domingo, 27 de novembro de 2016
Carta aberta à um ultra-liberal.
Se considerarmos a aparente flutuação ideológica que se opera na França nesse exato momento, se formos realmente capazes de nos deixarmos levar pelas impressões , e apostarmos numa vitória certa de François Fillon, seremos obrigados a reconhecer que o que aconteceu na França a partir do ''recreio pré-escolar'' de 1968 se repete agora, numa escala microscópica. Foi mais ou menos assim que o paradigma marxista perdeu o lugar para o paradigma liberal , e que a pulsão de ruptura com o capitalismo cedeu passo à consagração da livre empresa e ao desengajamento irresponsável do Estado. Tal repetição hoje tende a ser desastrosa em função da transnacionalização da economia e da feira-livre globalizante dos empregos nacionais. Após aquela voga maoista contestadora que ''agitou'' a França, sobreveio o ''estado de graça'' do mercado e, logo, a ''transubstanciação'' do sistema financeiro. Após a Grande Renúncia comunista ao nirvana capitalista, o êxtase místico do lucro infinito. Até ontem o clima nas cabeças dos homenzinhos gregários estava como nunca para a ''utopia'', mas hoje se arrasta na cama de faquir do pragmatismo e do realismo administrativo. Correlativamente à promoção ideológica da concorrência econômica, assistiu-se então à reabilitação dos valores individualistas competitivos. E enquanto a ambição, o esforço próprio e o poder corruptor do dinheiro eram promovidos, proclamava-se a morte espiritual de Sartre, Althusser e seus miquinhos amestrados. Denunciava-se o feminismo como um baboso refluxo pré-escolar de uma esquerda cada vez mais amolecida e sujeita à ''ideologia pedagógica'' (risos). Decretada, finalmente, a morte cerebral de todo o entusiasmo pela ''comunidade educativa'' e pelas ''velhos tempos que não voltam mais'' , era chegada a horado saber técnico, da instrução processual, da autoridade espiritual do Mestre Tecnocrático, do ''elitismo republicano''. O mérito, a excelência, a competência individual e outras fantasmagorias teóricas, jamais comprovadas na prática , prevaleciam em todos os discursos políticos; após a euforia contracultural e relacional, o pêndulo político acertava-se globalmente com a meia-noite da eficácia econômica e dos balanços contábeis como prova da existência de Deus. A ''reputação sólida'' do homem comum tomava de assalto o brilho do ''herói nacional''. A reputação sólida dos políticos ,dentro da democracia representativa, tornou-se desde então algo da mais extrema utilidade eleitoral; justamente ali onde a sociedade de massas estava mais dominada pelos instintos de rebanho, o mais conveniente para o ''animal político'' profissional era apresentar seu caráter e sua profissão como algo imutável ----- mesmo que, ''basicamente'', não o fosse de jeito nenhum. ----- VEJAM (!) PODEMOS CONFIAR NELE (!) É SEMPRE O MESMO (!) ------, pensavam todos. Hélas ! Eis o mais significativo elogio que valia então, em todas as situações perigosas da democracia. Com a mais ingênua das satisfações, o povo era levado a sentir que possuía nesses ''homens de reputação sólida'' ferramentas confiáveis sempre disponíveis na ''virtude'' de um , nas ''ambições'' de outro, ''no pensamento e nas paixões '' de um terceiro ------ o povo aprendera então a respeitar imediatamente, e com todas as honras, essa ''natureza de ferramenta'' dos liberais, a permanente fidelidade a si mesmos, a imutabilidade de suas opiniões e programas políticos, o empenho e até mesmo os vícios mais nítidos da austeridade reformista eram festejados como algo ''sólido'' e infalível. Esse tipo de avaliação realmente floresceu no mundo inteiro até o clímax neoliberal do Reino Unido e dos Estados Unidos, a ''moral de ocasião'' do liberalismo se apropriou violentamente das ''reputações sólidas'' usando a mídia e infiltrando-se no Estado de todas as formas possíveis e imagináveis, para levar ao mais completo descrédito qualquer ''visão política'' alternativa, capaz de propor adaptações e novas condições