nunca o outro que é um duplo, na reduplicação, sou eu que me vejo como o duplo do outro: eu não me encontro no exterior, eu encontro o outro em mim”. 

 Na leitura deleuziana os gregos de Foucault se tornam originários do que seria a “invaginação de um tecido na embriologia ou de um forro na costura”, ou seja, uma invaginação duplicadora, capaz de “vergar o lado de fora, em exercícios práticos”, mas nesse trecho, Deleuze acentua que, quanto a isso, não se trata de uma “gesta histórico-mundial”. Como se sabe, o tema da invaginação - que corresponde ao quiasma em que se articula relacionalmente algo pensável -  é axial em Derrida para deslocar o significante uno-fálico da psicanálise freudo-lacaniana.

Trata-se, inversamente a uma gesta, para Deleuze,  do “duplo descolamento” que o aparato grego do desejo permite a Foucault mostrar: há independência dos exercícios de auto-controle em relação tanto a qualquer coação que encarnaria um poder sobre o corpo tanto a qualquer código que se prescreveria desde um saber capaz de estratificar uma virtude. 

No entanto, esse trecho é muito singular, pois logo após essa descrição, Deleuze afirma que “por um lado, há uma relação consigo que começa a derivar-se da relação com os outros; por outro lado, igualmente, uma constituição de si começa a derivar do código moral como regra do saber”. E, na verdade, em vez de independência, o que o Uso dos prazeres descreve é um poder que regula os corpos e organiza a visibilidade das coisas, numa imbricação a um código que prescreve condutas numa relação constitutiva, ainda que não direta, com uma partição de saber, inclusive médico, que opera o inconsciente desejante nessa premissa da necessidade do controle, da evitação do excesso, etc.

Seria evitável ler o “Foucault” deleuziano como uma gesta histórico-ocidental, que começa com os gregos e que ainda se conta? Esse tão criticado volume a propósito de Foucault me parece mais como um limite interno à obra de Deleuze. Tanto que os estudos consagrados ao tema das virtualmente polêmicas relações Deleuze-Lacan aí poderiam encontrar ressonância. Se o desacordo poderia ser focado na oposição entre intensidades e signo, como numa reposição de empirismo e racionalismo, mas agora quanto ao inconsciente, o estudo deleuziano de Foucault pretende ser possível reduzir o percurso da história da sexualidade naquilo em que interceptou os gregos, à indagação: Há alguma nível do puro prazer, há experiência selvagem? Ou, como se pensa desde Lacan, e como o sabem especialmente seus tradutores às voltas com as ciladas da jouissance , desde que a sexualidade é alguma coisa indissociável de si, ela só existe na circunscrição desse cuidado ou estima ou cilada de Si?

Conforme Deleuze, a pergunta soa no referencial foucaultiano: “O afeto de si para consigo é o prazer, ou melhor, o desejo?” Mas, isso de modo que a ambiguidade do próprio pensamento deleuziano se coloca pela indagação que ele supõe sobreponível à consideração do que há de irredutível entre Heidegger e Foucault: se este não se deixou aprisionar nas aporias da intencionalidade num tempo em que o saber forma cada vez mais hermenêuticas e codificações do sujeito desejante, do sujeito que o enuncia, a resposta de Foucault à indagação de que é que sobra para a nossa subjetividade, isto é, o resultado de suas pesquisas das dobras que fundam a subjetividade contemporânea, não redunda numa fundamentação psicologista desta. “Nunca 'sobra' nada para o sujeito, pois a cada vez, ele está por se fazer...”.

 Mas, o que insiste na borda da psicanálise, o que resiste, aqui, parece ser que Deleuze, dessa apresentação do problema do Fora em Foucault desdobra uma indagação inesperada, ainda que aparentemente muito coerente ao contexto: “A subjetividade moderna reencontraria o corpo e seus prazeres, contra um desejo tão submetido à Lei”? - mas isso de modo que a coerência se garante pela coesão da imediatez dessa pergunta ao que lhe sucede: “E, no entanto, isso não é um retorno aos gregos, pois nunca há retorno”.

Trata-se, para Deleuze, de mostrar que Foucault tratou os gregos pelo mesmo método “do rasgão e do forro”, pelo que em cada configuração específica, é preciso estabelecer o que é que opera “uma dobra, uma reflexão”. Ou seja, as categorias que até aqui informam a sociologia, a história e a epistemologia, sendo estabelecidas na exterioridade do sujeito, seriam sempre não-ser, restando estranhas ao homem, se não houvesse o que essas ciências assim chamadas humanas sempre ignoraram ou recusaram pensar, isso, que não se sabe ainda o que é e que não se deve pressupor universalizável, os processos pelos quais sempre que há desejo, ele é socialmente destinado ou está numa relação problemática com essa destinação.

Assim, a metáfora do tecido, pelo que o saber e o poder de um certo entorno sócio-histórico formam um plissado, mas o que interessa à pesquisa é a dobra pela qual do lado da subjetivação corresponde o desejo como o forro desse tecido, o rasgão sendo o que nele, não podendo ser de qualquer outro modo ou vir de qualquer outra instância, impele o seu próprio forro, na viragem de sua própria dobra.

 No entanto, se Focault leu toda a modernidade no sentido da "reduplicação empírico-transcendental", como já assinalei ele negligenciou assim o aspecto pós-kantiano da emergência das humanities. Não há um empírico possivelmente oponível, como numa disjunção, ao transcendental objetivo, quando se trata de um entorno histórico em que os duplos se tornam praticáveis no Fantástico literário, mas o que emergiu foi a problemática relativa à alteridade da cultura. 

Em todo caso, a vantagem dessa colocação dos duplos em Foucault por Deleuze, enigmática quanto tenha sido, é estabelecer a conexão entre o tema dos dobles e a questão da emergência do Sujeito pensável. Ainda que isso não chege a explicitar a relação com o entorno romântico, tangencia esse aspecto ao lançar mão da terminologia de Fichte, entre os gregos referenciais da história da sexualidade e esse cenário de nascimento da "modernidade" estando a questão enunciada.

É interessante notar que Foucault lido por Deleuze pode ser aproximado ao modo como Ralph Tymms, a propósito dos duplos, propôs alternativamente às análises biográficas de Rank, a inserção do tema na historicidade da época em que emerge na literatura, para daí conceituar o doble como alegoria do "segundo eu" inconsciente. Não obstante a oportunidade nítida dessa escolha, que toda a questão de como o Romantismo postulou o inconsciente restou intocada, é o que se torna importante  salientar. 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Grandón do pidgin Joss (29)

