Uma das coisas que enfraquece a relação de Hollande com o PS é o fato de ele não sentir-se grato à este em nenhum aspecto, e de nunca ter buscado dar satisfações de seus atos ao partido. Sua candidatura foi produto de uma ''primária aberta'', fator político que serve tanto para aprofundar os mecanismos da democracia partidária quanto para enfraquecer a influência do partido vitorioso no governo. A relação do representante eleito com a base partidária que o ''sustentou'', após as primárias, sempre é de desconfiança. Assim foi com Donald Trump nestas eleições. E há vários outros casos recentes no mundo. Por sinal, uma ameaça de destituição serve para escancarar essa realidade partidária recalcada. Num momento em que medalhões socialistas abandonam o barco do governo e avaliam o peso eleitoral da ''auto-crítica'' e do ''fogo-amigo'', a busca pela sucessão presidencial francesa começa a produzir impulsos poderosos e irreconciliáveis herdados da sutileza no guerrear consigo mesmo. Autodomínio e auto-engano, então surgem dentro dos partidos as mágicas incompreensibilidades e inimaginibilidades, esses homens enigmáticos convencidos de sua predestinação à vitória e à sedução. Eles surgem precisamente no mesmo momento, tanto na esquerda quanto na direita republicana. Enquanto os socialistas anseiam pelo sossego de uma campanha aparelhada com restos de corporativismo decadente, as primárias da direita surgem como uma espécie de Quarta Dimensão Vertical das eleições presidenciais francesas, um universo paralelo onde o que vale é a capacidade dos candidatos de medir e imitar a realidade do país o mais fielmente possível, mas sem nunca abrir mão das luzes enfraquecidas com que iluminam apenas metade dos problemas. Uma tentativa do espectro liberal de impedir a aurora de novos comandantes carismáticos pela substituição destes pela somatória de prudentes candidatos gregários.
K.M.
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