Na manhã de Domingo, eu pude ser visto numa entrevista coletiva no San Francisco Hilton, contemplando pela vidraça a cidade natal de Bruce Lee. O Salão Coríntio, no andar nobre (quartel-general da imprensa), era uma balsa toda branca, talvez de quinze metros por doze, com um teto baixo e o gigantesco tumor de um candelabro moderno feito de peças de plástico verde-elétrico, as cadeiras de repouso (umas duzentas) revestidas de um plástico da cor de aspirinas úmidas, e as paredes brancas ------ de um branco hospitalar. Eu, porém, era como uma mosca estonteada em torna da lâmpada elétrica. Baterias de luzes estavam assentadas sobre mim, luzes de cinema, luzes de tv, milhares de watts nos olhos é o preço médio que um político paga pela sua entrevista coletiva. Damos a todos eles um supremo instante de pátina, respondendo nossa pele ao apelo da natureza; há perigo , por que a entrevista cria o momento em que o ator deve caminhar para as engrenagens da máquina, meter-se nelas. Enquanto for apenas cem para um ou mil para um, sei que eu não cometerei erros, pois minha campanha pode acabar num tropeção. Apenas que eu seja notícia num determinado dia ----- que um importante pronunciamento esteja para ser feito ------ a entrevista coletiva é, assim, um preço convencionado a ser pago para se continuar no jogo, visto haver muitíssimos dias em que é do meu maior interesse, do meu partido e da minha ala partidária, não ser notícia de espécie alguma e, pelo contrário, reprimir toda e qualquer notícia. Apesar disso, não quis me tornar demasiado chato, ou acabaria prejudicando minha própria posição nas pesquisas com certos comentários. De modo que tentei me mostrar interessante sem revelar coisa alguma, recorrendo ao truque dos eventos passados, ao passo que o interesse da mídia estava em fazer-me revelar alguma coisa atual: ------ Vietnã político. Waltergates, Mansons, Amins, massacres, terroristas em Jogos Olímpicos. Mas passemos a assuntos mais contemporâneos: A maior parte dos convidados aqui concordam que as dificuldades internas da Rússia não são tão graves a ponto de lhe obrigar a se afastar da Síria. Ora, tenho ouvido conversas desse tipo por todo o país... são as mesmas conversas do mundo inteiro de um século atrás. As pessoas inteligentes, bem informadas, diziam nos últimos anos da República de Weimar, o que confidenciavam umas às outras nos primeiros dias em que Hildenburg chamou Hitler. Conversas de mesa dos tempos de Léon Blum e Edouard Daladier. Procurem saber o que eles diziam da aventura italiana na Etiópia e da Guerra Civil espanhola, e da Batalha da Inglaterra... essas discussões inteligentes não estavam sempre erradas. O que havia de errado com elas era que os participantes invariavelmente punham sua própria inteligência no que discutiam. Mais tarde, apareciam estudos históricos provando que aquilo que de fato aconteceu era destituído de qualquer inteligência: essa inteligência estava ausente dos Campos de Flanders e de Versalhes, ausente quando o Ruhr foi tomado, ausente de Teerã, Yalta e Postdam, ausente da política britânica ao tempo do Mandato Palestino, ausente antes, durante e depois do Holocausto. História e política não são absolutamente noções desenvolvidas por gente inteligente e bem informada. Tólstoi deixou isso claro nas primeiras páginas de Guerra e Paz. Já no salão de Anna Schérer, os convidados elegantes discutiam o escândalo de Napoleão e do duque de D´Enghien, e o príncipe Andrei comentava que, afinal de ocntas, havia uma grande diferença entre Napoleão Imperador e Napoleão pessoa privada. Havia ''raisons d´état''' e crimes particulares. ... ) -------, com isso, eu iniciei conscientemente um estranho jogo de forças metafóricas com a audiência, com cinco ou seis níveis simultâneos de significado: Nixon costumava ser bom nesse jogo, até o dia em que inguiçou. Eisenhower foi bastante bom, no seu tempo. Meu adversário não podia ser considerado mau nesse jogo: ele tentara convencer a mídia de que a plataforma republicana agora era forte a respeito do crescimento econômico e da criação de empregos, que escorria como uma baba vigorosa nas falas mansas dos egg-heads de sua campanha, capazes de aguentar pancadas ao vivo por meia hora, esquivando-se das perguntas esquisitas com a agilidade de um negro. De modo que meu adversário disse finalmente, na tv (assistíamos ao vivo) : ------- Trabalhamos arduamente na elaboração dessa plataforma. É uma bela plataforma. Estamos todos orgulhosos dela. -------, e isso fez com que metade da mídia liberal batesse em retirada e se reagrupasse para um novo ataque. Ora, mas minhas entrevistas eram diferentes das dele, claro ----- porque ninguém podia estar de antemão certo de que eu fazia parte do jogo que jogavam, ou era uma pista falsa para desviar todo o mundo da minha verdadeira caça. O sentimento foi a impaciência das perguntas, um sentimento de irritação, uma insinuação de ampla animosidade por parte da mídia; um repórter geralmente despreza um político que não seja profissional, como eu, pois o jogo tende a se tornar surrealista demais, e a função dos jogos políticos é manter o sonho, os pavores e o surrealismo no fundo da noite a que pertencem. O hoje político da mídia é um mecanismo de contenção linguística, por isso acossar-me-iam, tentariam cercar-me e imobilizar-me numa prosa funcional e coerente: ''Mr. K., Mr. K., poderia dar alguns nomes de delegados que passaram do outro lado para o seu (?) '', perguntavam. ------- Houve algum (?) ------, respondi, ironicamente. Risos abafados na audiência. Certamente... Alguns achavam que a preguiça era um dos meus maiores pecados como candidato, ao que eu respondia que a preguiça tinha a função aristocratizante de cobrir uma boa porção de desespero. A preguiça era realmente uma função aristocrática da tarefa hiper-ativa de auto-superação. Essa solene atividade (eu pensava) afugenta o magnífico repouso da mente ou o equilíbrio psico-social sem o qual não pode haver poesia, arte ou pensamento na prática política: nenhuma das mais altas funções do espírito humano. A filosofia antiga distinguia perfeitamente o conhecimento adquirido por esforço (ratio) e o conhecimento recebido (intellectus) pelo espírito atento que pode ouvir a essência das coisas.
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