----- Venha para o sol e aproveite o tempo (.) -----, Liz disse. Ela se sentia muito melhor quando eu me interessava pelo que dizia, como quando fiquei contente por ela ter compreendido minha ‘’filosofia do espectro’’. Não havia mais substitutos para essas sensações involuntárias na sua vida. ------ Você não vai abandonar essa idéia , não é (?) Seria uma pena. Você foi feito para escrever a respeito, e estou convencida de que tudo quanto escreve sobre espectralidade é real e que algo terrível acontecerá se não continuar (.) -----, ela disse. Miss Rogoff via em mim, antes de tudo, uma aspiração de autonomia absoluta, sem a qual meu ‘’projeto literário’’, minha ‘’obra aberta’’, não era possível. ------ Ninguém consegue interferir com isso (ela disse) (.) ------, quando estava por perto, Dorothy gostava de ouvir essas conversas. Tenho para mim que deixavam-na excitada; e conversar assim ao sol, na varanda da tia, fazia Dorothy sentir-se forte. ----- Acho que a gente se entende bem -----, ela disse para a tia, referindo-se à mim : ----- Por mais durão que ele seja, sua dureza não passa de um vácuo; sua autonomia é um vácuo; sua independência é um vácuo. Sua obra é o relato sem testemunhas de um fantasma que repete tudo sozinho consigo mesmo. Sua leveza espectral e seu jeito alegre brotam sempre pouco a pouco, pois ele só começa a narrar a si mesmo depois que seu descaramento lança o primeiro dado sobre a mesa; um sádico atravessando o vácuo, mas permitindo-se, ao mesmo tempo, inofensivos desejos de contos de fada. Suas frases ondulam pensativas diante da leitora ou arqueiam-se subitamente em sinal de recusa; os vários ramais de diálogos mostram-se ora atenciosos, ora arrogantes, rebelando-se contra as bruscas tomadas de fôlego de quem os lê. Há trechos em que torna-se imprescindível que a leitora avance sufocada, estremecendo dos pés à cabeça, para ser socorrida ou abandonada somente no final. E geralmente, ela é abandonada. Cada capítulo lança sobre o anterior, e aos pés da leitora, uma sombra espessa, enquanto uma leve aragem nupcial anuncia o capítulo seguinte; nenhum prazo é concedido à interpretação, até que a esfera rebentando de imagens caia dentro de seu compartimento. Enquanto essa esfera incandescente gira no vazio a leitora fica à espreita, palpitando por baixo de uma superfície recatada, para ver de que modo o entusiasmo inflamado do autor, apelando para todos seus sentidos, pode afinar seus baixos (.) -----, ela disse. Naquele momento, o sândalo do sabonete que Dorothy usara no banho evaporava-se ao sol, junto com suas palavras. E tais palavras me pareciam apertadas demais em sua cabeça para que eu continuasse molhando meus ouvidos nelas. Uma quantidade enorme de partículas brilhantes se espalhava sobre os vasos de plantas da varanda, e lá onde os raios solares alcançavam esse orvalho, as cores do arco-íris brilhavam , espectrais, como o esperma galático do outro mundo. ----- A espectralidade é um forma de vida (eu disse) Começa somente depois que a pessoa social acaba e assim adquire, em relação às pessoas, a graça e a astúcia daquilo que é completo e inimitável, a elegância e a precisão cirúrgica de quem não tem mais nada diante de si. É mais simples para um espectro simular uma vida de carne e osso, em certas ocasiões, do que exibir-se à leitora diretamente. É assim que a língua espectral ao seu modo freme, acena e sussurra e que, com esse esforço, assume sua máxima condição litúrgica, impondo à leitora a observância de regras exigentes e litanias. A partir daí, todas as palavras piscam à ela, como estrelas, fazendo-lhe sinais preciosos ou escorrendo como larvas de eternidade em sua consciência. Por um longo momento, o texto inteiro fica parado à sua frente como uma gigantesca aposta, e o regulamento do espectro a obrigará uma vez mais a conter-se. No céu de sua cabeça, logo em seguida, uma série de gases entrará em turbilhão, numa luta invisível para apagar todos os vestígios sociais e encontrar-se com os arquétipos. Neles é que se encontra a Eternidade, lar do espectro. -----, eu disse.

K.M.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Grandón do pidgin Joss (28)

Dorothy ria. ----- E do que é feito um espectro, K (?) ----, perguntou-me ela. Naquele momento, ela também me parecia dedicada à idéias  de conduta existencial já completamente desacreditadas pela sociedade. A única diferença era que ela tinha dinheiro, e seus desvios eram conhecidos, e eu não só era pobre, como meus padrões comportamentais estavam perdidos num passado remoto da humanidade. ----- Um espectro é basicamente constituído de signos, ou se preferir, de ''assinaturas'' ; cifras ou monogramas arranhados pelo tempo sobre as coisas. E também por ''hecceidades''. Para um espectro, o decisivo não é a passagem de conhecimento à conhecimento, mas o salto dentro do conhecimento com o próprio corpo, como se tratasse de um todo. Esse é o signo de autenticidade de um espectro, que o distingue radicalmente de todos os seres humanos de série fabricados por um molde social. Todo espectro contém, necessariamente, um grãozinho de contra-senso, como no padrão das tapeçarias antigas, nas quais se descobria sempre um pequeno desvio fatal em relação ao seu desenvolvimento regular.  (.) -----, eu disse. Não fôra meu comportamento inicial em relação à ela que mudara, mas a forma com que eu manipulava as palavras dentro de sua mente. Formas e signos que pareciam estar ausentes de nossa interação, antes de sairmos para passear no World Financial Center, onde ela pretendia me explicar o processo de recuperação do Lower Manhattan e os moldes de arquitetura urbana de Cesar Pelli e Associados. Ali havia quatro imponentes torres de escritórios alojando algumas das maiores empresas financeiras do mundo. ----- O Winter Garden é todo de aço e vidro (ela disse) Mais de dois mil painéis tiveram que ser repostos após o 11 de setembro (.) ------, concluiu. Não a honra de sua companhia em si, mas a palavra  ''honra '' roçando meus lábios à todo momento; não os impulsos virtuosos da deriva urbana informativa, , mas os termos representativos, interjeições e onomatopéias, transformadas em sua voz no maior dos acontecimentos urbanos de Nova York; não, ainda, a compaixão, mas o que era a expressão da compaixão ?? Exprimir compaixão diante de um desastre parecia de uma premência mortal para ela, naquele momento; exprimir o som sufocado da esperança e do desejo de milhares de vítimas ceifadas como moscas. Mas tais coisas, há muito, haviam sido suprimidas como ilícitas dentro de mim. Qualquer identificação com o mundo me parecia um atoleiro de falsificações. Às vezes, no máximo, transpareciam como cifras ou vagas figuras rabiscadas em vidraças de edifícios destinados à demolição; mas naquele momento, sobrava em mim somente uma terrível mudez a respeito. Até que eu disse: ------ Agora, os arquitetos criaram algo novo (?) Não creio, apesar das 45 lojas e restaurantes que dão para a praça e a marina à beira do Hudson, há quase cem anos alguém chamado Paul Scheerbart já dissera que ''era possível falar de uma cultura do vidro'', e que ''o novo ambiente de vidro transformaria radicalmente as pessoas ''; e ainda que ''Esperava que a nova cultura do vidro não encontrasse opositores''. Bem, aqui estamos nós; particularmente, estou adorando (.) -----, eu disse, descendo com ela a escadaria de mármore que levava ao Winter Garden. Ali, palmeiras de 20 metros do deserto de Mojave criavam uma versão moderna das palm court antigas (.) ------ É mais um lugar de lazer para a maioria das pessoas. Até os críticos de arquitetura mais severos gostam disso aqui.  A abóbada de vidro tem quase 40 metros de altura ; e a escada em forma de ampulheta acomoda platéias durante concertos no jardim lá embaixo (.) -----, ela disse. Mas sobre as coisas mais essenciais do nosso passeio, quase nada podia ser dito. Ainda assim, eu sabia como fazer os sinais necessários para ativar outro tipo de comunicação, bem mais sutil e eficiente.  O suficiente para que, enquanto eu olhava as folhas das palmeiras e seus mínimos movimentos, Dorothy subitamente se apoderasse daquela linguagem em mim, de tal modo que esta consumou num instante, para mim, o enlace com ela. O tom de Dorothy estava agora cheio de matizes não-identificáveis, tão espectrais como os meus, e um certo mal estar , ou estranhamento, quase interferiu com sua respiração. Muito lentamente foi que ela voltou a se concentrar, consciente de certa ansiedade impressa em seu rosto. Eu permanecia silencioso, manipulando a atenção dos seus olhos como se se tratasse de manobrar um transatlântico entre geleiras. Em meio às palmeiras mojave ela era conspicuamente branca,como sua tia. A primavera daquela tia ! Na cabeça, estava usando um lenço esverdeado, tão exuberante quanto o verde que admirávamos nas palmeiras. Pela inclinação do seus ombros e a expressão nos seus lábios vermelhos, parecia-me apaixonada, mas disposta a aceitar qualquer interrupção do seu desejo. Eu me perguntava, então, se devia segurar sua cabeça com as mãos ou roçar discretamente meu braço nos seus seios. Aquele tipo de jogo humano (eu pensava ) sempre se dava a conhecer pelo modo como a centelha da paixão, no plano do corpo, saltava de um centro para o outro, mobilizando ora este, ora aquele órgão, concentrando e circunscrevendo nele toda a existência. ----- Formidável. Interessante. Impressionante (.) ----- , eu disse. Dinheiro, posição, vantagens... eu realmente não tinha projetos de vida nem ilusões, era um espectro. Vivia apenas de tempestades cerebrais, dentro de um esquema que não deixava de ser sedutor para mim. Mas me apaixonar (?), eu me perguntava ceticamente. Porque tudo que era emocional no mundo tinha que ser tão superabundante, comprometendo tanto nossos poderes psíquicos (?) No meu caso era diferente: quando encontrava meu alvo, eu me limitava a disparar. E mesmo sendo incapaz de emocionar-me, penso que seria um pecado não fazê-lo.

