sexta-feira, 17 de junho de 2016

VIGÉSIMO SEXTO CONTO AMERICANO.

Era isso: metade da minha delegação parecia composta de soturnos conspiradores disfarçados de red-necks que, assim que terminado o conluio eleitoral, estariam dispostos a lançar fogo à tudo que aparecesse pela frente. A impressão que tinham de mim era a de um paredão humano que sempre aparecia em público muito polidamente, as mãos conservadas atrás das costas. Eu tinha, na verdade, o ar de um general cujos pensamentos estão sempre acompanhando um batalhão nas suas lutas sangrentas, logo ali, além daquela montanha em chamas. De fato, eu não tinha nada para dizer à você, caso você fosse apenas um civil importuno, surgindo no meu caminho no momento errado. Minha fisionomia se destacava, pois era a mais adequada para um líder, sempre oferecendo aos meus observadores ocasionais a honra duvidosa de uma batalha nas planícies (olhos vazios como uma imensa planície ), advertindo a todos de coisas como: ------ Não olhem demais para o passado. Vocês podem se tornar uma pedra de sal e acabar sendo lambidos por uma vaca (.) ----, mas, com essas palavras, eu pretendia apenas reduzir Satã à Obediência Automática, para sublimar qualquer inimigo subsidiário. ------- Banirei os candirus de suas piscinas. Caçarei os Marajás em seus resorts (.) -------, mas, claro, eu não tinha exatamente o ar de um chefe de salteadores, o orgulho dos Pikertons e chefão político tudo junto; não: nem lembrava um amálgama político de Wallace Beery e do gordo Hermann Goering; não: apenas empunhava uma bandeira de seda branca com um frasco de Dilaudid roxo desenhado no centro, que drapejava no ar como se empunhada por um cavaleiro montado num corcel. Na ocasião , eu trajava meu colete negro, enquanto datilografava mais uma sentença de morte: ''Façam tudo parecer legítimo, pessoal. '' K.M. P.S:. ''Nada a ver com narcóticos ''. Assim, eu obtinha mais um orgasmo por meio de uma fraude. Motel: um arabesco de neon defeituoso. Meus bagos espremidos até o bagaço na área onde as coxas dela se encontravam com as nádegas. ---- Você vai indo bem, estamos progredindo (.) ----, ela murmurou nos meus ouvidos. Eu me sentida humildemente agradecido por poder fazer aquilo pela América. A Carolina do Sul estava toda dentro do meu domínio imediato. O Motel era nossa ducha íntima, após uma maratona pelo país inteiro. Brincando com minha ereção angelical a noite toda, consegui não ejacular sobre os pântanos salgados dela. Mas quando a contagem foi concluída, e os delírios apaziguados em nossos ventres, um ''ooooohhhh'' de prazer subiu de dentro dos meus pulmões, como o ''ooooohhhhh'' dos pulmões dela, semelhante ao ''ooooohhhhh'' de uma acrobata sobre o trapézio. A única maneira de sobreviver àquele tipo de vida era cercando-ze de certezas insólitas à bordo de um vôo noturna nas asas do Dilaudid, a água do lavabo queimando meus olhos como ácido.... Nua, ela saiu da cama. Pegou a droga escondida no abajur. Deitou-se de novo. Virou de bruços, rolou, rolou a cama inteira. Minha ereção se dissolvendo aos poucos na gosma cinzenta de seus olhos. Em um vale de morfina desidratada, os olhos dela eram tristes o suficiente para me inspirarem um rápido discurso naquele momento. Levantei-me e percorri o quarto com um passo medido e lento, como um rapaz que carregasse um vaso litúrgico contra o peito. Fiz um discurso límpido, numa voz infantil e algo vibrante: era o que eu sabia fazer de melhor, e estava dando à ela a impressão desejada, calmante, de alguém que faz propaganda de si mesmo com fé e paixão: -------- Democracia é propaganda. Por parte do governo a propaganda penetra todos os aspectos da vida... divide-se em partes que formam uma unidade e assim deve ser encarado, mas tais partes podem ser abordadas em qualquer ordem cronológica, jogadas de um lado para o outro e exploradas de frente e sobretudo de costas: é exatamente isso que a mídia faz com governantes e candidatos, tratando-os como um objeto sexual côncavo especialmente interessante. 

Sorria-me, simpatizava muito comigo; havia até um certo ar de família no espaço vazio entre nossos olhares. ------- Perigosamente impulsivo, K (ela disse), espalhando a destruição na paisagem mundial para colher especulações injuriosas, arrogantes (caos e tumulto: leviano em tudo aquilo que diz; ''A hipocrisia '', diz seu amado Edmund Burke '' Compraz-se nas especulações mais sublimes; pois não tenciona jamais ultrapassar os limites da especulação, nada custa fazer com que seja magnífica (.) ''. ------, concluiu ela. Mas em qualquer parte do meu pensamento, menos na política, a rapidez com que minha posição fôra alterada momentaneamente por suas palavras era sintoma de uma instabilidade monumental. A política era o lugar onde ninguém, afinal , pensa realmente aquilo que diz ------ é um mundo de pesadelo, onde os psicopatas vagueiam livremente. Os profundos e candentes conflitos dos políticos são como as brigas de prostitutas num puteiro ----- arrancarão os cabelos umas das outras esta noite, mas amanhã estarão fazendo algum truque juntas. Naquele momento, ela olhava para mim com o ar de quem está sonhando, sob o efeito do Dilaudid. Eu era manhoso como um gato, e fiquei com vontade de discutir a questão. Edmundo Burke me era tão caro, que citá-lo diante de mim me deixava febril. ---- ''Somos ensinados por algum sábio preconceito a olhar com horror para aqueles filhos de seus países que estão prontos, irrefletidamente, para retalhar seus maiores em pedaços e metê-los no caldeirão dos mágicos, na esperança de que, por suas decantações e encantações selvagens, consigam regenerar a constituição paternal e renovar a vida de seus pais '', Edmund Burke (declamei à ela, e acrescentei sensatamente: ''Reflexions on The Revolution in France (.) ----, e senti que, apesar de tudo, tinha conseguido colocá-la à prova, com este trecho. Além do mais, vali-me teatralmente da minha testa de intelectual, mesmo que ela fosse um pouco infantil, do meu nariz torto, do meu olhar vazio traindo um incrível poder mental, virilidade, nobreza, conhecimento alquímico, acesso à informações privilegiadas, tudo, porém, traindo também um toque de menino mimado. 



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