Eu apenas queria persuadir Dorothy de uma certa coisa, mas não sabia se tal coisa lhe interessava. E não estava particularmente disposto a guerrear no caso de seu desinteresse. Eu também a teria ignorado sem esforço, seguindo o ditado de que nã há melhor surdo do que o ***. Enfim, minha mente, naquela manhã, estava se movendo como o reconhecimento profundo de uma coisa extremamente pessoal, de uma lembrança marítima e querida. E quando me dei conta, após um momento de incredulidade de Dorothy, muito do que eu estivera sentindo em outros terrenos e dias se cristalizou de repente e veio com força às minha cordas vocais: ----- Estou um pouco nervoso, Dorothy; há certos nervos esmagados em mim, de cuja existência ninguém suspeita, e que de repente vêm à tona, incendiados (.)Eles estao queimando-me agora. Na verdade, desde ontem. Quase de imediato, num café do NoLIita ontem de manhã, fumando diante de um Cinzano das onze horas, tudo isso virou literatura. Pela primeira vez, vi claro na meada como tinha ido parar em Nápoles aos vinte e tres anos, sem praticamente nenhum dinheiro. Não sou uma pessoa sentimental, mas ontem fui capaz de entesourar essas lembranças com exagero de detalhes, sem nem ao menos saber como foi que entrei nisso. Um desejo puro e sem forma de misturar discursos através de portas entreabertas me precipitou numa recapitulação espontânea de tudo. Naturalmente, se chegassem a constituir um sistema, minhas centenas de textos soltos e fragmentários só seriam capazes de constituir um sistema antiquado. Sempre fui cético a esse respeito. Seria o caso, então, de perguntar se eles não estariam mais na ordem um programa, exaustivamente aplicado, do que de um sistema. Porém nao pretendo entrar no mérito da questão. Só quem se diverte com isso é sua tia. O fato é que quando uma pessoa fica órfão tão cedo quanto eu, cai na situação em que todas as pessoas acabam caindo um dia, só que muito mais cedo. E isso é enganoso porque, a princípio, você não tem nada para aprender com a experiência, podendo vir inclusive a tornar-se supersuscetível à entusiasmos que apenas te preparam para doutrinações duvidosas . Minha juventude foi marcada por uma longa série de interrupções nesse sentido, por bolhas de vácuo existencial onde de repente eu me via varrido para novas faixas de possibilidades sem testemunhas conhecidas.. nelas, a sobriedade era o único valor capaz de me salvar da auto-hipnose. Aquela parcimônia do espaço vital em que não ocupava apenas a cidade visível por onde eu vagava, mas todo o espaço de consciência em que eram assumidas novas posições existenciais, tornando-me presa fácil para todo tipo de vertigem do pensamento e aspirações poéticas. Em tais circunstâncias, comportar-me de maneira britânica tornou-se um dos meus mais frequentes pontos fracos: nenhuma inclinação à favor de declarações públicas de amor e afeição. Frio ??, e para piorar, em Nápoles a linguagem gestual ia muito mais longe do que em qualquer outro lugar da Itália. A conversa dos napolitanos, para um forasteiro, era completamente indecifrável num primeiro momento. Seus ouvidos, narizes, olhos, os peitos e os ombros dos napolitanos, são postos de sinalização que seus dedos ocupam enquanto eles falam. Os cafés de Nápoles, nos quais eu entrava após empregar-me nas docas, eram verdadeiros laboratórios desse processo de interpenetração gestual. Antípodas dos cafés literários vienenses, dedicados à burguesia do ''Norte'' ; os de Nápoles eram café populares, políticos, abertos e despidos, nos quais logo me pareceu impossível sentar-me para escrever algo, ou mesmo permanecer neles muito tempo, contemplativamente. No entanto, era o melhor espresso da Itália. E a distribuição dos gestos solícitos e toques de impaciência, , que davam nas minhas vistas, se encontravam também na especialização caprichosa do erotismo das napolitanas, com uma regularidade que excluía o acaso. E elas não se incomodavam muito com o jeito com que comecei a cortejar todas, em menos de um mês, abandonado meus modos britânicos. Naquele período de ilegalidade, eu tentava desesperadamente fazer contato,ganhar um coração, incubar uma alma e seus préstimos de cidadã regular. Estava completamente