O San Francisco Hilton tinha um modo surpreendente de aproveitar o espaço interno do hotel, e uma enorme vantagem totalmente americana: qualquer hóspede ali podia conduzir seu carro até o apartamento. Logo que cheguei, senti que devia rodar a pé pela cidade , como Rostif de la Bretonne nas ruas de Paris, e escrever uma crônica no fim da tarde. Seria sensacional. Sábado de manhã, três dias antes do início das primárias da Califórnia, a atmosfera tinha a mesma desanuviada, límpida, salutar excitação americana que captamos na manhã de um grande jogo de futebol. Na minha cabeça, eu já era o candidato, e devia me preocupar apenas com as eleições gerais . A juventude estava solta, a que era pelo meu adversário e a que era por mim, e alguns elementos se comprimiam no saguão aberto do hotel, , no irremediavelmente exíguo e congestionado vestíbulo onde filas de cem de comprido esperavam cada um dos elevadores que não cessavam de subir para o décimo quarto andar, onde eu montara meu quartel-general e logo saíra à francesa, imperceptivelmente, com uma pistola automática debaixo da blusa e um maço de cigarros. Lá fora o dia estava claro e luminoso, um daqueles dias frios de sol em junho, quando San Francisco é tão atraente quanto Nova York num belo dia de outubro, e a cidade se projeta de Nob Hill num lançamento perfeito. Havia maçãs no ar. Era um perfeito dia de futebol. Havia até mesmo o desejo de se ter dezoito anos e um encontro marcado com uma garota para fornicar e depois comer como um porco antes do jogo. Assim os times alinhavam-se primeiro na mente de cada um, as crianças, os adolescentes, os homens e as mulheres jovens pró-Trump de um lado, pró-K. do outro, e era possível perceber muitas coisas sobre os colégios e os times olhando para aqueles rostos. As moças e os rapazes do meu adversário eram, na sua maioria, inocentes e tendiam para ostentar queixos sólidos e ligeiramente salientes, não muito diferentes do próprio Trump, e olhos azuis ------ uma quantidade medonha de olhos azuis ( iria o mundo entrar, finalmente (eu pensava), na guerra dos olhos azuis contra os olhos castanhos? ) -------- e eram gente simplória, suburbana, matuta, os rapazes com uma ligeira propensão para as borbulhas, uma ou duas espinhas introspectivas nos cantos da boca ou no queixo, uma porção deles com ar solene e grave, dedicados mas um tanto vazios: seriam capazes de consertar qualquer coisa num carro ou num notebook, porém uma palavra como ''Renascença'' ou ''Tradicionalismo'' provocaria entre eles uma surda ferida de estupefação e silêncio em seus cérebros. Eram idealistas, quase até ao último deles, mas não falavam das variedades mais afortunadas de idealismo; faziam-me pensar em luteranos de Dakota do Norte , 4-Hs de Minnesota e escoteiros do Maine. Eram jovens parcimoniosos, trabalhadores, polidos, ligeiramente encabulados ante a variedade humana degradada da vida moderna, mas prontos para morrerem por uma boa causa americana. Era óbvio pensarem no meu adversário como um dos melhores homens jamais dado à luz na vida americana. Já as moças do meu oponente eram de duas variedades por ali: havia as modelos alugadas para a ocasião, atraentes mas não muito imaginativas, com o ar de quem foi posta no dorso de um cavalo sem saber montar direito; e havia, depois, as verdadeiras adeptas, as filhas dos delegados, as filhas da Califórnia que pertenciam a um ou outro club pró-Trump. Eram mais jovens que as modelos, claro, andando quase todas na casa dos dezenove anos, poucas com mais de vinte e um, trajando chapelões de cowboy, saias brancas, botas de montar; quase todas eram loiras, e seus rostos eram simples e delicados, o gênero de rostos que os comerciais de TV usam para produtos como fermento que faz crescer massa de bolo, antes do comercial se tornar espirituoso; aquelas mocinhas tinham a cara de meninas que ouviam os conselhos de seus papais; eram cheias de personalidade, mas era aquela personalidade que provém do asseio, da indústria, da construção civil e da obediência -------- ao contrário dos rapazes pró-Trump que, de modo geral não pareciam estúpidos, mas ligeiramente maníacos na singularidade de sua visão (da maneira que jovens excessivamente parrudos parecem ligeiramente maníacos), e as moças pareciam quase todas bastante incultas. Havia uma garota loira que era um encanto, uma obra de arte, suficientemente bonita para aspirar a ser Starlet, mas que me provocava angústia porque seus olhos, quando abertos, eram irremediavelmente baços, inexpressivos. Em conjunto, rapazes e moças eram como uma classe em vésperas de colar grau num ginásio de Nebraska. O graduado incumbido do discurso estava falando sobre os seguintes temas: ''Por que os Estados Unidos são A MAIOR NAÇÃO DA TERRA'' e por que ''A AMÉRICA EM PRIMEIRO LUGAR ''. Naquele momento, meu celular tocou. Era Rostiff: ---- Eram espertos, de modos suaves, frouxos e com pendor para gravatas-borboleta e do gênero capaz de guiar conversíveis em alta velocidade só para se livrarem do estigma de frouxos. Haviam ainda rapazes pró-K. que eram descendentes de Holden Caulfield. Faces como a daqueles moços tinham sido vistas em Los Angeles, em 1960, em favor de Stevenson contra JFK, e faces exatamente iguais poderiam aparecer agora, com igual facilidade, do outro lado da rua, a favor do nosso adversário -----. Mas, por enquanto, eram favoráveis à mim, o candidato ''POSSUIDOR DE TALENTO LITERÁRIO, CLASSE, ALCOOLISMO E UM PRESSENTIMENTO INATO DE DERROTA ''. Apagados, fúnebres, certamente acerbos, os Holden Caulfields eram pró-K. e pareciam encolhidos ao lado das moças pró-K., quase todas de atraente aspecto, ligeiramente petulantes e mimadas, suscetíveis, temperamentais, candidatas e debutantes fazendo o possível para parecerem frias e intelectualizadas, desdenhosas, usando os longos cabelos repartidos no centro e caindo sobre o rosto sexy, livre de maquiagem (exceto por uma camada libidinosa de pó branco nos lábios, que poderia ser cocaína) e meio oculto por um arco gótico de madeixas pendentes. Tais eram os partidários pró-K, tais os pró-Trump, naquela manhã de sábado em San Francisco, quando as crianças se alinharam para o jogo e eu comecei meu discurso de improviso: -------- Neste estado de .... (meus irmãos) guerra entre nobres e o novo interesse monetário pós-2008... o interesse monetário está, por sua natureza, mais disposto a qualquer... aventura ? ... e seus detentores, mais dispostos à.... iniciativas de qualquer espécie? Sendo de recente aquisição ou não? Aceitarão eles mais naturalmente qualquer novidade ? Qual o gênero de riqueza a que recorrerão os que desejam mudanças ? Algum multimilionário texano deseja mudanças ? A Loockheed Aircraft Company quer mudanças ? A Douglas Aircraft Company, a Boeing Company, a North-rup Corporation, o ''império financeiro '' dos Giannini (encabeçado pelo Bank of América), querem mudanças?????
Poderão todas essas forças juntas superarem o esforço de Wall Street, do grupo financeiro de Boston e do complexo industrial da Pennsylvania para promoverem minha candidatura na próxima terça-feira?
Poderão todas essas forças juntas superarem o esforço de Wall Street, do grupo financeiro de Boston e do complexo industrial da Pennsylvania para promoverem minha candidatura na próxima terça-feira?
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