sexta-feira, 17 de junho de 2016

VIGÉSIMO SÉTIMO CONTO AMERICANO.

Eu estava tentado a convencer-me: não sei nada sobre isso. Extrair artistas de capitalistas é uma idéia humorística de certa profundidade. Os Estados Unidos decidiram testar as pretensões da estética mundial julgando-a em termos de dólar. Talvez a imprensa não tenha lido corretamente a transcrição dos meus primeiros discursos, onde digo que não tenho qualquer participação nessa merda de arte e literatura. Talvez eu não estivesse no meu juízo perfeito ? (perguntaram-se) Minha personalidade, tal como relatada pela autoridade dos melhores bisbilhoteiros, era muito diferente da minha presença pública. Ao vivo, eu não era, pelo que diziam , muito diferente do Broderick Crawford de All The King´s Men: rugindo, adulando, berrando, enfiando o indicador no peito dos republicanos, abraçando suas filhas pelos cantos, exigindo comida de primeira na mesa, mesquinho e rancoroso, vingativo - encarniçado - cruel - generoso - inquieto - vaidoso - subitamente ensimesmado ou deprimido, então distante, dissolvente, depois arrogante e prepotente, bruscamente humilde de novo, para logo depois me exaltar e gritar mais um pouco nos ouvidos estraçalhados da audiência. Eu transigira em demasiadas contradições, e agora as contradições estavam expressas na minha cara. Quando eu sorria, dos cantos da minha boca escorriam frieza; quando eu era compassivo , meus olhos rebrilhavam de ironia; quando falava num tom justo, parecia um corrupto; quando gracejava, meu pescoço latejava estranhamente. Há dois dias, aquele auditório do Texas tinha rido como se eu fosse William Faulkner falando sobre a família Snopes. Mas o quê aquilo causava nas pessoas ? Retraía-lhes o diafrágma ou coisa parecida?? Ora, eu sempre fora um rapaz atlético, desde os tempos doquartel: fazendo barras, brandindo tacos e punhais, levantando alteres, chutando o saco de boxe e dependurando-me em coqueiros como o Tarzan dos Macacos. Mas o que sucedia com a platéia ?? Nada demais: deviam apenas fazer uma má idéia do que acontecia quando eu me trancava no toalete. Eu era um filho da puta egocêntrico, dono de uma prosa dura como um cacetete, envenenada pelo pressentimento de uma avalanche de más consequências. Meus textos tinham pedaços horríveis: ''Num daqueles dias, quando eu estava retornado de outro almoço, do s que passam rapidamente da boca para o cu, perguntando-me quanto sal era preciso para se digerir o Ocidente Indigesto. ------- O que você está pensando, K (?) --, perguntou o Turista Brasileiro . -------Que cacos de assassinato desabam lentos, como lascas de opala atravessando glicerina (.) -----, eu disse, e fiquei observando ele cantarolar ''Johnny´s So Long at The Fair '' sem parar, com aquele sotaque subdesenvolvido. ----- Quem diabos você pensa que é (?) --, perguntou-me de repente, irritado. --- Um desses escritores que misturam Dilaudid com álcool, em horas insuspeitadas da noite, e conseguem aquilo que você nunca conseguirá (.) --- , irritou-se mais ainda. Ficou histérico, ventos em carne viva traziam ódio e infortúnio para dentro de seus olhos, enquanto a ampulheta escorria seus últimos grãos negros para dentro do seu ânus. ----Você vive perdido entre pequenos cacos de prazer e pergaminhos flamejantes, e chama isso de arte (.) ----, ele disse. Era o cadáver de um homem derrotado falando, seus recursos haviam acabado. - Sem mais conferências choronas pra cima de mim. Vocês estão sempre tirando alguma teoria extravagante sobre mim de dentro do rabo(.) - ''. De fato: um dos desgostos daquela gente era não poder mais me alcançar. Não conseguiam nem ao menos se fazer ouvir entre si. Mas nas alturas do Grande Capital americano haviam também coisas que não me despertavam confiança alguma: eu tinha percebido que a América caminhava para dificuldades econômicas há décadas, quando começaram a disponibilizar dinheiro demais para patrocinar artistas em escala industrial. Julgava-me pelos padrões correntes: tinha tentado ser fotógrafo de modelos, lembra ? - Eu ?? Quando foi isso ?? --, naquele momento, as lamas de um bilhão de leitoras no mundo todo adejavam como fantasmas sobre o verniz da grande capota negra do meu maverick. Logo mais, haveria um programa recreativo para todas elas, com oferecimento gratuito de exercícios calistênicos em massa, num estádio com ar condicionado e zimbórios envidraçados. Ali, sob a supervisão de uma velha de óculos escuros, elas poderiam se recuperar do contato com minha prosa abominável... 

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