terça-feira, 14 de junho de 2016

VIGÉSIMO QUARTO CONTO AMERICANO (24)

 
VIGÉSIMO QUARTO CONTO AMERICANO (24)

A política americana estava agora acessível à principal doença da androgenia iniciática: a magia negra. A magia negra, ao contrário da alta magia, é algo capaz de arrebatar a atenção do mundo inteiro com extrema facilidade. Aquilo que é o sonho de consumo de todos os apresentadores de programa de auditório do primeiro mundo, só o mago negro consegue. E muitas vezes, o consegue por mero capricho e vaidade. Só para lembrar ao mundo de que ele é infinitamente superior aos seres humanos. Que pensar então dos que no terceiro mundo tentam imitar os do primeiro? Não existem, não são ninguém. Nas teorias do Dr. Freud, tenta-se compreender os pacientes com o auxílio de esquemas equivalentes à sistemas hidráulicos, que se encaixam bem nos cérebros de rato de laboratório da publicidade mundial, mas se reduzem à pó diante de um mago negro. Nas teorias do Dr. Jung, divaga-se com o conceito de que há apenas uma psique, e que ela é oceânica. Melhor, melhor... eu pensava. Muito mais tarde, sozinho no hotel, depois da leitura integral de toda plataforma do Partido Republicano, sobreveio-me o debate entre os moderados e os conservadores. Dei de ombros: o êxito na política , na minha opinião, resultava apenas de se instalar o traseiro numa poltrona e ficar sentado e quieto enquanto se desenrolavam as discussões cacête da mídia, de modo a estar sempre presente depois da meia-noite, quando os votos dos assíduos do clube secreto da Mão Esquerda são recolhidos. Os playboys não vão muito longe nestas circunstâncias, nem os meros aventureiros; os medíocres reconheceram cedo que uma sociedade se estava definindo, o qual os habilitaria a empregar aquilo que até então tornara a vida intolerável: a própria mediocridade. Assim , os temerosos, os covardes, ocupam seu lugar mo poder. Tinham a superior habilidade de respirarem nas horas mais maçantes. Assim (é o que vos digo), uma vez a cada cem anos, acada setenta anos, como um grande vendaval sangrento que ludibria os boletins meteorológicos e policiais, e parece surgir das profundezas do próprio oceano da Psique, assim um ciclone varre um determinado contexto político, quando este alcança o paroxismo de uma encruzilhada de vida ou morte. Naquele exato momento, abri o diário de Herman Melville, de 1857: ''... Fui à cavalo de Ramlah à Lydda... uma escolta montada de trinta homens, todos armados. Magnífica excursão. Tiro de mosquete. Arabescos e caracóis dos cavaleiros. Batedores. Homens cavalgando com todo o peso para um lado só, zombando do perigo '', e, poucos dias mais tarde, sobre a aridez da Judéia: ''.... um mofo leitoso espalhando-se por grandes porções da paisagem ----- caiada lepra ----- incrustação de maldições ------ queijo velho ---- ossadas de rochas ----- mascadas, roídas e resmungadas ------ simples refugo, lixo da criação ----- como o que jaz fora do Portão do Jaffa ----- toda a Judéia parece ter sido uma imensa acumulação desses detritos.... nada de musgo como em outras ruínas ------ nenhuma graça na decadência ----- nenhuma hera ----- a nudez ázima da desolação ------ cinzas alvejantes ----- caieiras ... ------ aldeia de leprosos ----- casas voltadas para a muralha ----- Sion. Seu parque, um monte de estrume. Sentam-se aos pés dos portões, pedindo esmolas ------ lamuriando-se ------ evitação deles e horror.... Errando entre as tumbas ------ até que começo a pensar que sou eu mesmo um daqueles possuídos pelo Demônio (.) ''

K.M.

Nenhum comentário:

Postar um comentário