perdido, repetindo comigo mesmo a todo instante: ''Vedere Napoli e poi mori ''. Alcancei parcialmente meus objetivos iniciais atraindo o interesse de garçonetes e estudantes de literatura; depois, uma técnica de laboratório farmacêutico de Sorrento e uma manicuri. Desenvolvi uma facilidade incrível para sussurrar ''eu te amo'' nos ouvidos das mulheres, sempre preocupado em refinar a técnica em cada ocasião. Assim que acumulei um grande número de histórias engraçadas sobre o divertido gosto de regatear das napolitanas. Praticamente não saía da Toledo, a rua mais movimentada da cidade; de ambos os lados daquela rua se concentrava de forma rude e sedutora tudo o que chegava no porto, onde eu trabalhava. Sufocada pelo pitoresco cinzento , minha vida ali era porosa e híbrida, totalmente submergida nas ondas da comunidade. A antiga miséria social de Nápoles deixara um rastro histórico na cidade, de expansão de fronteiras sociais, que favorecia incrivelmente a liberdade de espírito. Mais ou menos como nas favelas do Brasil. A coisa mais perfeita que resultara disto, historicamente, a meu ver, tinha sido Sofia Loren, ainda que (ahimé !) envolvida numa grande engrenagem de interesses industriais, mas ''perfeitamente'' capaz de declanchar na Ciociara, de Vittorio de Sica. Antiga popalona de Nápoles (!) Quanto mais pobre era o bairro, mais movimentados e numerosos eram seus bares. E ali só se cozinhava à risca, seguindo rigorosamente velhas receitas corroboradas pela feitiçaria gastronômica italiana. A forma como, na menor daquelas ''trattorias'', peixe e carne ficavam expostas nas vitrines, escapavam ao hábito e às exigências dos ''conhecedores''. Livres da grandiosidade holandesa, aquele povo de marinheiros loucos punha tudo o que pescava à vista no mercado do peixe: estrelas-do-mar, caranguejos, polvos saídos das águas do golfo, muitas vezes consumidos crus, apenas com algumas gotas de limão. ----- Bestie... sono tutti bestie(.) ------, Sardinaglia me disse no dia da festa na Piedrigrotta; ele era um jovem de rosto engraçado, que cursava literatura, e se auto-proclamava futurista e fascista. Do dia 7 para o 8 de setembro, de 2003, o alarido selvagem nas ruas de Nápoles o estava enchendo de hostilidade para com o povo, o que tornou sua companhia detestável para mim. Afinal, ninguém era mais do povo que eu, naquele momento. ------ Um futurista (eu disse à ele) deve ser forte e não se deixar impressionar por nada, exceto por sua própria fraqueza e estupidez (.) -----, declarei sentenciosamente. Depois contei-lhe que tinha um caso com uma ''ordinanzza'' de um laboratória farmacêutico de Sorrento, e que pretendia me encontrar com Jeanette dali há alguns minutos. ----- Bella ragazza (.) -----, eu disse. Depois disse que estava na hora de ir. Seu mau humor estava me deixando toldado. Me livrei dele e parti para encontrar Jeanette na praia, onde os pinheiros do Giardino Pubblico formavam um claustro convidativo. Ela sempre ficava comigo quando vinha à cidade , e quando entramos no jardim, a chuva de fogos de artifício aninhou-se sobre nossas cabeças nas copas das árvores. Ela disse=me que nunca coucayed com nenhum outro marinheiro enquanto o Owanda esteve no porto, e eu a tratava com consideração, apesar de não tomar nosso caso a sério. Meu dinheiro então já vlia alguma coisa, e as pedras preciosas que eu carregava no bolso valiam muito mais que dinheiro para as mademosels . ---- Uma antiga lista folclórica dos sete pecados capitais (eu disse à Jeanette naquela noite) atribui o orgulho à Gênova; a avareza à Florença (ou o que os alemães chamam de o ''florentino amor grego '') ; a luxúria à Veneza; a ira à Bolonha; a gula à Milão; a inveja à Roma e a preguiça à Nápoles. Mas aqui, quando alguém baixa as cortinas sobre a janela de uma casa, num Domingo de festa como esse, lá dentro um outro tipo de bandeira é içada. Viajantes incapazes de captar essas nuances tem pouca coisa para ver e fazer aqui, não acha (?) Há inclusive um velho soneto de Nerval onde ele clama a imediata restituição do ''Pausillipe et la mer d´Italie '' e de ''comer macarrão com as mãos'' (.) -----, eu disse.
K.M.
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