K.M.

domingo, 23 de outubro de 2016

À l´assaut de la Maison Blanche'



No ensaio ''À l´assaut de la Maison Blanche'', o historiador Bhaskar Cosío afirma que o governo de Barack Obama se transformou num prisioneiro do mercado financeiro e que assim paga pelo seu erro: ter confiado aos tratados de livre-comércio uma parte essencial dos seus planos frustados de reativação industrial e desenvolvimento sócio-econômico.  Mas essa afirmação pode ser enriquecida ressaltando-se o programa de pauperização da classe-média que Obama levou à cabo conscientemente, pretendendo empurrar esse imenso contingente social em apuros para a dependência das redes  de assistencialismo de seu governo. À esta  circunstância acrescentaríamos outra: a criação de uma burocracia paralela ao Estado americano, além da dos técnicos  e administradores; Cosío observa que essa nova classe de ''agente político'' poucas vezes ocupa cargos e postos oficiais, embora muitos políticos passem, por intermédio deles, dos assuntos públicos para os negócios privados, algo bem exemplificado nos próprios planos pessoais do  Presidente Obama, de realizar ''investimentos acionários '' nos setor tecnológico americano. A crítica independente americana,e alguns intelectuais orgânicos sem vínculos políticos, especularam em 2008 com a possibilidade do Governo Obama, valendo-se precisamente da ''força'' dos setores populares que o Partido Democrata manipula nas eleições,  viesse a enfrentar essas influências corporativas dentro da Casa Branca. Mas em poucos meses tais esperanças foram dissipadas. Para enfrentar os banqueiros e financistas, o Governo deveria ter buscado a emancipação política e econômica das classes populares, fortalecendo e ampliando a classe-média do país, coisa que não fez nem quis fazer. A política econômica de desenvolvimento de Obama não obedeceu à uma agenda integral e nacional de longo prazo. Assim, as regiões que sediam grandes corporações foram objeto constante da solicitude e dos créditos do Governo, enquanto o resto do país foi abandonado. Obama não atacou em momento algum a fraqueza do mercado interno americano, ampliando-o e aumentando o poder aquisitivo do povo. Preferiu aderir ao Status Quo e substituir os planos de desenvolvimento sócio-econômico por um dilúvio demagógico de polêmicas identitárias, incitando os pobres contra a polícia. Como se fosse a polícia a culpada pelo cenário de profunda divisão social e descontentamento.

K.M.

Entusiasmosofía (V)

Hermenéutica poético-espiritual de RAYUELA de Julio Cortázar. Por JORGE FRAGA

21 de diciembre de 2011

http://teoriadelentusiasmo.blogspot.com.br/2011/12/entusiasmosofia-v_21.html
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«Los entusiastas –dice Hans Urs von Balthasar en Gloria, de 1961– han de aparecer al mundo como insensatos» (Gloria. Una estética teológica, Madrid, Encuentro, 1985, vol I, p. 35)
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El término insensato, aplicado a la cuestión del entusiasmo, tiene su enjundia. Según María Moliner, proviene del latín «insensatus», negativo de «sensatus», derivado de «sensus», y éste de «sentire»: percibir por los sentidos, sentir –y, también, opinar. En función de esta etimología, y más allá de su primera acepción como alguien irreflexivo y perjudicial, insensato podría también ser «aquél que no percibe por los sentidos», y también «aquél que no tiene opinión». Todo lo cual encaja perfectamente con nuestra cuestión: porque el entusiasta adquiere su condición merced a algo que queda más allá de los sentidos –que los trasciende–; y, en efecto, no se trata de formarse una opinión, sino de algo –poseer una certeza o un firme propósito– que está por encima de toda opinión.
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Entre las expresiones equivalentes a insensato se cita «alocado» y «tener la cabeza llena de pájaros» o «llena de viento»; lo cual, según por donde lo miremos, puede resultar de lo más ventajoso. Y lo mismo puede decirse de «estar fuera de sus cabales», «estar fuera de quicio», o de «perder la razón»: estados que, de vez en cuando, no deben resultar tan inconvenientes (ya lo decía Nerval en la anterior entrega de esta Entusiasmosofía). También figura un término –«disparatado»– que alguien aplicó una vez, felizmente, a mi percepción del Rayuela insólito. Y otro más: «descabellado», que más adelante veremos aplicado en un contexto que nos viene al pelo.
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No obstante, por más que se pretenda darle vuelta, está claro que el término «insensato» es peyorativo, y así funciona en la frase de von Balthasar. Los entusiastas son vistos desde «el mundo» como algo insano y también peligroso. Pero ¿a quién se está refiriendo el autor con el término entusiastas? ¿Se trata de unos locos exaltados? ¿De una horda lanzada ciegamente a sembrar el caos? No: el erudito alemán está hablando particularmente de Platón (quien conoció un «entusiasmo loco») y de san Pablo (como uno de los «extasiados por la belleza cristiana»); y también, equiparándolo a los dos primeros, de «todo aquel que, gustosa y despreocupadamente, está dispuesto a enloquecer por amor a la belleza». Evidentemente, se trata aquí del entusiasmo poético, no del fanático, siguiendo esa distinción que estableciera Shaftesbury en 1709 (en The Moralists: a Philosophical Rhapsody).
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Siguiendo precisamente a Shaftesbury, Diderot escribía de esta guisa en la entrada «Teosofía» de la Encyclopédie (citado en el Euforión de Antoni Marí):
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Los teósofos han sido considerados locos en comparación con aquellos hombres tranquilos y fríos cuya alma, pesada y mortecina, no es capaz de emocionarse, ni de entusiasmarse, ni de sentirse poseída hasta el punto de no ver ni sentir nada, de no poder juzgar ni hablar tal y como lo haría en su estado habitual
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Hasta el punto de no ver ni sentir nada: esto encajaría con esa etimología forzada un poco más arriba: el entusiasta como insensato y, a la postre, como insensitivo. Y este es precisamente el retrato que de sí mismo daba Cortázar en sus Conversaciones con Ernesto González Bermejo:
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-¡No se imagina en qué estado escribí yo ese diálogo! Ese [se refiere al diálogo entre Oliveira y Traveler], la muerte de Rocamadour, el concierto de Berthe Trépat, los capítulos patéticos del libro
La que me vio fue mi mujer porque me venía a agarrar del cuello y me llevaba a tomar un poco de sopa. Yo había perdido completamente la noción del tiempo. Y no se debía a la influencia del alcohol o algo parecido; no bebía, tomaba mate y fumaba menos que ahora.
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Ciertamente, no comer nada durante días puede resultar insensato; pero ¿no llevamos cincuenta años inclinándonos ante los frutos resultantes de esa pasajera locura? Dice Cortázar que no estaba ebrio en esos momentos de creación: como tampoco había bebido ese otro insensato, Jorge Fraga, contrariamente a lo que maliciosamente sugerían los periodistas de «Los pasos en las huellas» (2º relato de Octaedro, 1974; las cursivas son mías):
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Cualquiera puede leer en los archivos de los diarios porteños los comentarios suscitados por la ceremonia de recepción del Premio Nacional, en la que Jorge Fraga provocó deliberadamente el desconcierto y la ira de las cabezas bien pensantes al presentar desde la tribuna una versión absolutamente descabellada de la vida del poeta Claudio Romero. Un cronista señaló que Fraga había dado la impresión de estar indispuesto (pero el eufemismo era claro)
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«…y el mundo –continúa la frase de von Balthasar citada al principio– intentará explicar su estado –es decir, el entusiasmo– apelando a leyes psicológicas, cuando no fisiológicas»; y, para ilustrar estas leyes fisiológicas, el autor de Gloria remite al versículo 13, capítulo 2, de los Hechos de los apóstoles: «Pero otros, riéndose de ellos, decían: ‘¡Les ha subido el vino a la cabeza!’» Lo cual sucede precisamente en Pentecostés, después de que los discípulos de Cristo hayan recibido los dones del Espíritu Santo –el carisma– como lenguas de fuego bajando sobre sus cabezas.
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El entusiasta es por tanto el inspirado, el carismático, el sujeto investido por una luz superior, ya sea en el contexto de lo creativo como en el de lo religioso:
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...en el fenómeno de la inspiración existe un momento (…) en el que la inspiración del propio yo se transforma misteriosamente en la inspiración emanante del genio, del daimon, del Dios que lo inhabita, y en el que el espíritu que alberga en sí a Dios (en-thous-iasmós) obedece a una instancia superior que, en cuanto tal, supone una forma y es capaz de realizarla (Gloria, p. 37)
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Este tipo de insensatez, de carácter místico, alimentaba el espíritu humano en una cultura, la griega antigua, cuyos frutos de arte y pensamiento siguen maravillándonos hoy, miles de años después. Dice Erwin Rohde en su Psyché:
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Nos hallamos, pues, ante una conmoción del ser entero en la cual parecen abolidas todas las leyes de la vida normal. Estas manifestaciones que rebasaban el horizonte conocido se explicaban entonces suponiendo que el alma de estos «posesos» no estaba «dentro de ellos», había «emigrado» de su cuerpo. Así se interpretó el fenómeno al principio, y no se quería decir otra cosa cuando se hablaba de «ekstasis» de las almas que se han sumido en ese estado orgiástico de excitación. El éxtasis es una «locura pasajera», así como la locura es un éxtasis permanente. Pero el éxtasis, la alienatio mentis momentánea del culto de Dionisos, no es una divagación ligera y ondulante del alma por las regiones de la pura ilusión, es una hieromanía, una santa locura en la que las almas, fuera ya del cuerpo, comunican y se unen con la divinidad. Ahora están cerca, dentro del dios, en estado de «entusiasmo»; los que se encuentran en tal estado son ένθοι, viven y están en el interior del dios; en su yo limitado sienten y gozan la plenitud de una fuerza vital infinita.
En el éxtasis, liberación del alma de las ataduras del cuerpo y comunicación con la divinidad, al alma le nacen impulsos de los que nada sabe en su existencia cotidiana, cohibida como está en la envoltura de su cuerpo. Pero ahora que vive en libertad como un espíritu entre los demás espíritus, alzada sobre el tiempo y sus limitaciones, el alma se encuentra en condiciones de lanzar su visión a las cosas lejanas en el tiempo y en el espacio, adonde sólo pueden mirar los ojos del espíritu.
(Psiche: El culto de las almas y la creencia en la inmortalidad entre los griegos, Summa, Madrid, 1942, p. 46)
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Los ojos del espíritu… También von Balthasar habla de «ojos capaces de percibir la forma espiritual». «Es preciso –dice, en la página 27– poseer un ojo espiritual capaz de percibir las formas de la existencia en una actitud de profundo respeto».
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En las antípodas de ese respeto, «el mundo» tilda a los entusiastas de insensatos, locos, borrachos… En el fondo, estos juicios peyorativos no son sino formas por las cuales ese mundo se protege del carisma de otros, de su entusiasmo. Pero, ¿cuál es ese «mundo»? ¿Quiénes lo conforman? Se trata, obviamente, del homogéneo conjunto de los seres sensatos. Diderot los ha descrito antes como «aquellos hombres tranquilos y fríos cuya alma, pesada y mortecina, no es capaz de emocionarse, ni de entusiasmarse, ni de sentirse poseída». Y Cortázar los describe sumariamente, a su vez, mediante la sinécdoque y el sarcasmo de «Los pasos en las huellas»: las cabezas bien pensantes. Hoy en día, «el mundo» lo constituyen unos individuos fragmentados, que tienen por valor principal cierta concepción de la razón. A saber: los sujetos modernos, los sensatos habitantes de un mundo desencantado.
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La Modernidad occidental, una vez consolidada la hegemonía de la raíz ilustrada sobre la romántica, ha logrado reducir el espectro de lo perceptible al estrecho horizonte aportado por el estado habitual de la conciencia. Se trata de la misma coyuntura que vivió internamente Carlos Castaneda, cuando intentaba conciliar sus vivencias en la segunda atención con los parámetros de la conciencia habitual:
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Una vez le preguntamos a don Juan al unísono que nos sacara de dudas. Dijo que tenía dos posibilidades explicativas. Una era aplacar a nuestra malherida racionalidad diciendo que la segunda atención es un estado de conciencia tan ilusorio como elefantes volando en el cielo, y que todo lo que creíamos haber experimentado en ese estado era simplemente un producto de sugestiones hipnóticas. La otra posibilidad era no explicar pero sí describir la segunda atención de la manera como se les presenta a los brujos ensoñadores: como una incomprensible configuración energética de la conciencia.
(El arte de ensoñar, “Nota del autor”)
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La conciencia razonante, tal como se halla configurada en nuestra cultura, ve las irrupciones de una conciencia superior como una amenaza contra su hegemonía. En el fondo, es el miedo –lo contrario al Amor– lo que genera su reacción ante los brotes de un entusiasmo daimónico, divino. De ahí que, cuando no consigue ignorarlos, los descalifique. Todo vale; incluso considerar Rayuela como una novela. Y sin embargo,
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ellos saben lo que han visto y no se preocupan lo más mínimo por lo que dicen los hombres (…) dado que para comprenderlos es necesario contemplar lo que ellos han visto, ahí comienza lo esotérico, y las pruebas para demostrar su verdad –como aparece ya en el Banquete de Platón– tienen necesariamente carácter de iniciación (Gloria, p. 35)
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a miércoles, diciembre 21, 2011   
Etiquetes de comentaris: Diderot, entusiasmo, Euforión, Los pasos en las huellas, Shaftesbury, von Balthasar
7 comentarios:

marioingenito51@yahoo.com.ar21 de diciembre de 2011, 15:40
Qué decir: Su plancha es justa y perfecta y lo dice, lo argumenta y ejemplifica todo.

Responder

rama21 de diciembre de 2011, 20:35
La sociedad no es otra cosa que los sentidos, la sensatez, esa fijación onírica colectiva de las exhalaciones percipientes ( HERÁCLITO), es el comunitario estar "ESPOSADOS" con los 5 esposos, sentidos ( Parábola de la Samaritana; y como siempre Inge, ella está muchó más arriba que nosotros ya que tiene un amante que no es un sentido...Le falta "regularizar" su situación con CRISTO, EL LOGOS)Y como decía ARISTÓTELES: Se puede estar fuera del SENTIDO COMÚN, LA SOCIEDAD ( Ese conjunto de hábitos anímicos y mentales compartidos)por ARRIBA o por ABAJO ( análogo a lo de PARMÉNIDES, LAO TZE, IBN ARABI del MISTERIO INTELIGIBLE y el ININTELIGIBLE de la mutiplicidad, la contingencia, lo sensual, lo concreto que conduce a la substancia tenebrosa de la existencia y a la pérdida del ser por lo bajo)

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jorge fraga23 de diciembre de 2011, 6:47
LOS VAGABUNDOS DE LA NOCHE

Gracias por vuestros comentarios, Mario César y Rama. 
Parménides, Lao Tzé, Inb Arabî...
Incluyamos, entre tan prestigiados nombres como los citados, a uno que suele aparecer también por estas páginas:

"A qui prophétise Héraclite? 'Aux vagabondes de la nuit, aux mages, aux possédés, aux bacchantes, aux inspirés.' C’est aux qu’il menace de l’audelà, c’est à eux qu’il prophétise le feu. Car ils se font initier sans piété aux mystères reconnus par les hommes" 

Extracto, subrayado por Cortázar, del libro
"Trois contemporains: Héraclite, Parménide, Empédocle", 
trad. avec notices par Yves Battistini
París, Gallimard, 1955
(conservado en la Biblioteca Cortázar de la Fundación March)

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marioingenito51@yahoo.com.ar23 de diciembre de 2011, 7:08
Oh, Empédocles; su poema "...yo era demonio errante y por asomarme demasiado entré en vientre de mujer...", junto al de Jenófanes "...Jamás nació ni nacerá varón alguna que sepa de vista..." eran himnos encantatrios en mi adolescencia; y ahora que el amigo JORGE FRAGA me ha sacado de mis desconfianzas sobre el ENTUSIASMO ( ya que me ha connotado y finalmente denotado muy bien que se trata de un ENTUSIASMO claramente apolíneo, pneumático, allende la corrupción de la psique) cuando los releo en mi queridísimas viejas versiones o en nuevas me ENTUSIASMAN de modos nuevos...

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jorge fraga23 de diciembre de 2011, 7:22
"Yo era demonio errante
y por asomarme demasiado 
entré en vientre de mujer..."

¡Buenísimo, Mario César!

Responder

jorge fraga23 de diciembre de 2011, 7:39
Otro fragmento subrayado por Cortázar (ahora de Roger Godel, "Essais sur l’expérience libératrice", París, Gallimard, 1952, p. 162) 

"C’est qu’en effet la pensée commune ne peut apercevoir derrière le processus dissolvant -catabolisant- aucune réalité positive"

Cortázar añade en el lateral, en manuscrito: "Hélas!"

