segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Belas palavras no meu musgo branco.

Naquela tarde, meus manuscritos estavam todos espalhados sobre a mesa como doentes terminais num leito de hospital. ----- O gabinete de trabalho de Goethe também era terrivelmente primitivo. Tudo muito modesto (.) -----, eu disse à elas. Minha voz estava como que queimada de tanto constrangimento. Sentado na escrivaninha, eu apertava meu próprio joelho, numa aceitação dolorosa do meu estado de nervos. Pegara aquelas moças pelo cabelo e as acorrentara à uma revolução mundial que só estava acontecendo na minha cabeça. Digo: acorrentara-as à uma coisa autêntica, e logo depois caíra enfermo, rindo triunfalmente do caos imaginário no qual eu lançara o mundo. Aquela era a simples, horrível definição do que eu era de fato, sobretudo diante de quem, muitas vezes, me ouvia de olhos fechados. Estranho, mas eu não estava pálido. ----- A palidez (eu disse) sempre me pareceu um recurso simplório e clemente de escritores românticos (.) quanto mais tempo eu me exponho à luz crua da minha obra, que tosta minha pele e dilata minhas narinas, mais julgo reconhecer no fundo de suas instalações uma razão que se ignora a si mesma. Se longos períodos de doença acamada tornam as expressões fisionômicas mais amplas e serenas, e as fazem refletir emoções que um corpo sadio traduz por decisões, em modos diversos de intervir, de dar ordens, enfim,  se um leito de doença transforma uma pessoa num mímico autista, então não é sem razão que minhas centenas de páginas estão espalhadas nessa mesa, sofrendo em seus repositórios (.) -----, eu disse. Minha vontade de deitar, de levantar-me da mesa e escorregar para a cama, era imensa naquele momento. E se uma delas era agora minha de fato,  eu certamente a veria do meu lado, ao abrir os olhos e acordar. Por hora, tinha as duas no meu campo de visão, aferrando-me ao último resto de silêncio interior que elas haviam destruído em mim com seus respectivos solilóquios. Em outro contexto, porém, eu já me ouvira advogando por causas perdidas, mas pedir à qualquer uma delas que fosse minha, porque nada podia estar dito, nem ser verdade por antecipação, exigia agora  uma linguagem diferente. Qualquer verdade só começaria do outro lado, ao término da viagem de nossos corpos, e eu não poderia exigir nada delas até lá. ------ Eu, particularmente, não me importo que você seja assim (.) ------, uma delas disse. Mas em nenhuma a recusa parecia ser uma solução ventilada a sério. Temendo ser incompreendido, ou mal interpretado, resignava-me a fingir timidez e espera; algo como um corpo de virgem contraído pelos pavores do atavismo. ------- Não riam (eu disse) ; o que mais eu posso fazer nesse momento além de enfileirar belas palavras no meu musgo branco (?) Apesar de tudo,  vocês me deram margem suficiente para experimentar uma breve felicidade de labareda (.) -----, eu disse.

K.M.

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