domingo, 27 de novembro de 2016

O pathos e a vaidade do artista.

Existem artistas que fazem um número tão grande de coisas e as fazem tão bem, que muitas vezes não sabem nem mesmo dizer o que de melhor fazem; além disto, são vaidosos demais e concentram todos os seus sentidos em coisas muito mais imponentes do que as pequenas plantas parecem ser. É natural que, em tais circunstâncias, ele frequentemente se apresente como um músico que, mais do que qualquer outro músico, possui uma grande habilidade para encontrar os acordes certos de algumas almas oprimidas, ao mesmo tempo em que busca dar voz às coisas mudas. Ninguém (obviamente) consegue igualá-lo no uso das cores, nem dos acordes e muito menos das palavras; e na felicidade indescritivelmente abrasadora destas últimas, derradeiro e breve prazer de um espírito que passa através das coisas como um raio, ele reúne e conhece o tom adequado para aquelas noites secretas e misteriosas da alma, onde causa e efeito desconjuntam-se e a todo instante alguma nova maravilha ''surge do nada''; na mais feliz das situações ele bebe do plano mais baixo da felicidade humana e também do respectivo cálice que a maioria dos homens só encontra vazio. Ele possui o olhar tímido de alguém que vê coisas ocultas, da compreensão sem declaração. Ele é naturalmente maior do que qualquer um, e por meio dele é que se acrescenta à arte muita coisa que até então parecia completamente impossível e inexprimível. Seriedade em relação à Verdade ! As pessoas entendem coisas muito diferentes quando  ouvem suas palavras, o que vai de acordo com a capacidade de cada um. As opiniões, argumentos e provas que algum pensador considera levianas, justamente estas mesmas opiniões é que podem dar ao artista, que se depara e vive com elas por algum tempo, como quem frita pequenos peixes numa frigideira, a consciência de que ninguém a não ser ele foi imbuído da mais profunda seriedade em relação à verdade. E devemos  render aqui nossa admiração ao fato de que, apesar de seus vôos poéticos,  ele também demonstra o mais sério anseio pelo oposto das aparências. Assim é possível que exatamente com esse ''Pathos'' de seriedade, alguém perceba o quanto pode ter sido superficial em relação à ele, e quão mesquinha pode estar sendo a atuação de seu espírito em relação à um espírito maior em tudo que o seu, até mesmo no âmbito do reconhecimento mundial. Isso denuncia em cada um onde se coloca o peso real das coisas.  Até escondido, até escondido de si mesmo, o grande artista é capaz de pintar suas obras primas com um único compasso e sentir-se bem, grande e completo, mesmo sozinho. Mas talvez ele mesmo não saiba disso. É vaidoso demais para sabê-lo.

K.M.






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