Responder

marioingenito51@yahoo.com.ar23 de diciembre de 2011, 14:45
HÉLAS

Que " el pensamiento común no pueda percibir detrás del proceso disolvente-catabolisant-ninguna realidad positiva " es el eterno tema de la horizontal que no comprende y odia a la vertical; esa horizontal es la existencia ( ¿un extásis fosilizado?), la enfermedad del espíritu ( Nerval), lo peor que pudo haber pasado ( apotegma griego), la razón y la psique como corrupciones pneumáticas...Cortázar ha sido mártir de la sombra de esa "desgracia" como los presocráticos y tantos purushas atentos ( como Kafka) y entusiasmados ( como Cortázar o Jorge Fraga que agota los alcances de ese entusiasmo)

sábado, 22 de outubro de 2016

Heidegger e a produção técnica e artística da natureza.

Trans/Form/Ação
Print version ISSN 0101-3173
Trans/Form/Ação vol.34 no.spe2 Marília  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-31732011000400007 
ARTIGO ORIGINAL

Heidegger e a produção técnica e artística da natureza

Marco Aurélio Werle1


RESUMO

O artigo examina como Heidegger pensa, a partir da natureza, o "produzir" técnico e artístico, tendo como referência certas noções centrais da história do pensamento, desde o registro inaugural dos termos gregos techné, poiesis e physis, e seus desdobramentos por meio da tradução latina, até seu reordenamento na metafísica da época moderna.

Palavras-chave: Heidegger, arte, técnica, produção, natureza

ABSTRACT

The article examines how Heidegger, by looking at nature, considers the technical and artistic ‘act of production’ (Stellen) regarding certain crucial notions in the history of thought, from the foundational Greek terms as techné, poíesis and physis, and its equivalent in Latin translation, to its rearrangement in modern metaphysics.

Keywords: Heidegger, art, technique, production, nature


Introdução

No centro do questionamento heideggeriano acerca da arte e da poesia, bem como da técnica e da ciência, apresenta-se uma reflexão sobre o que vem a ser o "produzir", em sentido amplo, como modo de produção da existência humana, tanto na relação do homem consigo mesmo quanto com a natureza em seus vários aspectos e em seu caráter de verdade. O modo de produção não se restringe então a um problema especificamente econômico, mas remete a uma atitude fundamental do ser humano, de amplitude histórica, diante do Ser e do ser do ente.

Esse questionamento de Heidegger pode ser acompanhado na exploração que realiza das várias nuanças do verbo alemão stellen: "pôr" ou "colocar", nos ensaios A origem da obra de arte, A questão da técnica, A época da imagem de mundo, Nietszche I e Para que poetas? Heidegger pensa a "produção", tanto na dimensão especificamente humana, quanto na que ultrapassa o homem e o determina como história, destino e proveniência ontológica. E essa reflexão passa não apenas pela consideração do que é a produção no sentido mais usual, a Her-vor-bringung, o "trazer à frente" ou o "levar à frente", mas principalmente pelo modo como é conjugado o verbo stellen, o "pôr" ou "colocar", com seus prefixos e substantivos. O stellen está na base da forma artística como Gestalt e da categoria central da metafísica da modernidade, a representação, Vorstellung, e sua determinação como "armação" técnica: Ge-stell.

No artigo que se segue, farei um percurso que pretenderá acompanhar esses desdobramentos do stellen, na obra de Heidegger. Primeiramente, farei um exame do tipo de "pôr" que surge no âmbito da obra de arte, para, depois, avançar na caracterização heideggeriana da essência da técnica moderna como armação e em sua fundamentação metafísica como representação. Concluirei com ponderações sobre a possibilidade de um reencontro originário e natural entre arte e técnica, a partir da poiesis como origem comum de ambas.

1 A produção no domínio artístico

Começo situando a afirmação heideggeriana, em A origem da obra de arte (do ano de 1935/36), de que a obra de arte consiste numa clareira [Lichtung], um determinado lugar que se afirma como centro irradiador em meio ao acontecimento do ente como um todo: "[...] em meio ao ente como um todo se apresenta [west] um lugar aberto [offene Stelle]" (HEIDEGGER, 2003a, p. 39-40). Na economia interna desse ensaio, esse é o ponto de chegada a partir do qual se põe a obra de arte, na medida em que exprime um certo lugar iluminado de encontro. Porém, qual seria esse encontro e o que se encontra, de fato, na obra?

Sabemos que Heidegger situa a obra de arte como um combate [Streit] entre terra e mundo. Esse combate, por sua vez, se trava numa posição aberta, gera uma certa operação de posicionamento como "[...] instituição de um mundo e a produção da terra" [Aufstellen einer Welt und das Herstellen der Erde]" (HEIDEGGER, 2003a, p. 34). É importante aqui acompanhar a expressão original alemã e atentar para os desdobramentos do verbo stellen, que é pensado desde a proveniência terrena da obra de arte, pelo her-stellen, que também pode ser pensado como "re-constituição" ou como "re-posicionamento", bem como pela projeção mundana instituidora e construtora do auf-stellen. Os dois movimentos remetem ao modo de ser da terra e do mundo, sendo a terra aquele elemento que oferece resistência e possui a tendência de ocultar-se ou de se fechar, ao passo que o mundo é a abertura como espaço das decisões humanas e históricas. A obra de arte como produção apoia-se na terra, de onde vem (her-stellen) e se eleva (auf-stellen) num mundo.

Terra e mundo funcionam no pensamento de Heidegger como ampliadores ou amplificadores ontológicos do papel que, na tradição estética, assumiram e ainda assumem as categorias da matéria e da forma como reguladoras da produção artística. A obra de arte não significa simplesmente uma operação subjetiva, operada pelo artista, que aplica conforme suas intenções e planos uma forma a uma matéria, mas é antes a mobilização da "natureza" como um todo (da terra como a physis dos gregos), bem como do mundo, sendo o mundo situado como uma espécie de condensação de todas as significações possíveis na projeção do homem como ser-no-mundo. A terra irrompe, ao modo da physis, na obra de arte, e é lançada no mundo, como um mundo, de modo que esse irromper e o ser lançado geram um combate.

Também essa noção de combate implica um remanejamento da estética tradicional, pois a obra é compreendida para além da concepção tradicional de harmonia e equilíbrio ou até mesmo da categoria kantiana e schilleriana de jogo. Tampouco o combate é a expressão de uma aparência, contudo, da verdade apreendida para além da estrutura do enunciado. A verdade é, em Heidegger, o descobrimento e o encobrimento, segundo o termo que os gregos empregaram para dizer a verdade: alétheia, antes do surgimento da metafísica como o discurso do ser do ente.

Esse posicionamento terreno e mundano da obra de arte se consolida na medida em que encontra uma Gestalt, uma forma como substantivação e acomodação do stellen que assumiu uma configuração sensível. Obviamente, o processo da figuração artística não será tranquilo, porque, como resultado de um combate, importa que a obra de arte mantenha viva a luta de terra e mundo, no interior de uma diferença ontológica. E isso somente poderá acontecer caso, nesse combate, pulse uma certa tensão entre contrários ou até mesmo uma "ruptura", que Heidegger exprime por meio do termo Riss, "rasgo" ou "traço", situado entre os dois posicionamentos.

Com isso, a obra de arte alcança um complexo processo de posicionamento. Reproduzo, em alemão, um trecho central do ensaio de Heidegger, que indica vários parentescos conceituais do stellen: "Der in den Riss gebrachte und so in die Erde zurückgestellte und damit festgestellte Streit ist die Gestalt. Geschaffensein des Werkes heisst: Festgestelltsein der Wahrheit in die Gestalt" (HEIDEGGER, 2003a, p. 51). Traduzindo, temos: "A forma é a luta conduzida para dentro do rasgo e assim reconduzida para a terra e solidamente estabelecida. Ser criada a obra significa: estar a verdade solidamente estabelecida na forma".

