sexta-feira, 10 de junho de 2016

DÉCIMO NONO CONTO AMERICANO.

Meu bom humor tornara-se uma ferramenta de tortura para muita gente: o mundo inteiro tinha medo da minha nomeação, e ela chegou tão prontamente quanto uma chuva ácida acompanhada de uma banda de gaita de foles. No hotel (aonde?) às quatro da madrugada: sempre tive mais pena dos que sonham com o provável, o profissional, o legítimo, o esperado e o fácil, do que os que devaneiam sobre o longínquo e o o estranho, pois os que sonham com o possível encontram apenas a possibilidade real da desilusão. Se os outros não estavam satisfeitos consigo mesmos ... Meu mal, até a nomeação oficial, foi apenas pensar que eu era mais inteligente que aqueles velhos entusiastas de 1789, 1848, 1870, 1917. Meu prazer ansioso e subjetivo era a certeza de que eu era mais esperto. Enfim: e era mesmo. Dear Chevalier, por um diabo de arranjo especial indescritível, os loucos sempre têm mais energia para queimar. E se William James estava certo, era porque William Blake estava certo, ERA PORQUE EU TAMBÉM SEMPRE ESTIVE CERTO. Felicidade nada mais é do que a busca no mais alto grau de ''energia psíquica'', e estamos neste mundo em busca de felicidade: então a loucura é pura felicidade e conta também com sanção política suprema. ------ Assim como o corpo é uma porção da alma dividida em cinco sentidos, um traje espiritual próprio havia se estabelecido no meu espelho (.) --------, eu disse para mim mesmo. Era uma advertência da febre de entusiasmo que lavrava meu coração naquele momento. Concordo, no entanto, que não era esse o aspecto mais tranquilo do meu pensamento: há pensamentos que parecem atravessar todos os portões protetores de nosso ouvido e atingir algum nervo onde a escatologia se armazena. Chamavam-me, sem delongas, de traidor, Judas, delator, puxa-saco, oportunista, alcoviteiro, golpista, mercenário, hipócrita e... adorava esse: DEMÔNIO. Estavam sentido-se humilhados, obviamente. Primeiro, minha reação era concentrar-me longamente na minha imagem refletida no espelho; segundo, um entusiasmo selvagem e explosivo. Ambos eram muito voluptuosos... mas, por fim, eu me perguntava como fôra capaz de adquirir tanta importância nas obsessões e fixações das pessoas, e, em alguns casos notórios, em seus ódios . Respondia-me que meu senso inato da Verdade deixava um rebanho de idiotas doente de inveja. Meu vôo vertiginoso pelos céus floridos da Verdade: uma carne semi-criada pela minha própria carne. Subitamente, eu revelava ao mundo que o conhecimento da semente é espiritual, e que meu espírito era um astro da Broadway. Outros, mais modestos, encontravam sua parcela de verdade escutando jazz no escuro; sonhos vagos, luzes confusas, paisagens perplexas... havia realmente algo de selvagem , marcial e sem fundo na minha relação com Deus, que remontava às origens do Universo: um orgulho que não podia ser exaurido, uma determinação inesgotável que talvez não pudesse mais ter fim, pois se alimentava apenas de si mesma. Felicidade, infelicidade da imagem ? Eu estava tentado a reconhecer nela, rigorosamente descritos, muitos dos meus sonhos, das minhas suspeitas e da minha obscenidade, e até o ingênuo e insinuante pensamento de que, se eu viesse a morrer por causa disso, faria passar muito da minha vida para as figuras eternamente animadas pela minha morte. E já que o devaneio de hoje deslizou nessa direção, lembremo-nos do Golem, aquela massa rudimentar que recebia vida e potência das letras que só seu criador sabia escrever, misteriosamente, em sua testa. Mas a tradição (eu pensava) engana-se ao atribuir-lhe uma existência permanente, semelhante a dos outros seres vivos. O Golem se animava e vivia com uma vida prodigiosa, superior à tudo o que o ser humano era capaz de conceber, mas somente durante o êxtase de seu criador . Era-lhe necessário esse êxtase, e a faísca raríssima da vida extática, pois ele mesmo era somente a realização instantânea da consciência do êxtase. Assim (concluía eu ), havia um amplo, ainda que secreto fascínio, em escutar as palavras que eu lançava no ar da América, estridentemente, o anúncio de uma nova cruzada, algo fanhosa, viking, que viria do Norte, uma sensação de quebra-gelos e escudos bárbaros, de caçadores à solta de novo na terra. E isso tudo possuía um fascínio que calava fundo nas pessoas, que excitou-as todo o tempo ao simples pensamento de que obteria a nomeação convencional, como se, agora, todas as mortes de alma acumuladas pelo passado, todos os fracassos, todos os terrores, pudessem ser agora expurgados numa situação nacional em que cada um de nós perder-se-ia numa avalanche de histeria belicosa coletiva. Havia no ar da América aquela excitação de que o fardo da alma de cada americano pudesse, finalmente, ser removido ----QUE ALÍVIO (!) A beleza era inspirada pela perspectiva da guerra. Pois se eu vencesse as eleições, e o poder de ferro da gente de ferro que me empurrava para adiante lançasse agora sobre a nação um regime de ferro, com o totalitarismo apossando-se da Televisão a cada jantar gelado, bom, então, uma verdadeira clandestinidade poderia finalmente formar-se; e também (consequentemente) a verdadeira liberdade, ao pensar-se em qualquer catalisador que pudesse dar-lhe origem. Sim, o movimento PRÓ-K. excitava as profundezas da psique americana porque o Apocalipse estava mais próximo e, como milhões de outros americanos brancos hiper-calóricos de temperamento violento, eu também levara uma vida sem nenhuma finalidade e demasiado encharcada de culpas, e a náusea afogava-me a garganta ao pensar nas transigências sem fim de um centro liberal e vazio. De modo que segui (vitorioso) para a Convenção com algo mais do que simples apreensão. O país estava dando uma guinada (perguntava-me), as cores definiam-se, as navalhas da noite eram empunhadas, algo do melhor na vida americana estava morrendo para sempre.. ? ; ou seria justamente o contrário ? , ou estaria o país começando, por fim, a transferir as tumefações de suas próprias contradições de uma pré-matura meia-noite de pesadelo para o terreno cirúrgico da ferida aberta na pele ? Estaríamos no princípio, ou dobrando o meio da nossa pior doença ? Não sabíamos mais, simplesmente, não era possível saber mais, embora uma coisa fosse certa: o país era agora uma preocupação cotidiana de todos os cidadãos. Aquilo lembrava-me Edmund Burke: '' ... Quando os homens estão confinados demais a hábitos de profissão e faculdade, e inveterados, por assim dizer, no emprego recorrente desse estreito círculo mental de especializações, encontram-se mais ineptos do que qualificados para tudo o que dependa do conhecimento da humanidade, da experiência em assuntos variados, de uma visão global e interligada dos diversos, complicados interesses externos e internos, que concorrem para formação e o desenvolvimento dessa coisa multímoda a que se chama Estado ''. 

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