de transformação da sociedade e das práticas administrativas. Mas como qualquer pessoa minimamente instruída sobre a história política dos últimos dois séculos sabe, a última vaga liberal está longe de poder impor-se à uma inteligência lúcida sem discordâncias. Por maior que tenham sido as vantagens políticas e econômicas colhidas por esse tipo de pensamento, ele mostrou-se a forma mais prejudicial de avaliação geral para as nações ocidentais, assim como, em outro plano, para a cultura e o conhecimento , representando uma forma de colonização industrial da soberania dos indivíduos ainda mais vasta que as anteriores. Se há ainda hoje , e incontestavelmente , uma grande aprovação da empresa privada e da menor, ou mesmo da mínima participação do Estado na economia e outros setores da sociedade, isso de modo algum impede o corpo social, mesmo na América, de ser favorável aos sistemas de proteção social, às políticas sociais instaladas no quadro do Estado-Providência . Há desafeição em relação ao intervencionismo estatal em matéria econômica sem que isso destrua o apego coletivo à cobertura dos grandes riscos. Celebra-se o dinamismo empresarial, hoje , mesmo quando ele só vai de mal a pior, acontecendo muitas vezes de se transformarem os credos liberais numa daquelas crenças africanas primitivas que fazem os huris ficarem implorando histericamente para que alguma chuva caia do céu. A moral de ocasião liberal, obviamente, possui seu ''exército de extremistas fanáticos'', mas socialmente , hoje, ela só é ainda capaz de avançar ''pisando em ovos ', pois não é nisso que o povo está depositando suas esperanças. Claramente não o é... François Fillon só foi capaz crescer tanto nas primárias da direita francesa aparando bastante uma série de arestas marcadas, e recompondo-as de maneira totalmente heteróclita, perdendo qualquer caráter político doutrinal para realizar uma espécie de feitiçaria publicitária com aparência de conjunto capaz de prometer uma transformação mais rápida, que de maneira alguma alcançará os resultados prometidos sem fraturar enormemente o equilíbrio social e econômico francês, já fragilizado pela incompetência socialista dos últimos anos. O agora candidato presidencial da direita , François Fillon, encontrou ao longo de sua campanha vitoriosa aquela ''boa vontade'' que reconhece silenciosamente a fragilidade de suas propostas e, sabiamente, persiste em dar exatamente as mesmas explicações , e o tempo todo. Enquanto a petrificação de tais opiniões tornou-se digna de honra por parte da mídia e de um grande número de eleitores, e o candidato estabeleceu sua ''reputação sólida'' como trunfo eleitoral, o resto dos adversários aceitou seguir a disputa sob o jugo dessa noção evasiva. A atual corrente neoliberal francesa é mais uma moda de estação do que um credo ideológico firme; diga-se logo: é a atração de uma ''novidade'' que de novo só tem a velha e embolorada imagem da ''propriedade privada'' e da concentração de riquezas como forma de diluir toda e qualquer antítese política. E todos sabemos , hoje em dia, que a incapacidade neoliberal de tolerar contradições é um perigoso sintoma de decadência cultural. O ser humano mais nobre não só as tolera, como busca despertá-las em si mesmo voluntariamente, corajosamente, para obter sublimes indicações sobre as injustiças implícitas em seu próprio pensamento. O ''saber contradizer'' aprimora a consciência obtida diante da hostilidade. Saber contradizer é ser verdadeiramente grande,verdadeiramente novo, o fato mais espantoso da cultura é sempre algum tipo de antítese, , o passo dentre todos os passos no caminha do Espírito Livre. Como toda moda, como toda moral de ocasião, se o programa ultraliberal de Fillon vencer as eleições presidenciais, teremos sem nenhuma dúvida algo novo, mas será antes um novo vento de loucura devastando o Estado e a Sociedade francesa pelas miragens funcionais da racionalidade técnico-administrativa.
K.M.
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