2 A produção técnica antiga e moderna

Ora, diante desse processo de "posicionamento" da arte, na qual o homem é convidado a tomar uma posição diante da natureza e do mundo, poder-se-ia justamente perguntar como se coloca a atitude humana, hoje corriqueira e dominante, a saber, a que foi determinada na época moderna (dos últimos quinhentos anos) por um outro tipo de experiência, isto é, pela técnica moderna, examinada por Heidegger principalmente em seu ensaio A questão da técnica, de 1953. Tal como a obra de arte, a técnica moderna ou a tecnologia também opera uma "posição", só que sui generis, e que Heidegger designa pelo termo Ge-stell, uma "armação" como uma espécie de posicionamento no qual se revela uma atitude não solícita, mas im-positiva da subjetividade moderna. Se, na arte, o homem se ex-põe à terra e ao mundo, na técnica, ele pretende antes se im-por, embora acabe inevitavelmente também se ex-pondo, mas de uma maneira bastante perigosa, pois a técnica, juntamente com a ciência, consiste num bloqueio e numa quebra da irrupção da physis e numa agressão à natureza. Em Que é metafísica?, Heidegger emprega o termo Einbruch, que se pode traduzir por "invasão" ou por "assalto", para indicar uma das marcas características da ciência moderna (HEIDEGGER, 1978, p. 105).

Todavia, o que significa, em termos heideggerianos, a téchne, a técnica em sentido originário?

No ensaio "A vontade de potência como arte", do Nietzsche I, Heidegger comenta o fato já conhecido de que os gregos denominavam tanto a arte quanto o artesanato com a palavra techné (HEIDEGGER, 2007a, p. 74). Todavia, ao mesmo tempo, também observa que a techné é, sobretudo, um saber e não um fazer. A techné é "[...] uma designação para aquele saber que porta e conduz toda irrupção humana em meio ao ente" (HEIDEGGER, 2007a, p. 75). Essa irrupção tem de ser pensada segundo a physis, como "[...] o que retorna e passa: a vigência que irrompe e retorna a si" (HEIDEGGER, 2007a, p. 75). Disso se segue que

[...] o artista não é um technites porque também é um artesão, mas porque tanto a produção das obras de arte quanto a produção de utensílios são uma irrupção do homem que sabe e procede de acordo com esse saber em meio à physis e em função da physis. O "proceder" a ser pensado em termos gregos não é, contudo, um ataque: ele deixa muito mais chegar o que já estava vindo à presença. (HEIDEGGER, 2007a, p. 75).

Logo a seguir, nesse mesmo ensaio, Heidegger situa o início da estética com Platão e Aristóteles como um certo desvio de rota do sentido originário da techné, uma vez que a mesma acabou sendo submetida ao discurso filosófico inaugural de Platão. O saber da techné, em consonância com a physis, foi subjugado à afirmação da ideia como eidos, o "aspecto", cujo conceito estabeleceu pela primeira vez a interpretação do ser como ser do ente. Se, antes, o ente era no ser, a partir de agora predominará o ser do ente, com o que se inaugura a onto-teo-logia, o discurso que vai em busca do ente superior a determinar, a cada momento, a entidade do ente.

No campo especificamente relacionado ao produzir artístico, essa subjugação da techné pela ideia se exprime no enquadramento do produzir pelas categorias da matéria e da forma, da ülé e da morphé. Nesse novo patamar, a techné acaba sendo orientada pelo registro de algo que limita (forma) e de algo que é limitado (matéria). Essa diferenciação entre matéria e forma, além de ser dirigida pela ideia, possui seu domicílio originário na confecção do utensílio e das coisas de uso, no campo da atuação prática humana (cf. HEIDEGGER, 2007a, p. 76).

O mesmo argumento sobre a proveniência do par conceitual matéria e forma é desenvolvido por Heidegger, no ensaio A origem da obra de arte, onde esse par expressa a concepção dominante da "coisidade da coisa", em relação às outras duas concepções, respectivamente de origem antiga, da coisa como substância com acidentes (Aristóteles), e de origem moderna, da coisa como um múltiplo dado às sensações (Kant). "Os três modos indicados da determinação da coisidade [Dingheit] apreenderam a coisa como o suporte de características, como a unidade de uma multiplicidade sensorial e como matéria enformada" (HEIDEGGER, 2003a, p. 15).

Essa ênfase na techné originária dos gregos como um saber e, portanto, não como um fazer, não como algo "técnico", tal como se consolidou essa expressão na tradição ocidental, constitui o argumento central de Heidegger, em A questão da técnica, para diferenciar a técnica antiga da técnica moderna. Reinterpretando a doutrina das quatro causas de Aristóteles, Heidegger retoma o sentido grego de aitia, causa em latim, e mostra que as chamadas quatro "causas" - o eidos (forma), a ülé (matéria), o telos (fim) e légein (causa eficiente) - estão essencialmente orientadas por um descobrimento do ente que mantém conservado o encobrimento. Dessa forma, torna-se questionável o predomínio que, na tradição ocidental, acabou recebendo a causa eficiente sobre as demais causas, a saber: as causas formal, material e final. No modo de pensar grego, cada causa não significava um cadere, um enquadramento, mas um acontecer de amplitude ontológica. Imperava antes um comprometimento interno e recíproco das causas, tendo em vista o ocasionamento do ente e um deixar acontecer o ente segundo a physis.

No entanto, a tradição ocidental pós-grega de pensamento, já com os romanos, interpretou o nexo de comprometimento e de cumplicidade interna das quatro causas sob o registro da presença do que se apresenta e da atividade humana de determinação dessa presença. Com isso, a causa eficiente passou a se destacar e transformou-se no principal critério da realidade de tudo o que é. No texto Ciência e meditação, ao abordar a concepção de ciência como teoria do real, Heidegger insiste que "[...] nunca é demais precisar: o traço essencial do fazer efeito e da obra não repousa no efficere e no effectus, mas no fato de que algo se ergue e repousa no que está descoberto" (HEIDEGGER, 2009, p. 45). A proeminência do efeito na compreensão do real redundará, mais tarde, na compreensão do real como objeto.

A época moderna se afasta da visão grega, ao pensar o levar à frente (determinado entre os gregos pela poiesis) como um desafio da natureza (HEIDEGGER, 2007b, p. 381). Esse desafio não se contenta apenas com uma extração momentânea da natureza, porém, objetiva uma reserva e um armazenamento, para que a natureza possa estar a todo o momento e mais facilmente disponível. O desafio, a extração, a exploração, o armazenamento, a encomenda e a distribuição da natureza, bem como a repetição constante desse ciclo, formam um sistema e significa a "armação" [Ge-stell], como "[...] invocação desafiadora que reúne o homem a requerer o que se descobre enquanto subsistência" (HEIDEGGER, 2007b, p. 384). A relação agora se inverte: não é o homem que aguarda o que a natureza tem a lhe oferecer, mas exige e dispõe a natureza como um objeto.

A propósito, como se coloca o homem nesse esquema de pensamento? De início, convém afastar a ideia ingênua de que o homem controla a armação, uma vez que ele mesmo está inserido no campo do desafio da natureza, como um elo da cadeia da "armação". Por estar dentro da cadeia, não depende do homem, enquanto indivíduo, como se dá o descobrimento do ente, mesmo que ele tenha a pretensão de determiná-lo.

Embora dependa de um destaque dado ao "fazer", a técnica moderna não pode ser pensada como um mero fazer que se esgota no domínio da ação humana, mas remete a uma essência mais ampla, a uma atitude que antecede a operação técnica, que é justamente o que designa a "armação", a Ge-stell, como a reunião do pôr desafiante da realidade. Ainda que o pôr da armação se assemelhe à poiesis como modo de desabrigar e "inventar" o ente, ele é substancialmente diferente dela, pois, no interior da armação, o homem não encontra mais a sua essência. Por meio da armação, a modernidade perdeu o controle do princípio da subjetividade, se é que algum dia se pode considerar que a transformação do homem em sujeito lhe outorgou a posição de "controlador".

Na técnica moderna, as imposições são exteriores à coisa. A técnica transforma todas as coisas em instrumentos, mas ela mesma em sua essência não é um meio, e sim uma atitude humana decidida na época moderna.

O que chamamos de técnica moderna não é somente uma ferramenta, um meio diante do qual o homem atual pode ser senhor ou escravo; previamente a tudo isso e acima das atitudes possíveis, essa técnica é um modo decidido de interpretação do mundo que não apenas determina os meios de transporte, a distribuição de alimentos e a indústria de lazer, mas toda a atitude do homem e suas possibilidades. (HEIDEGGER, 1989, p. 45).

