Num cálculo aproximado, não é apenas evidente que a cultura ocidental declina de maneira horrível; também não faltam razões na América e na Europa para tanto. Afinal de contas, ninguém pode gastar mais espírito do que tem e continuar de pé ---- e isso vale tanto para indivíduos, quanto para povos. Vale para tudo e para todos. Se gastarmos nossas energias com o poder, com a grande política, a real politik, a economia, o comércio internacional, os acordos duvidosos, as legislações polêmicas e os interesses militares ocultos ----- se gastarmos ''neste'' lado a quantidade de entendimento, seriedade, vontade e auto-superação que somos, então tal quantidade certamente nos faltará do outro lado. A Cultura e o Estado ----- não nos enganemos quanto à isso ----- são antagonistas: o '' Estado Cultural '' é só uma vaga prestidigitação retórica da modernidade. Tal coisa nunca existiu, nem existirá nunca. Na realidade, Estado e Cultura, vivem um do outro, um só prospera às custas do outro, constituindo uma relação de parasitismo e vampirismo... Vamos ! Todas as grandes épocas da Cultura são épocas de decadência política e retórica: o que é verdadeiramente grande na história da cultura foi na sua época ''apolítico'', ou mesmo ''anti-político'' e ''trans-histórico''. Digo: eterno. O coração de Goethe se abriu com o fenômeno político de Napoleão mas se fechou depois com as Guerras de Libertação. Hoje, numa hora em que o deslizamento profundo do julgamento popular na Alemanha sobre os tratados de livre-comércio assusta, com três quartos das pessoas entrevistadas rejeitando o Tafta e o AECG, o patronato industrial alemão se pergunta consternado o que vem despertando uma mentalidade isolacionista que se espalha tão rápido pelo país. Anti-americanismo ?? Quem dera !! Antes fôsse... No mesmo momento em que nos Estados Unidos Donald Trump ''ascende'' como potência política patriótica, julgando que o discurso econômico do Establishment fôra completamente falseado por idéias geradoras de ansiedade social e volatilidade financeira, e simplificando a próprio discurso em torno da criação de empregos e da expulsão dos imigrantes ilegais, é que a Alemanha passa a se mobilizar massivamente contra a política comercial européia, e a importância da França como fonte complementar de idéias políticas transforma-se na última chance do mundo escapar ao reducionismo policial na teoria do Estado. Alguma seriedade nova nas primárias da direita, e muita paixão nova no espírito popular, como o nacionalismo, vem sendo injetado em Paris e distribuído para o resto da França ; a questão do pessimismo com a ''esquerda neoliberal'' de Hollande e seus filhotes que ''deu totalmente errado'', e quase todas as outras questões políticas estruturais, infra-estruturais e super-estruturais, na França são consideradas de maneira incomparavelmente mais sutil e mais profunda que na América, e mesmo que na Alemanha, cujo debate apenas reproduz com atraso o que se berra antes na França e nos Estados Unidos. Os alemães atuais parecem incapazes até mesmo de uma autêntica ''seriedade política'', uma vez que passaram a se mobilizar contra a política comercial européia após colocarem sua principal dirigente na crista da onda globalizante e burocratizante de Bruxelas.
K.M.
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