Meu papel no momento era perfeito para meu tipo particular de talento: eu jamais iria descer plenamente do muro sem saber o que havia exatamente do outro lado, todos os pontos delicados no universo do ocultismo aplicado à política. Mas talvez eu devesse (pensava mais tarde) ser um pouco mais cauteloso e limitar um pouco as demonstrações públicos do meu verdadeiro senso de humor. O maior problema era que a civilidade hipócrita me era tão atraente quanto uma crise de desinteria. A PESSOA SÁBIA NÃO SE CONFUNDE. A PESSOA HUMANA NÃO DESANIMA. A PESSOA CORAJOSA NÃO TEM MEDO. Palavras aparentemente óbvias no meu último banner eleitoral, mas que faziam lembrar a paginação do The New Yorker, com suas vastas margens brancas e o reduzido texto. Na tv, muitos analistas prosseguiam seu discurso de apoio à minha candidatura, hora após hora, como o tempo entre as quatro da madrugada e o café da manhã numa maratona de dança. Com tais discursos, as demonstrações injetadas entre os ocupantes do tempo televisionado me traziam a reminescência de rechonchudos e idosos turistas fazendo a hula-hula no Havaí. Se fosse considerado anormal um candidato à Presidência dos Estados Unidos desaparecer esquecido do noticiário por uns dias, e contente de assim o ser ------ embora meu desaparecimento tivesse o sentido mais importante ------- eu pareceria ao público telespectador então algo muito clássico. Eu julgava frequentemente, com uma severidade quase agressiva, os grandes políticos do meu tempo dos quais me considerava um igual, mas que ainda não igualava em renome. Talvez quase. Aliás, eu não fui de modo algum ignorado durante meu desaparecimento. Meu renome era o de um grande político profissional, mas que só tinha tido até então pequenas participações em grandes eventos partidários. Faltava-me o número, o peso da Máquina Administrativa no meu passado. Na minha última aparição pública, expliquei-me aos repórteres que me criticavam que o conhecimento que se tinha de mim era proporcional à ignorância: ------- Tanto conhecido como desconhecido, o que não quer dizer meio conhecido, mas produz uma mistura esquisita (.) ------, depois disso , havia sido a vez da turma de oradores que secundaram os votos dos patrocinadores da minha nomeação, as carpideiras e os aflitos, os que espremem, retorcem, distorcem e metem o nariz onde não foram chamados; os que protestam e reclamam, os chatos ministeriais e os parasitas rabínicos, os auto-satisfeitos, os narcisistas que me usavam como espelho, a turma dos ''estou contente que você tenha vindo, visto e vencido '', os auto-ungidos, os untuosos, os sebosos, os aproveitadores e os hesitantes. O dinheiro é que marcava a distância entre o sucesso e o fracasso na política. Mas, neste caso, eu não conseguia compreender porque. Respondia-me, confuso, que, talvez, quando se obtinha dinheiro sofria-se uma metamorfose e era preciso lutar contra poderes terríveis, dentro e fora de nós. Não havia mais, nos nossos dias, mais quase nada de pessoal no sucesso político. E tampouco nos outros setores da sociedade. O sucesso era sempre o sucesso do próprio dinheiro. Na TV, eu poderia ter confessado ter confessado que não queria mais levar à sério perguntas feitas em tom sério, perguntas sobre metafísica, meta-política ou política nua e crua, mas que eram formuladas de maneira errada. Eu almejava agora, para a reta final da campanha, apenas uma ternura pessoal. Estava quase resolvido a abrir meu coração na TV. Senti, na ocasião, que poderíamos ter discutido montes de assuntos fascinantes ---- por exemplo, porque o cochilo da tarde aparentemente matava o espírito dentro das pessoas, ao invés de expandí-lo; ou porque o despertar da população em geral era tão convulsivo; ou mesmo se a TV acreditava realmente que o espírito podia mover-se independentemente do corpo; ou se sentia que podia de fato existir uma espécie de consciência que não necessitasse de qualquer base biológica: Pois eu estava tentado a confessar publicamente que (no auge da minha campanha presidencial) havia adquirido uma, e que isso me ensinava, a cada noite, um sem número de noções esotéricas sobre o problema da morte. Por fim, ponderei comigo mesmo se discutiria seriamente com a TV a`famosa atribuição feita à Walt Whitman, que estava convencido de que a democracia americana fracassaria, amenos que seus poetas lhe dessem grandiosos poemas sobre a morte.
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