A técnica é um perigo, dirá Heidegger, já que implica a intenção de ordenar o mundo de uma única maneira, de explorar a natureza tendo em vista uma única via e, com isso, regular a vida dos homens conforme essa via. A essência da técnica estende-se para o campo das atitudes humanas, acarreta um comportamento, principalmente de separação da natureza. A terra é submetida ao mundo e deixa de haver o combate, o qual na obra de arte ainda se mantém vivo. A arte, tomada como poiesis [Dichtung], é, ao contrário, um lugar onde a aproximação [dichtet] da terra e do mundo ainda permanece como uma possibilidade. Por isso, Heidegger dirá que

[...] a palavra ‘pôr’ designa no título armação não somente o desafiar. Mas ela deve imediatamente guardar a ressonância de um outro ‘pôr’ da qual provém, a saber, guardar a ressonância daquele produzir e expor que no sentido da poiesis deixa vir à frente no descobrimento o que está presente. (HEIDEGGER, 207, p. 385).

A técnica pretende estabelecer como os homens devem se pôr no mundo. Trata-se de um pôr que dispõe conforme uma norma exterior e abstrata. Já a arte, antes de ser apenas um setor da vida humana, uma mera atividade do homem (de um pequeno grupo de artistas ou dos amantes da arte), constitui uma possibilidade diferente para o homem de estar no mundo. "Poeticamente habita o homem sobre esta terra", ressalta o verso de um fragmento de Hölderlin, o qual Heidegger cita muitas vezes em seus textos. Ou seja, o que está em jogo na noção de poesia e de técnica (pensada desde sua origem como poesia) é a possibilidade de uma forma de existência.

E, assim, temos um forte contraste entre dois tipos de procedimentos e atitudes: uma situação é constituída pela terra como her-stellen e o mundo como auf-stellen, que estão em combate [Streit] na obra de arte e permitem o traço [Riss] enquanto forma [Gestalt]. Outra situação é o impulso desafiador, extrativista e armazenador da técnica moderna como armação [Ge-stell]. No caso do mundo e da terra, na arte, não se trata de comandar o pôr, como na técnica moderna, mas em deixar que algo se ponha por meio de um movimento mais amplo.

A imposição técnica, por sua vez, resulta de uma determinação não apenas científica, no sentido de que se poderia pensar que a técnica moderna é uma aplicação da ciência moderna. Sobretudo sua essência é metafísica, pois se encontra comprometida com um outro tipo de posicionamento, que é o da subjetividade como representação [Vor-stellung]. Resta-nos agora examinar a noção de Vorstellung, que está à base da Gestell.

3 A determinação metafísica da representação como armação

Heidegger afirma, no início do ensaio sobre a técnica, que "[...] a técnica não é nada de técnico" e distingue a técnica da essência da técnica. Uma coisa é pensar a técnica tal como se mostra imediatamente aos nossos olhos, segundo a relação instrumental como um meio para fins, outra coisa é pensar a técnica pelo modo como ela se apresentou, de acordo com a sua essência histórica, enquanto uma atitude decidida antes mesmo que a técnica se revelasse na existência. A palavra essência é então tomada segundo o verbo wesen e a pergunta pela essência da técnica é a pergunta pelo modo de se apresentar ou de se essencializar da técnica, em seu rasgo fundamental.

Disso decorre um fato simples: a essência da técnica não reside no modo de surgimento da técnica industrial e de máquinas, no século XVIII, como algo posterior ao surgimento das ciências matemáticas, as quais se impuseram com força, no século XVII, dando a ilusão de que a técnica seja ciência aplicada. Isso vale no âmbito da concepção instrumental da técnica, mas não quando se trata de sua essência, a qual está comprometida antes com a metafísica da época moderna.

A época moderna, por sua vez, é situada no começo de A época da imagem de mundo, texto de 1938, a partir de cinco características, que exprimem o propósito de o homem penetrar e dominar a natureza como sujeito. Num primeiro plano, vem a ciência e juntamente com ela a técnica moderna, cuja realidade é a técnica de máquinas. Esta, como já enfatizamos, não deve ser compreendida como mera aplicação da ciência, pois implica uma transformação específica da práxis e da atitude humana, cuja origem é a metafísica moderna. No horizonte da metafísica moderna, estão as outras três características que exprimem desdobramentos no campo da experiência moderna na arte, na cultura e na religião. A arte se desloca para o âmbito da estética, e o fazer humano se transforma em cultura, no sentido de que a cultura é a realização dos valores supremos do homem e o cultivo dos mesmos. Por fim, apresenta-se a desdivinização, que não deve ser simplesmente entendida como a "morte de Deus" e como um afastamento humano do elemento divino, algo como um ateísmo, e sim como a cristianização da imagem do mundo, tornada infinita. O próprio Cristianismo torna-se uma imagem de mundo, dentre outras.

O centro articulador da época moderna é a metafísica do sujeito, estabelecida em seus traços fundamentais por Descartes e que se manteve predominante até Nietzsche. É por intermédio dessa metafísica que o problema do "pôr", do stellen, assume um privilégio como uma presença diante do sujeito, isto é, como Vorstellung.

A natureza e a história tornam-se objeto do representar explicativo [...] essa objetificação do ente cumpre-se num re-presentar [Vor-stellen], que tem como objetivo trazer para diante de si qualquer ente, de tal modo que o homem calculador possa estar seguro do ente, isto é, possa estar certo do ente. Só se chega à ciência como investigação se, e apenas se, a verdade se transformou em certeza do representar. É na metafísica de Descartes que o ente é, pela primeira vez, determinado como objetividade do representar, e a verdade como certeza do representar. (HEIDEGGER, 1998, p. 109-110).

É preciso ressaltar, nessa transformação, o fato de que o homem se torna sujeito, o que significa que ele se torna a base, o üpokeimenon, a partir do qual a verdade se determina. A identificação do sujeito com um "eu" é uma consequência dessa transformação, mas não sua origem primeira, pois já nos gregos se tratava de um ego.

Heidegger considera que até Descartes - e isso no interior da metafísica estabelecida desde os antigos - todo ente era nele mesmo um sub-jectum, um üpokeimenon, "[...] algo subjacente por si mesmo, que, enquanto tal, está ao mesmo tempo na base das suas propriedades permanentes e dos seus estados que mudam" (HEIDEGGER, 1998, p. 131). Na metafísica de Descartes, esse sub-jectum se afirmará como libertação do homem como autodeterminação de si mesmo e como um sub-jectum destacado por si mesmo e relativamente a todas as outras perspectivas, a todos os outros entes, inclusive diante de Deus. Heidegger então pergunta. "O que é este algo certo que forma o fundamento e dá fundamento? O ego cogito (ergo) sum" (HEIDEGGER, 1998, p. 133). A perspectiva do pensamento que, simultaneamente, pressupõe uma existência, um ser, permite o destaque da categoria da representação, que exprime a projeção do homem como pensamento diante dos entes.

Contudo, a representação não significa simplesmente pôr algo diante do homem, "representar algo", numa atitude passiva de que algo que ainda não existe é então representado pelo homem e se torna um objeto. Pelo contrário, o representar tem o carácter do coagitatio, no sentido de que comporta um representar que é, ao mesmo tempo, um determinado projetar humano e, sobretudo, uma pretensão de controle desse projetar. O representar apenas aparentemente é uma apreensão do que está à frente e que se orienta por algo que vem à frente, à presença.

O representar já não é o pôr-se-a-descoberto para [...], mas o agarrar e conceber de [...] não é o que-está-presente que vigora, mas o ataque que domina. O representar é agora, de acordo com a nova liberdade, um avançar, a partir de si, para a área ainda por assegurar do que está seguro. O ente já não é o que-está-presente, mas só o que está posto em frente no representar, que é ob-jetivo [Gegen-ständige]. Re-presentar é ob-jetivação que avança, que doma. O representar empurra tudo para dentro da unidade do que é assim objetivo. O representar é coagitatio. (HEIDEGGER, 1998, p. 133).

Pode-se dizer que o processo de representação é simultaneamente duplo: é tanto a colocação de algo diante de si quanto a remissão do que é posto a uma relação de coação de quem pôs. "Re-presentar significa aqui trazer para diante de si o que-está-perante enquanto algo contraposto, remetê-lo a si, ao que representa, e, nesta referência, empurrá-lo para si como o âmbito paradigmático" (HEIDEGGER, 1998, p. 114).

Essa apreensão do homem como sujeito pela representação, que possui o carácter de coação significa que o representar é, a partir de agora, acompanhado pelo caráter da certeza fundamental do sujeito, que a cada representação se encontra na base como orientação representadora ou representativa. "Enquanto subjectum, o homem é co-agitatio do ego. O homem funda-se a si mesmo como medida para todas as escalas com as quais se mede (se calcula) aquilo que pode valer como certo, isto é, como verdadeiro, como algo que é" (HEIDEGGER, 1998, p. 135).

Se retornarmos novamente à questão da armação, da Ge-stell, pode-se considerar que ela é a efetivação plena da representação subjetiva, na medida em que avança na organização do mundo. A Ge-stell surge como a expressão da atitude organizacional, volitiva e de coação da Vorstellung, ou seja, como a manifestação da representação como vontade no domínio da ciência e da vida. Obviamente, esse traço fundamental da subjetividade como vontade apenas será levado à luz pelo pensamento de Nietzsche, que considera a vontade de poder como a essência do ser do ente e o eterno retorno do mesmo como sua existência. Entretanto, de alguma maneira já se encontra na base da metafísica moderna cartesiana.

A armação pode também ser pensada no horizonte da transformação da representação em imagem e em sistema, uma vez que a essência da modernidade consiste no fato de que o mundo se torna imagem. "Fazer-se imagem de algo quer dizer pôr o ente mesmo, no modo como está no seu estado, diante de si, e, enquanto posto desta forma, tê-lo constantemente diante de si" (HEIDEGGER, 1998, p. 112). E Heidegger acrescenta, mais adiante: "[...] é onde o mundo se torna imagem que o sistema chega ao domínio" (HEIDEGGER, 1998, p. 125). A noção de sistema, embora tenha encontrado sua expressão mais clara no campo do pensamento, implica uma estruturação da objetividade do ente ao ser representado. No sistema se exprimem concatenados os dois aspectos do "pôr" como posicionamento humano: o homem se torna sujeito e o mundo se torna imagem.

A consideração do homem como sujeito e do mundo como imagem se tornará cada vez mais forte e "dramática", na época da consumação da metafísica, no horizonte da relação entre representação e vontade em Nietzsche e na poesia de Rainer Maria Rilke. A técnica moderna é poetizada na oitava elegia de Duíno de Rilke, na postura do enfrentamento humano do "aberto" (HEIDEGGER, 2003b, p. 288).



Conclusão

No ensaio sobre a técnica, ao citar os versos de Hölderlin, do hino Patmos: "Mas onde há perigo cresce também a salvação", Heidegger visa a situar uma possível atitude humana diante da técnica, que se pode formular na pergunta: em que medida a técnica moderna, enquanto a matriz do modo como pensamos hoje o produzir, é um perigo para o homem?

E a resposta heideggeriana a esse questionamento, resposta que é ao mesmo tempo uma nova interrogação, consiste em explorar o sentido ambíguo da técnica moderna, pois, de um lado, a técnica moderna é a expressão continuada ou redirecionada da téchné antiga comprometida com uma poiesis, ao passo que, por outro lado, corresponde a algo radicalmente diferente e novo. Nesse sentido, a técnica não é um perigo, mas é o perigo. Em que medida se pode compreender esse carácter de perigo?

Na medida em que o homem pode se enganar com a amplitude de seu "fazer", querendo inclusive fazer-se de Deus e compreender tudo que o cerca como o efeito ou a possibilidade de algo ser submetido a um fazer humano (HEIDEGGER, 2007b, p. 389). Em nossa época (do século XX e do XXI), o ser humano é cada vez mais absorvido por aquilo que faz, é "usado" pela técnica como armação. Com isso, há o perigo de a armação como essência da técnica moderna impedir a experiência do desabrigar como tal, impedir ao homem a experiência da relatividade desse modo de descobrimento e assim vislumbrar um outro tipo de relação com o ente (HEIDEGGER, 2007b, p. 390).

Justamente por isso e por mais paradoxal que possa parecer, Heidegger considera que a técnica, em sua essência original, não é um perigo, e sim somente é perigoso o ofuscamento e a cegueira provocados pela atenção exclusiva à determinação instrumental da técnica moderna. Dito de outro modo, o perigo da técnica não está nos resultados técnicos e nos objetos técnicos que nos cercam e que parecem assustadores, mas o bloqueio gerado pela essência moderna da técnica, que repousa na armação. Nesse sentido, o perigo não é visível, não está nas máquinas, todavia, no sistema de pensamento que as alicerça.

A estrutura da técnica moderna é tal que ela nos faz esquecer que, na origem da mesma, está uma decisão humana. Ela nos impede de pensar que uma outra forma de desocultação também é possível. O requerer, a cobrança e a segurança que determinam a armação afastam o homem de experimentar outras formas de descobrimento de si e do mundo, bem como de diferentes modos de abrigar e desabrigar, enfim, de moradia sobre essa terra. "A técnica não é o que há de perigoso. Não existe uma técnica demoníaca, pelo contrário, existe o mistério de sua essência. A essência da técnica, enquanto um destino do desabrigar, é o perigo" (HEIDEGGER, 2007b, p. 390).

Segundo Heidegger, nunca iremos ter uma noção da técnica ou de uma outra possibilidade de conduzir nossa existência, enquanto nos ativermos apenas ao nível instrumental da técnica. Realizar reuniões ou debates técnicos sobre a técnica é o mesmo que bloquear um acesso verdadeiro à técnica. A atitude que se coloca no interior da técnica, simbolizada, por exemplo, no filme Tempos modernos, de Charles Chaplin, do operário que apenas vive em função de apertar os parafusos, impede a percepção da máquina como um todo. É preciso antes um distanciamento diante da técnica - e isso significa enfrentá-la com sobriedade. Quando for feito isso, a técnica deixará de ser algo assustador, mas se revelará a partir de sua origem poiética. E aqui, de alguma forma, poderão reencontrar-se a técnica e a arte, o produzir artístico e o produzir técnico.



Werle,  Marco Aurélio. Heidegger e a produção técnica e artística da natureza. Trans/Form/Ação, (Marília); v.34, p.95-108, 2011, Edição Especial 2.



Referências

HEIDEGGER, M. Der Ursprung des Kunstwerkes In: ______ Holzwege. Frankfurt am Main: Klostermann, 2003, 8. Aufl.         [ Links ]

______. Der Wille zur Macht als Kunst (1936/37) In: ______ Nietzsche I. Stuttgart: Klett-Cotta, 2008, 7 ed. (Vontade de poder como arte In: Nietzsche I. Tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007).         [ Links ]

______. Die Frage nach der Technik In: ______ Vorträge und Aufsätze, Tübingen: Neske, 1959 (A questão da técnica. Tradução de Marco Aurélio Werle com apresentação de Franklin Leopoldo e Silva. Revista Scientia Studia. Departamento de Filosofia/USP, 2007).         [ Links ]

______. Die Zeit des Weltbildes In: ______ Holzwege. Frankfurt am Main: Klostermann, 2003, 8. Auflage (O tempo na imagem do mundo. Tradução de Alexandre Franco de Sá, In: ______ Caminhos da floresta. Lisboa: Gulbenkian, 1998).         [ Links ]

______. Conceptos fundamentales (Curso del semestre de verano, Friburg, 1941). Introdução, tradução e notas de Manuel E. Vázquez Harcía. Madrid: Alianza Editorial, 1989.         [ Links ]

______. "Wozu Dichter?" In: Holzwege. ______ Frankfurt am Main: Klostermann, 2003, 8. Aufl.         [ Links ]

______. Wissenschaft und Besinnung In: ______ Vorträge und Aufsätze, Stuttgart: Klett-Cotta, 2009, 11. Aufl.         [ Links ]

______. Was ist Metaphysik? In: ______ Wegmarken, Frankfurt am Main: Klostermann, 2. Auflage, 1978.         [ Links ]

1 Professor Livre-Docente do Departamento de Filosofia da USP. Atua na área de Estética e de Filosofia Alemã Moderna e Contemporânea. É autor de A poesia na estética de Hegel (Humanitas, 2005) e de Poesia e pensamento em Hölderlin e Heidegger (EDUNESP, 2005) e tradutor de Escritos sobre arte de Goethe (Humanitas, Imprensa Oficial, 2005) e, juntamente com Oliver Tolle, de Cursos de estética de Hegel (EDUSP, 1999-2004, 4 vol.).